Uma noção de como se dá o ato do conhecimento humano

“A responsabilidade do ser humano é grande, pois, sendo racional é guardião do universo e tudo que existe: a realidade (verdade), os rumos, o futuro e tudo quanto está no agora, estão sobre sua tutela.”

Por Alaor Bruno

A afirmação de como se dá o conhecimento, está na pauta da especulação desde os tempos mais remotos onde detectamos a ação reflexiva do homem, ou seja, a Filosofia, sempre foi uma grande preocupação saber como se dá este processo. Alguns estudiosos chegaram a boas e concretas definições, sendo vastas as opiniões a respeito do tema. Quanto aos impasses de diferentes pontos de vista, é importante buscar os ensinamentos da Filosofia Perene e basear nela o estudo e conclusão de tal questionamento, uma vez que esta perenidade nos dá base segura para avançar sobre novos horizontes, sem perder ou ao menos esquecer o ponto de partida, sendo que todo o processo de esquematização do saber é algo continuado e progressivo ao longo dos séculos. Para Chaui (2014) “desde o início, os filósofos se deram conta de que nosso pensamento parece seguir certas leis para conhecer as coisas e que há uma diferença entre perceber e pensar”.

Ao se depararem com a questão de como conhecemos, surgiram várias inquietações e se percebeu que muitas vezes a realidade pode aparentar ser o que não é levando ao erro, ou a emissão de falsos juízos, surge aí um grande desafio para ser superado. Concluíram os sofistas, que não podemos conhecer o ser alegando a não existência dos seres caídos, assim, num relativismo total “nada existe, se existe, não pode ser conhecido; se conhecido, não pode ser transmitido (não existe a verdade – nihilismo)” Gandra (2004), para eles não importava a verdade e sim convencer por meio de uma boa retórica. Era plausível ganhar debates e não se importar com a realidade dos fatos, desqualificando deste modo o pensamento e a reflexão, priorizando apenas a persuasão.

Sócrates abrindo um caminho novo e construindo os fundamentos de uma filosofia sistemática pautada na sincera especulação e na busca pela verdade, vai se afastar do pensamento sofista e chegará a nos iluminar com boas considerações sobre a forma de conhecer o mundo real, “Sócrates – considerado como um dos sofistas superou a sofística, por buscar valores objetivos e universais.” Gandra (2004). No momento que há este afastamento surge uma nova era para a estruturação da Filosofia, Sócrates vai à busca de princípios fundamentais, que mais tarde será caminho para outros pensadores. Dando continuidade aos seus questionamentos, esses conhecimentos universais que chamamos de Filosofia Perene, sendo assim um conhecimento seguro e sempre solícito a fundamentar novas descobertas, isso irá possibilitar ao longo do tempo um enorme progresso e desenvolvimento das ciências como a diádica, que poderá ser aplicada em base das descobertas de grandes pensadores.

Opondo-se aos sofistas, Sócrates afirmava que a verdade pode ser conhecida quando compreendemos que precisamos começar afastando as ilusões dos sentidos, as imposições das palavras e a multiplicidade das opiniões.

Os órgãos dos sentidos, diz Sócrates, dão-nos somente as aparências das coisas, e as palavras, meras opiniões sobre elas. A aparência e a opinião variam de pessoa para pessoa e em um mesmo indivíduo. Mas não só variam: também se contradizem.

Conhecer é começar a examinar as contradições das aparências e das opiniões para poder abandoná-las e passar da aparência à essência, da opinião ao conceito. (CHAUI, 2014, p. 135).

Sócrates apresenta a reflexão que é possível conhecer além das aparências, é o que ele chama de essência do ser (tudo aquilo que é) uma vez que as aparências podem enganar, as essências nunca estão erradas, pois indica de fato o que a coisa é (o ser). Seguindo os avanços nos pensamentos de Sócrates, Platão vai focar neste dado da essência, que é o conceito do ser impresso no intelecto do homem, sendo que este conceito é imaterial, vai defender o mundo das ideias dizendo que: “As ideias não seriam simples pensamentos, mas sim o verdadeiro ser das coisas” Gandra (2004), para ele a existência era reflexo, não a realidade em si. Platão então começa a especular a realidade partido das afirmações dos universais até os individuais, inaugurando o método descendente de pensar, seria talvez o surgimento dos primeiros métodos didáticos de conhecer a realidade. Com este método surge a grande escola platônica que será aperfeiçoada por Agostinho de Hipona no período da Patrística e darão origens a diversas e grandes universidades, gerando grande contributo para história da humanidade. O conhecimento para Platão é apenas a recordação da verdade que já esta impressa no intelecto do homem. Em suas conclusões ele afirma que:

Conhecimento“anaminese”: recordação daquilo que já existe sempre dentro de nossa alma (doutrina fundada na metempsicose órfico-pitagórica).

* do sensível – opinião (doxa): intermediário entre o ser (cognoscível) e o não-ser (incognoscível).

* do inteligível – ciência (epistéme).

* “dialética”: processo de captação do mundo das ideias (simultaneamente discursivo e intuitivo). (GANDRA, 20o4, p. 35).


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Todos estes contributos, tanto de Sócrates quanto de Platão, fazem dar base a um estudo bem mais aprofundado e aperfeiçoado da forma de conhecer. Este aperfeiçoamento se dá em Aristóteles que dedicará uma obra à metafisica (além da física) que buscará a compreensão da realidade além do que se percebe pelos sentidos externos: a visão, audição, tato, olfato e paladar. Chegando aos conceitos mais puros dos seres, Aristóteles, por estes fatos, também se dedicará ao tema da teoria do conhecimento chegando a nos fornecer os mais autênticos resultados, dando alicerceis para futuros estudos. Por ser um filósofo extremamente racional e sistemático inaugura outra forma de se chegar ao conhecimento: o método indutivo que através dos conceitos individuais parte até os universais, começando não pelo mundo das ideias, mas pela realidade que o circunda, como bem representa o afresco “A escola de Atenas” de Raffaelo, localizado no Palácio Apostólico no Vaticano. Aristóteles será ainda mais desenvolvido por Tomás de Aquino no período da Escolástica.

Aristóteles diferencia os seres de acordo com suas capacidades psicológicas. Uma vez que a alma indica auto movimento, ele distinguira os seres segundo o grau de ser estabelecendo as “escala de seres”, e suas faculdades, ou mais conhecido em seus estudos como “as faculdades da alma”, facilitando a compreensão do ato conhecedor em suas diferentes capacidades.

Psicologia – diferenças entre almas:

* vegetativa: nascimento, crescimento e nutrição (assimila a matéria).

* sensitiva: instintos animais (capta a forma sensível das coisas – conhecimento concreto) sentido comum (objetos captáveis por mais de um sentido), imaginação, memória e a estimativa.

* racional: inteligência (capta as formas inteligíveis – abstração) intelecto: passivo (em potência) e agente (que forma o conceito universal e seria imortal, incorruptível); apetite: sensível (instintivo) e racional (vontade). (Gandra, 2004, p. 41).

Na faculdade vegetativa estão os vegetais que simplesmente realizam as funções básicas e biológicas como nutrição, crescimento e geração, depois têm a faculdade sensitiva presente nos animais que responde pelo movimento, sensações, além de auxiliado pelos sentidos externos: tato, olfato, visão e audição como janelas para conhecer a realidade. São ainda capazes de ter uma estimativa da realidade percebendo a segurança ou o perigo possuindo a capacidade para fantasia ou a imaginação auxiliado pela memória. Mas é na faculdade racional que se localiza as potencialidades humanas que além de possuir as faculdades vegetativas e sensitivas possui a capacidade para racionalizar a realidade: pensar, refletir, julgar e emitir juízos, tendo capacidade para diálogo e consciência. Possuindo sentimentos e emoções, esta soma confere ao ser racional a liberdade que é a capacidade de escolher entre opções.

Desta forma fica fácil compreender como se conhece, primeiro as informações são capitadas pelos sentidos externos, em seguida são organizadas pelos sentidos internos que organizam estas informações e com a capacidade racional se reflete sobre a realidade abstraída, formulando as devidas definições de tudo quanto é. Tomás de Aquino vai nos explicar assim:

(1) As coisas materiais e singulares, agem sobre nossos (2) sentidos externos (vista, ouvido, olfato, paladar e tato), e através deles penetram ou se comunicam aos (3) sentidos internos (senso comum, imaginação, memória e cognitiva), onde se transforma em conhecimentos mais unificados e perfeitos, até formar os assim chamados fantasmas, que são imagens internas sensíveis das coisas percebidas.

(4) O Intelecto agente é uma faculdade sempre ativa e de natureza imaterial. Este intelecto atua sobre o fantasma: eleva-o de maneira que ambos unidos (o intelecto agente causa eficiente principal e o fantasma como causa eficiente e instrumental) (5) Intelecto passivo (que é em si mesmo uma potência passiva) a espécie impressa inteligível (isto é a ideia). Nesta ideia nos conhecemos diretamente a entidade universal das coisas materiais representadas nos sobretidos fantasmas. (Aquino, 2006, p. I, q. 79, aa. 3-5; CG II, 76-78; In III De anima 1, 10; de espirit. Creat. Aa9-10; Qu. de anima aa 4-5; etc.).

 Com a base das devidas conclusões acerca do ato conhecedor, é que se pode atuar para estimular o conhecimento, sempre buscando a atenção e a máxima penetração dos sentidos na realidade. A partir destes princípios sólidos podemos buscar formas eficazes de se obter o conhecimento. O fato é que por mais que possamos achar que sabemos algo, sempre seremos capazes de mais, por isso o ser humano é um ser criativo com uma dignidade singular mediante aos outros seres é ser pensante que é capaz de inventar, sondar e especular. Neste sentido fica claro perceber o senso artístico e inovador do ser humano que é sempre consciente de seus atos e tem a liberdade de se direcionar para onde quiser; escreve Blaise Pascal:

O Homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água basta para matá-lo. Mas, ainda que o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que quem o mata, por que sabe que morre e conhece as vantagens que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso. Toda nossa dignidade consiste, pois, no pensamento. Daí é que é preciso nos elevarmos, e não a partir do espaço e da duração, que não poderíamos preencher. Trabalhamos, pois, para o bem pensar; eis o princípio da moral. (Pascal, 1973, p. 127-8).

A responsabilidade do ser humano é grande, pois, sendo racional é guardião do universo e tudo que existe. A realidade (verdade) está sobre sua tutela, os rumos, o futuro e tudo quanto está no agora faz parte de um conjunto ao qual o homem é responsável pela sua preservação. À liberdade dos atos do homem, ser pensante, deve sempre conduzir o universo ao estado de paz e a busca constante pela verdade, pela sinceridade e pela busca de cada vez mais se tornar grandes pela aquisição do conhecimento. A sabedoria deve servir sempre e cada vez mais o homem e a promoção do bem comum. O conhecimento é patrimônio de todos e deve sempre ser buscado para todos e nunca para o domínio da própria espécie racional. Aprender é preciso!


Ávila S.J., Fernando Bastos de, Pequena enciclopédia de moral e civismo, Ministério da educação e cultura FENAME – Fundação Nacional de Material Escolar, 2 1972.

Messner, Johannes, Ética social, Ed. Quadrante, e Ed. Da universidade de São Paulo, São Paulo.

Paulo II, João, Catecismo da Igreja Católica, Ed. Loyola, São Paulo, 2000

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