Carros e vinhos duas paixões: DKW … “uma relação de amor ou ódio”?

DKW BELCAR 1963 DO NOSSO AMIGO OSMAR BORGES

“O DKW não tem um temperamento fácil; exige do proprietário paciência, perseverança e muita dedicação; sendo a relação extremista, sem meio termo. Ou você se apaixona por ele ou o odeia !”

Por Gerson Scharnik

Neste artigo escolhi um automóvel icônico e pretendo instigar àqueles leitores que já tiveram contato com os veículos da marca DKW a relembrar como foi esta relação. Antes, vou discorrer um pouco sobre a história e os modelos que foram comercializados no Brasil.

A DKW é uma marca histórica de automóveis e de motocicletas, associada em todo o mundo a motores com ciclo de dois tempos, que teve seus automóveis fabricados sob licença no Brasil pela Vemag, entre 1956 e 1967. Aqui, a marca ficou conhecida popularmente como “DKV” (considerando que o “W” tem som de “V” em alemão). A DKW foi uma fábrica alemã fundada em 1916 pelo engenheiro dinamarquês Jorgen Skafte Rasmussen que, em 1932 , uniu-se a outras três fábricas para formar a Auto Union e, atualmente, após ser adquirida pela Volkswagen, em 1964, é a Audi AG.[1] No Brasil, foram comercializados os modelos: Vemaguet, Vemag Belcar, Candango e o Fissore.

Vemaguet foi produzida entre 1958 e 1967 e teve dois derivados populares, a Caiçara (1963 a 1965)  e a Pracinha (1965 e 1966). Inicialmente, era conhecida apenas como “Camioneta DKW-Vemag” ou como “Perua DKW-Vemag”, recebendo a denominação de Vemaguet apenas em 1961.[2]

Belcar foi produzido entre 1958 e 1967. Foram vendidas 51.072 unidades e, em seu tempo, foi saudado por oferecer boa estabilidade, conforto interno e espaço para até seis passageiros, além de uma mecânica bastante robusta e apropriada às precárias estradas brasileiras. Inicialmente, era conhecido simplesmente como “Grande DKW-Vemag”, recebendo a denominação de Belcar, de “beautiful car”, apenas em 1961. É o primeiro automóvel a passar por um teste pela Revista Quatro Rodas.[3]

Candango , conhecido também como “Jeep Candango, foi produzido entre 1953 e 1958. Foram comercializadas 5.607 unidades, mas algumas fontes falam em 7.868 unidades  ou em 4.400 unidades. O nome foi dado em homenagem aos operários que participaram da construção de Brasília, inaugurada em 1960, chamados de candangos. Era derivado do off road alemão, Munga. O nome Munga foi criado a partir da expressão em alemão: “Mehrzweck UNiversal Geländewagen mit Allradantrieb”, que significa “automóvel de uso universal para qualquer terreno com tração nas quatro rodas”. A produção do Candango foi prematuramente encerrada no Brasil, devido, principalmente, à falta de interesse por parte dos militares.[4]


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Fissore  foi produzido pela Vemag entre 1964 e 1967, com carroceria idealizada pela Carrocerias Fissore da Itália. Representou uma tentativa da Vemag entrar em um mercado de automóveis mais sofisticados. Em seu lançamento, em junho de 1964, era considerado pela imprensa especializada como um automóvel enxuto, prático, de linhas sóbrias e elegantes, e que oferecia ampla visibilidade ao motorista e seu passageiro. Recentemente, foi lembrado em 2008 durante o lançamento do Fiat Siena, pelas semelhanças de suas linhas e pela localização de faróis e lanternas. Foi o primeiro modelo da Vemag equipado com o Lubrimat.[5]

Todos esses modelos foram  equipados com motor de três cilindros em linha e dois tempos (precisa misturar óleo especifico (2T) à gasolina), com volume de 1 litro, é dianteiro, assim como a tração. Uma bobina por cilindro, refrigeração líquida e partida elétrica. O motor, que ao invés de usar buchas, casquilhos ou bronzinas em suas partes móveis, usa rolamentos; proporcionando assim uma durabilidade acima do comum para os carros da época.

Outra característica marcante dos modelos  Vemaguet e Belcar, até 1963, é que  as portas dianteiras abriam ao contrário, da frente para trás, no sentido do conforto, conquistando o apelido de portas “suicidas”. No ano de 1964, as portas foram alteradas para a forma tradicional de abertura, de trás para frente, a favor da segurança. No Brasil, os modelos com as portas “suicidas” foram apelidados “Dechave”.  Esta denominação refere-se, obviamente, ao uso dessas portas por mulheres vestindo saias.

História e dados técnicos detalhados, vou me concentrar no valor sentimental deste automóvel. Neste quesito, as divergências são mensuráveis. o DKW não tem um temperamento fácil; exige do proprietário paciência, perseverança e muita dedicação; sendo a relação extremista, sem meio termo. Ou você se apaixona por ele ou o odeia! Você precisa gostar do cheiro do óleo misturado à gasolina, do motor e suas três bobinas (uma para cada cilindro), do ronco do escapamento e da fumaça. Enfim, é preciso adquirir um para descobrir a que grupo você irá pertencer. Nosso amigo e Presidente da Apcar[6], Renato Capeleti, já teve esta oportunidade.

Eu estou em um dilema; o DKW me remete à minha infância, mais precisamente a 1970. Nesta época ia com meu pai ao Autódromo de Pinhais, hoje o Autódromo Internacional de Curitiba[7], para assistir as corridas de “Carreteras”[8], que eram  veículos preparados para corridas, em sua maioria DKW;  era surreal, mágico, posso assim descrever. O som emitido por um DKW com escapamento direto (sem silenciador), o cheiro da gasolina misturada com óleo  e a poeira que levantava no autódromo criavam  um cenário épico.  Já minha esposa, que é apaixonada por carros antigos, assim como eu, também tem sua infância ligada ao DKW, porém de forma traumática. Ao lado da residência dela havia uma oficina especializada em consertos de DKW, que, segundo ela, tinha um barulho ensurdecedor e o cheiro da gasolina misturada, deixava a casa tomada por fumaça e óleo. Além disso, o pai dela tinha uma Vemaguet que vivia na oficina para reparos. Diante disso, e para preservar nossa relação, ainda não comprei um DKW.

Imagino que a quantidade de apaixonados por este belo veiculo é superior a dos que se decepcionaram com ele. Afinal, qual dos veículos antigos brasileiros que você conhece, têm ainda hoje, uma Concessionária ativa para vendas de peças?  O DKW tem e está situada no Rio Grande do Sul, na Cidade de São Leopoldo. É a Dekabras Ltda.

Penso que o amor deva sempre prevalecer! Escolhi, então, para representar esta paixão meu amigo Osmar Borges, proprietário de um Vemag Belcar 1963.

“Eu desde criança, andei muito em DKW, meu pai  tinha um e era Taxista. Cresci com este sonho e realizei em 2002, ele ficou 10 anos parado, agora está funcionando, quase perfeito, e já posso fazer passeios com meu neto”. Nos confidenciou Osmar.

E você, caro leitor, já  está pensando em adquirir o seu DKW? Então sugiro que você não perca o artigo do nosso amigo Nori, na próxima semana, para saber com qual vinho fazer a comemoração!

Curiosidades:

  1. A sigla DKW significava inicialmente “Dampf-Kraft-Wagen”, carro de força a vapor, já que os primeiros produtos oferecidos pela empresa foram pequenos motores a vapor.
  2. Em 1967, no Brasil, foi produzido o Puma DKW, com carroceria em fiberglass (fibra de vidro) e mecânica e chassis DKW-Vemag. O Puma DKW foi o primeiro dos Pumas e é uma versão esteticamente melhorada do Malzoni GT.
  3. Em 1965, o Belcar e a Vemaguet passam a ser equipados com o Lubrimat[9], lançado meses antes juntamente com o Fissore.
  4. A Vemag, em 1967, foi adquirida pela Volkswagen e fechou suas portas no Brasil, levando com ela toda linha DKW.

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/DKW

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/DKW-Vemag_Vemaguet

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/DKW-Vemag_Belcar

[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/DKW-Vemag_Candango

[5] https://pt.wikipedia.org/wiki/DKW-Vemag_Fissore

[6] http://www.apcar.com.br

[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Autódromo_Internacional_de_Curitiba

[8] https://www.youtube.com/watch?v=o2yHSsT_pIM

[9] https://pt.wikipedia.org/wiki/Lubrimat

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