Bernardo Sayão- o Bandeirante do século XX…..

Bernardo Sayão Carvalho Araújo

Por Maria Helena Romanchelli

Até a 1º metade do século XX, o Brasil se resumia quase que exclusivamente aos estados do litoral, Goiás, Mato Grosso, Amazonas e demais estados do seu interior estavam estagnados, atrasados por falta de uma política voltada para a integração nacional.

 Imaginem que até então Jaraguá tinha só 2 rádios que pegavam muito mal as notícias, tinha dois carros e um caminhão, geladeiras nem pensar pois a energia elétrica era gerada num gerador à diesel o qual às 10 horas era desligado e todos ficavam no escuro ou à luz de lamparinas. Foi aí, que o então presidente Getúlio Vargas resolveu criar “A Marcha para o Oeste” 1937– 1941, como ficou chamado o projeto, onde nos estados esquecidos, estabeleceria pólos de desenvolvimento, e, para Goiás,  seria a criação da Cidade de Ceres, como atrativo para novos investimentos e nova e moderna produção agrícola.

Para tal empreendimento convidou o Engenheiro Agrônomo Bernardo Sayão de Carvalho Araújo, um homem de 1.84m de altura,  “com uma capacidade descomunal de trabalho”, como disse mais tarde sobre ele, o presidente JK.

Chegou a Anápolis e de lá sobrevoou o território até onde deveria ser construída a cidade de Ceres – nome da deusa da Fertilidade para os gregos e romanos- um bom significado para o objetivo. Aí se deu o início, homens trabalhando numa estrada de Anápolis para Ceres e outra turma de Ceres para Anápolis.

Abertura da estrada

Bernardo Sayão achou por bem morar no meio do Caminho para dar assistência às duas frentes de trabalho. Alugou o sobrado onde hoje é o Banco do Brasil em Jaraguá. Estava muito arruinado. Deu uma arrumada nele e entrou com a família.

Esse sobrado havia sido construído por Fernando Bicudo de Andrade, herói de Guerra contra os franceses no Rio de Janeiro em 1711, para alojar sua família no início de Jaraguá, em 1727. Exatamente 200 anos depois aloja um novo herói da história, Bernardo Sayão. O proprietário, na época de Bernardo, era Mario Felix de Souza, de família tradicional, sobrinho trineto do nosso outro herói General Joaquim Xavier Curado, criador do Exército Nacional.

Vejam que esse sobrado teve uma história fantástica. Lá nasceram mais 3 generais. Cabe aqui observar que Jaraguá é berço de 4 generais. Não é qualquer cidade que tem tal distinção.

 De Bernardo Sayão não foi cobrado aluguéis, pois a reforma já deixou o proprietário satisfeito. Aí ficou 3 longos anos com sua 2º esposa, Hilda Fontenele Cabral, e 2 filhas, Lea e Lais, mocinhas do 1º casamento com Ligia Mendes Pimentel que havia falecido pouco anos antes de Bernardo assumir o épico emprego federal.

Era um homem muito alto para a época, nos seus 40 anos, de pele branca queimada pelo sol, vestia sempre roupas de cor caqui, própria para labuta. Os Jaraguenses raramente o viam pois saia no seu jipe ainda de madrugada e só retornava no meio da noite todo sujo e suado como qualquer trabalhador braçal. Sempre que possível, os dois vizinhos, da esquerda e dá direita, vinham dizer um bom dia e arrancar 2 dedinhos de prosa.

Dizem que a comoção faz com que as pessoas endeusem um personagem, mas todos que o conheceram garantem que não é por isso que contam os casos envolvendo–o, pois muitos personagens importantes morreram e não deixaram boas lembranças.


Leia também: O viajante


 Algumas histórias sobre ele registro aqui:

1. “Ele não fazia picada para chegar em pontos estratégicos para a nova estrada, ele sobrevoava com o seu velho avião paulistinha, construído pela Universidade de São Paulo, e marcava os pontos e dai fazia a picada, o que dava uma boa dianteira nas obras”.

2.“Quando chegaram no Rio das Almas, estava tão cheio, e com muita corredeira. E agora? Como atravessar? Todos da frente de trabalho ali se indagando quando veem o chefe tirando a roupa, mordeu a ponta de uma longa corda e se jogou no turbilhão de água, chegando ao outro lado amarrou a corda, dando segmento ao trabalho”.

Imagino que foi uma visão impactante quando chegou do outro lado, todos boquiabertos vendo-o atravessar o rio revolto. Ele era carioca e foi remador de regatas para o clube do Bota Fogo, portanto um homem experiente no quesito águas.

3. “A estrada aproximava já de Jaraguá de um lado, vindo da recente Ceres e do outro lado vindo de Anápolis. Ele atendia uma frente e atendia a outra num frenético vai e vem, e, cada vez mais Jaraguá ficaria fora do percurso,  pois em linha reta ela passaria por Mirilândia e Jaraguá ficaria mais uma vez fora da estrada mais importante. Com sua permanência aqui ficou sensibilizado com a necessidade de entortar a estrada um pouquinho para que a cidade não ficasse isolada. Um belo dia chegou  a notícia de que entortaria para a esquerda, alterando o projeto inicial e manteve também  na Belém – Brasilia quando a construiu  (como se vê hoje no mapa).

4. “Um belo dia o avião estragou, ele desmontou parte do seu jipe e adaptou ao avião “.

5.“Quando as frentes de trabalho já estavam quase se encontrando nos arredores de Jaraguá, os jaraguenses acordaram de manhã assustados, como era época da 2º guerra mundial, pensaram que era barulho da guerra que estava aproximando da pacata cidadezinha. Não, eram os roncos dos tratores de esteira em número de 5 unidades que chegavam.  ERA O PROGRESSO batendo à nossa porta”.

6.“ Com tanta dedicação e trabalho reconhecido, um certo dia recebeu uma intimação, foi processado! Motivo: Foi enviado um dinheiro federal para construir boas casa para ele e altos funcionários em Ceres. Ele pensou: o que adianta casas bonitas se não tem estradas? Vou usar esse dinheiro para terminar a estrada primeiro. Isso foi suficiente para enfurecer certos  órgãos federais mas ele era tão querido que esse processo logo foi arquivado. Ele era um homem  que tratava bem os empregados, comia no mato junto com os peões. Quando não dava pra voltar para a casa a noite, ele se ajeitava na barraca com os peões, contavam piadas e riam até tarde”.  A conquista até Ceres estava pronta, antes de encerrar o mandato de Getúlio Vargas.

Tanto esforço não ficou despercebido a um grande estadista que despontou, o próprio presidente Juscelino Kubstichek, que o convidou para fazer a Belém-Brasília.

7 . “Ele não gostava de esquentar lugar na prefeitura. Não gostava de política, mas candidatou em 1954 a vice-governador, ganhou, e inteirinamente chegou a chefiar o estado por 1 mês e logo abandonou o cargo. Esse negócio de usar gravata e ficar atrás de uma mesa não era com ele”.

8- Em Jaraguá também incentivou a criação do Hospital e Maternidade, como também deu grande incentivos para a colocação da energia elétrica, e também na criação de colégios.

Essas histórias foram contadas por Sebastião Chagas Leite, funcionário único da Prefeitura no período, contou-me a de número 1, 2 e 3,   Antônio de Castro que foi Prefeito na época, contou a de número 7 e Tentorino Julião de Amorim que como criança ainda, e seu vizinho, ouvia as conversas, contou-me a de número 4, 5 e 6.

Muitas outras histórias poderiam enriquecer esse espaço, como a de que sua filha sempre comprava mantimentos na feira em frente à Igreja da Conceição, de que Bernardo estava sempre treinando tiro ao alvo. Eles gostavam de bolo de arroz que era vendido nos tabuleiros de porta em porta, que sua esposa plantava horta no quintal, etc.

Ele recebeu vários apelidos: pau para toda obra, Sayão do povo, Gigante do Oeste, Bandeirante Moderno e outros

Apesar de avesso às políticas ele teve em JK um amigo, e admiradores mútuos que o convenceu.

Bernardo Sayão e JK

Terminado o trabalho na “Marcha para o Oeste” com muita dedicação, dedicação essa que não passou despercebida ao novo presidente JK que com intenção de continuar o projeto de valorização do Interior do Brasil, construindo a nova Capital em 1000 dias e para a construção da Belém-Brasília, convidou nada menos que Bernardo Sayão para ajudá-lo.

 Era o que ele gostava, ajudou muito na própria construção de Brasília onde com seu jipe e seu motorista Benedito, andavam de cá pra lá, construindo…construindo…construindo. Dali pegava seu aviãozinho e rumava para a estrada Belém–Brasília que estava quase pronta. Já então com mais quatro filhos que ficavam em Brasília com a mãe e as 2 irmãs, enfiou-se nas matas com a missão de chegar à Belém, com 2 frentes, uma vinda do Belém e outra de Brasília, já quase se encontrando na fronteira Pará- Maranhão.Era quase o fim da construção da estrada, mas o fim trágico de um herói.

Bernardo Sayão na construção de Brasília.

Era o dia15-01-1959, Bernardo Sayão estava na frente que vinha do Pará já quase terminando a estrada quando uma imensa árvore cai na barraca que ele almoçava e matou-o instantaneamente. A notícia chegou à Brasília, onde com seu carisma havia conquistado muita gente e era amado pelo seu jeito simples de ser, comandava sempre de maneira dura sem nunca perder a ternura. O povo chorava, o Benedito, que era seu motorista em Brasília, ficou tão chocado com a notícia a ponto de quando o corpo chegou num avião da FAB o Benedito caiu morto sobre o volante do jipe e foi enterrado junto com o chefe.

A comoção tomou conta de Brasília. O caixão seguiu carregado pelo próprio presidente JK para o cemitério Campo da Esperança, recém construído na nova capital Brasília, e junto estava também o corpo de Benedito, seu fiel companheiro. Foram os primeiros a serem enterrados no cemitério por ele mesmo construído, e Brasília parou para render homenagens ao grande homem que o Brasil perdia.

Caixão de Bernardo Sayão sendo carregado pelo presidente JK

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui