Vinhos e carros, duas paixões! Harmonizando com “DKW… uma relação de amor ou ódio?” Liebfraumilch… “uma relação de amor ou ódio”?

Por Norivaldo de Azevedo

Quero iniciar pedindo permissão ao meu parceiro Scharnik, para usar o título do seu último artigo, para adequarmos com a nossa harmonização de hoje. Como sei que ele não me recusaria este pedido, vamos em frente… (kkk)

DKW… “uma relação de amor ou ódio”? (Por Gerson Scharnik)

Adequando:

Liebfraumilch… “uma relação de amor ou ódio”?

Para um carro de origem Alemã, um vinho de origem Alemã, harmonização perfeita!

No passado, um vinho amado e venerado; hoje, um vinho desprezado. O Liebfraumilch se tornou o símbolo de uma época, onde o acesso ao consumo de vinhos se limitava a produtos de qualidade duvidosa, que seguiam o mesmo estilo e categoria. Nada de muito diferente era oferecido ao consumidor.

Porém, por volta dos anos de 1970, o empresário Otávio Piva de Albuquerque conseguiu importar as primeiras garrafas do Liebfraumilch. Negociando diretamente com o fabricante alemão, Josef Friederich, o vinho foi trazido ao Brasil por preço muito acessível e com uma estratégia que seria bastante útil para a sua diferenciação no mercado: a garrafa azul.

O Liebfraumilch passou a ser reconhecido como o “vinho da garrafa azul”. E, de fato, esta foi uma grande sacada de marketing na época, onde a garrafa azul se destacava das demais garrafas de vinhos nas gôndolas de supermercados e em qualquer varejo. A presença em festas e eventos de diversos tipos (casamentos, formaturas…) era indispensável. Muitos iniciaram sua peregrinação pelo “Mundo dos Vinhos” graças a ele.

Nos anos de 1980, 60% dos vinhos importados pelo Brasil eram Liebfraumilch, e mesmo quando, no início dos anos de 1990, o então Presidente Fernando Collor abriu as importações, o Liebfraumilch continuou soberano por mais alguns anos.

Liebfraumilch passou a ser reconhecido como o “vinho da garrafa azul”.

Ao contrário do que parece, Liebfraumilch não é marca, mas sim um tipo de vinho que tem em torno de 15 e 45 gramas de açúcar residual por litro, indo do semi-doce a totalmente doce. Se não é marca, mas sim um tipo de vinho, significa que outros fabricantes alemães também podem ter a indicação de Liebfraumilch em seus rótulos. O exemplar que veio para o Brasil tem uma concentração maior de açúcar residual, sendo classificado como vinho doce, e leva o nome do fabricante Josef Friederich, conforme pode ser visto na foto.


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O Liebfraumilch é um vinho que tem uma história curiosa sobre seu nome. Em 1465 foi concluída na cidade de Worms, próxima ao rio Reno, a construção de uma igreja em homenagem a Nossa Senhora, que em alemão é LIEBFRAU. Por sua vez, essa igreja recebeu o nome em alemão de LIEBFRAUENKIRCHE (Igreja de Nossa Senhora). No local também havia um monastério e, como de costume para a época, tinha o seu vinhedo. A palavra Monge em alemão clássico é MINCH e os vinhos produzidos pelos monges no local passaram a ser chamados de LIEBFRAUMINCH (vinhos dos Monges de Nossa Senhora).Mas com o passar dos tempos a pronúncia foi alterada para LIEBFRAUMILCH, onde MILCH em alemão significa leite. A hipótese para esta mudança de MINCH (monge) para MILCH (leite) talvez seja pelo fato de que muitos peregrinos ao visitarem a igreja podiam beber dos vinhos feitos pelos monges e, novamente por hipótese, em devoção a Nossa Senhora deram o nome ao vinho de LIEBFRAUMILCH, que na tradução literal significa Leite de Nossa Senhora, ou conforme algumas interpretações, Leite da Mulher Amada. Observem, também, na foto da garrafa acima a ideia de religiosidade informada no rótulo, com Nossa Senhora segurando o Menino Jesus; uma clara alusão a história e origem deste vinho.

Igreja de Nossa Senhora, cidade de Worms, que deu origem ao nome Liebfraumilch. Foto: Wikipedia. Autor: Immanuel Giel

Voltando para os anos de 1970, é inegável que a chegada do Liebfraumilch no Brasil foi um grande salto de consumo em um mercado que estava acostumado a, praticamente, apenas aos vinhos suaves de mesa. Com a abertura das importações promovidas pelo Governo Collor e com o interesse pela enologia aflorando, o consumidor brasileiro foi se tornando cada vez mais exigente e amadurecido e, com isso, a decadência do Liebfraumilch seria uma questão de tempo.

O que ocorreu na sequência foi que o Liebfraumilch caiu no conceito do consumidor, que passou a questionar a qualidade dos vinhos da “garrafa azul”. Mas as consequências pela perda de interesse foram mais danosas, chegando a comprometer a imagem que o consumidor brasileiro passou a ter dos vinhos alemães, em geral, como vinhos de baixa qualidade, principalmente vinhos com a uva Riesling.

A Alemanha é fabricante de excelentes vinhos, e a Riesling é tida como a principal uva do país, representando uma parcela expressiva de tudo que se produz. Já a uva Pinot Noir é o principal símbolo dos vinhos tintos alemães.

Quero abrir parêntese para falar em defesa da Riesling, que é a uva predominante na produção do nosso Liebfraumilch. A Riesling é uma casta branca de muita concentração aromática e saborosa, com notas frutadas e florais finas e elegantes. Em regiões de plantio onde o clima é mais frio, apresenta toques de frutas cítricas, como por exemplo limão e maçã verde, e em regiões de plantio com clima mais moderado, toques de frutas de caroço como pera, maçã e pêssego.

Uma das formas de categorizar os vinhos alemães é por meio da concentração de açúcar residual deixado pelas uvas após a fermentação. Especificamente a Riesling, por ser a principal casta do país, pode ser enquadrada em qualquer categoria em razão da diversidade que esta uva oferece, podendo ser um vinho seco, um vinho com níveis intermediários de açúcar (meio doce), ou um vinho com maior concentração de açúcar (doce). Esta variedade proposta e encontrada nos vinhos alemães o torna diferente dos demais vinhos brancos, dando personalidade e identidade reconhecidas pelo Mundo dos Vinhos.

Fechando parêntese, a imagem dos vinhos alemães não pode se limitar ao que foi o Liebfraumilch no final do seu ciclo de consumo no Brasil, apesar de termos que reconhecer que cumpriu seu papel e deixou um legado para a nossa enologia. Porém, para quem deseja recordar, é possível encontrar alguns exemplares de marcas de Liebfraumilch pelo mercado, mas não é o mesmo rótulo de Josef Friederich dos anos 70/80/90.

Acredito que o “vinho da garrafa azul” deixou boas lembranças na história de vida de muitos de nós: um encontro, um namoro, um casamento, etc. Espero que sejam lembranças com as quais se recordem com simpatia e que tenham sido momentos muito felizes. Se o Liebfraumilch te traz essas sensações, com certeza foi o melhor vinho que você já bebeu em toda a sua vida!

Um brinde a vocês!

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