A vida como escolha

Morning Sun, de 1952, de Edward Hopper.

“É pelas escolhas que nos formamos, que decidimos os nossos caminhos. No fim de todas as escolhas, de todas as seleções feitas, vamos escrevendo a nossa história pessoal, determinando a nós mesmos o que é importante, qual caminho vale a pena ser percorrido.” 

Por Tobias Goulão

Em nosso dia a dia estamos correndo com muitos afazeres, realizando atividades e nos locomovendo para vários lugares. Normalmente muitas dessas tarefas são automáticas, feitas mediante uma rotina que se construiu previamente por conta do trabalho e, orbitando esse que é um dos pontos de grande importância em nossos afazeres, tentamos organizar o restante. Um ponto que cabe levantar é o quanto se pensa no que está sendo feito. A questão é simples: quais são os objetivos para todos os afazeres? Eles estão enquadrados em algum projeto ou simplesmente são automáticos e se repetem sem preocupações além de esperar o final de semana na tentativa de esquecer tudo até que volta a semana?

Em muitas situações a versão “cíclica” do tempo parece ter conseguido um espaço grande, e tal perspectiva elimina da vida outras possibilidades. Algumas destas podem ser simples, como escolher um filme e ler um livro por algum motivo maior que passar o tempo. Temos interesses grandes, e o trabalho, junto aos outros compromissos diários são parte, não o todo. Deveriam ser enquadrados em uma escala maior e que não viesse a tornar o tempo um ciclo automático. Por isso levanto a necessidade de um projeto, porque ele é o direcionador da vida. Ter a perspectiva de onde se quer chegar, de realizar uma narrativa pessoal com unidade, que responda ao chamado pessoal é uma atividade importante para toda a pessoa. E, por isso, é muito importante saber a necessidade de escolher o que fazer, ou melhor, ao que dar a devida atenção.

Vejamos o seguinte fator: você que agora lê isso poderia estar lendo qualquer outra coisa. A atenção despendida para essa ação, a decisão tomada, limitará suas possibilidades daqui para a frente, já que estar lendo algo – digo lendo de verdade, com o mínimo de atenção – então está a realizar uma atividade exigente, que te toma um tempo e que determinou alguma mínima seleção por qualquer critério que tenha adotado.

Em nossas vidas, a todo momento, estamos saltando em nossas potências, realizando uma entre inúmeras possibilidades. E mesmo que mudemos de ideia e não prossigamos com a escolha inicial, ela não se anula. Já está inscrita no ser e não pode deixar de ser. Aquilo que foi feito é, porque não se desfaz, e nossas escolhas, das mais simples as mais complexas, estão nesse cenário. Entre ficar mais tempo na cama, ou levantar em um minuto heroico, tudo insere na ordem pessoal uma quantidade de possibilidades novas, boas ou nem tanto.

Em um de seus textos no livro “Dialética das Consciências” o filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva fez um comentário muito provocador sobre o assunto das escolhas na vida humana. É uma chamada a darmos mais atenção para esse fator inquestionável de nossa realidade como seres que estão vivendo, no gerúndio. Abaixo está o trecho em que Vicente escreve sobre o assunto:

“A escolha, no homem, é sempre seleção, alternativa, provação, o que distingue essencialmente de todas as coisas que podem passar por diversas fases de elaboração, permanecendo sempre aptas a serem conduzidas à perfeição previamente estabelecida. Ao optar, o homem cria condições novas e particulares, novas determinações do seu ser, que passam a limitar e cercear as novas opções, apresentando à sua vida um conjunto circunstancial sempre diferente. ‘Inexoravelmente’, diz Ortega, ‘o homem evita ser o que foi. As experiências de vida já feitas estreitam o futuro do homem. Se não sabemos o que o homem será, sabemos o que não será’.”


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É pelas escolhas que nos formamos, que decidimos os nossos caminhos. No fim de todas as escolhas, de todas as seleções feitas, vamos escrevendo a nossa história pessoal, determinando a nós mesmos o que é importante, qual caminho vale a pena ser percorrido. E mesmo que as escolhas tenham resultados inesperados, saber lidar com essas possibilidades e seguir rumo ao esperado é uma importante ação. E com esse esforço vital contínuo, ao fim, teremos toda a possibilidade de entregar uma história que, mediante nosso amadurecimento e enfrentamento da vida que se dá, poderá ter certa unidade. A unidade da vida, mediante nosso projeto para ela, é o ideal a ser alcançado.

Um exemplo sobre a questão das seleções pode ser retirado de uma breve observação sobre as produções intelectuais e, principalmente, acadêmicas existentes hoje. No livro “El intelectual y su mundo”, Julián Marías tratará da quantidade incalculável de material produzido e publicado pelos acadêmicos e intelectuais no séc. XX.

Nighthawks, de 1942, de Edward Hopper.

Marías ressalta a impossibilidade de se acompanhar as publicações acadêmicas devido ao seu volume quantitativo exorbitante. Ele trata da forma como era isso há séculos atrás, onde um estudioso erudito em determinado campo poderia acompanhar livros e revistas nas quais seus interesses eram veiculados. Hoje, acompanhar a produção intelectual em revistas e livros é tarefa hercúlea, praticamente inviável pelo tempo que tomaria.

Esse é um exemplo de situação que exige a seleção. Para o trabalho intelectual seguir, ou mesmo para as leituras de temas pessoalmente relevantes continuar, há uma imensa necessidade de seleção. Ao acompanhar as modas e tendências que surgem em todos os espaços da vida -e na academia não é diferente- se faz, cada vez mais, necessária a seleção. E como mencionado, toda seleção é exclusão.

Ao não acompanhar as modas e tendências, ao se restringir no núcleo próprio de interesses estamos fazendo isso em uma das escalas da vida. Deixando de lado grande parte do oceano de produções para focarmos na pesca em uma região específica. Pode se limitante, mas veja que a metáfora do oceano nos leva a navegar pelos vários assuntos, saber que existem, conhecer certo caminho e só aprofundar nas águas certas. Não é uma completa anulação, mas uma seleção. E para selecionar é importante saber o mínimo. O trajeto na busca dos nossos interesses é como essa navegação que tomamos mar a dentro em prol do que está naquela profundidade específica.

Em nosso dia a dia o processo é similar. Deixar de lado certas discussões evanescentes, as águas rasas e próximas ao litoral, para procurar o local específico onde ficam os assuntos vitais. Ou seja, passar por toda a tormenta de discussões midiáticas que tomariam um tempo absurdo, deixar de lado certas ações e atitudes, escolher entre passar horas no celular por nada e trabalhar em um texto, fazer bem e com atenção o trabalho diário ao invés de se perder em minúcias efêmeras.

Vivemos e escolhemos a todo instante. Portanto, faz-se cada vez mais seguir algum projeto. Em termos mais específicos: é necessário conhecermos bem os nossos interesses e dedicarmos a eles. É essa a dedicação à qual somos chamados. É a nossa vocação e realização que está em jogo. E, diferente de quaisquer outras modalidades de jogos, não há como “salvar” e voltar depois para ver as opções. Nossa vida é uma história que não manipulamos como manipulamos as histórias em um livro ou filme. Ela passa e não volta.

E por não voltar é drama contínuo. Realização que não para um instante antes do ponto final.

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