Educação, escolarização e o que realmente alguém sabe

“O que importa não é o saber, não é a educação real que a pessoa possui, mas unicamente o papel que ostenta dizendo ser capaz de algo. Vale o título, não a realização. Ou obedece integralmente, e com fidelidade canina, a necessidade de viver a “educação estatal” ou nem se dão ao trabalho de julgar se uma pessoa possui capacidade de realização de alguma coisa. Esse é nosso triste fim: presos ao estado que nos vê como marionetes controladas por inúmeros fios até um admirável mundo novo.”

Por Tobias Goulão

Existe uma figura entre os personagens na literatura brasileira que é bem interessante, e trata de um dos nossos maiores males relacionados à visão sobre educação: o bacharel. Foi exposto na literatura de Machado, Lima Barreto, trabalhado na sociologia de Gilberto Freyre e sempre mostrou como nós somos afetados pela exposição floreada e vazia dos nossos medalhões. Quero dizer com isso que, independente de alguém realmente apresentar um determinado conhecimento, da pessoa ser dedicada ao estudo e conseguir se mostrar apta a discorrer e trabalhar determinado assunto, o mais importante é o diploma. O caso marcante que encontramos no conto “Teoria do Medalhão”, de Machado de Assis, onde a farsa pessoal somada mera aparência de um culto erudito está ancorada em uma rasa exploração do conhecimento; e outra possibilidade é a clássica cena do romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, na qual as pessoas veem uma série de livros na casa do major Quaresma e mencionam “para que tantos livros, se nem é bacharel?”. Parece que esse tipo sociológico/antropológico é uma boa chave para entender o Brasil. O que importa não é o saber, não é a educação real que a pessoa possui, mas unicamente o papel que ostenta dizendo ser capaz de algo. Vale o título, não a realização. Ou obedece integralmente, e com fidelidade canina, a necessidade de viver a “educação estatal” ou nem se dão ao trabalho de julgar se uma pessoa possui capacidade de realização de alguma coisa. Esse é nosso triste fim: presos ao estado que nos vê como marionetes controladas por inúmeros fios até um admirável mundo novo.

Sobre a realidade da educação em seu uso pelo estado e como é vista pela burocracia, podemos partir dessas figuras de nossa literatura para ver, da teoria relacionada à educação e um caso concreto que destaca o quanto os tentáculos do estado e sua estrutura esmagam os indivíduos.

Educação é dever do estado, mas essa afirmação causa muitos mal-entendidos, pois ninguém se dá ao trabalho de refletir sobre os termos e em como se relacionar com eles. Pensemos primeiro na noção de “dever”. O fato de o estado tomar para si esse dever quer dizer que ele irá fornecer tal serviço. Simples assim. A adesão a ele não deveria ser obrigatória, nem mesmo ele deveria interferir nas formas e conteúdos dos tipos de educação possíveis. O “dever” acaba se tornando uma imposição absolutista a todos os demais que devem se curvar e obedecer ao estado, aceitando que essa usurpação da educação seja realizada ao ponto de ter completo controle por ela para que possa ser validada. Falta entender que mesmo o estado tendo se colocado nesse dever de transmitir o “conhecimento que vale”, uma pessoa poderia muito bem poder escolher se usaria esse serviço que estará disponível ou se preferiria outro tipo de formação. Uma coisa é oferecer, o que é o dever usurpado, outra é a decisão de alguém em aceitar fazer uso. Mas parece que um acabou impondo o outro.

Com essa perspectiva a educação, processo de crescimento e formação da pessoa, fica engessada, presa a uma matriz única, insossa, massificada e medíocre, o que não cumpre sua função. Se observo essa condição é porque a proposta de monopólio do estado sobre a educação tira dela sua real intenção, transformando o processo em um simples comparecer em instituições que repetirão o mesmo em qualquer lugar, ou seja, se torna simplesmente uma escolarização, tempo gasto para muito pouco em um lugar que inibe as possibilidades, matando o crescimento da pessoa.

Esse tipo de conduta deixa de ser o projeto de “conduzir para fora” (ex-ducere) as possibilidades daquela pessoa. Prendendo-a aos esquemas prontos do estado, impede uma abertura pessoal à razão e ao espírito, pois tudo é pasteurizado e impessoal, e o que deveria permitir o crescimento humano dentro das potências de cada um, passa a ser, como bem descreveu o autor Fausto Zamboni na obra “Contra a Escola” (Vide Editorial, 2018), em “engenharia social, em manipulação dos instintos baixos para realização da vontade de poder”.

No processo “educacional” que conhecemos, acontece não a educação, mas a escolarização, um conceito importante para o que está sendo levantado. Esse processo é o oposto da educação, pois está apenas vinculado à instituição sem maiores preocupações. E essa perspectiva é histórica e fácil de ser constatada: na medida em que o estado cresce e passa a obrigar a escolarização, não fez pensando no “bem comum”, ou realizando algum projeto “humanista”, nem mesmo sendo exemplo de “bondade” ou “preocupação com as almas”. A estatização e obrigação de frequentar as escolas sob orientação do estado foi única e exclusivamente para o controle do que é ensinado, fazendo com que ele seja beneficiado. Ou seja, educação obrigatória é uma das formas de o estado colocar o que quer na cabeça daqueles que deveriam estar estudando, crescendo, enriquecendo o espírito. Caso queiram uma boa leitura sobre o assunto, vejam o que descreve Murray Rothbard no livro “Educação: Livre e obrigatória” (Mises Brasil, 2013):

Uma das melhores maneiras de encarar o problema da educação obrigatória é pensar numa analogia quase exata na área de outro grande meio educacional — os jornais.  O que pensaríamos sobre uma proposta do governo, federal ou estadual, de usar o dinheiro dos pagadores de impostos para criar uma rede nacional de jornais públicos e obrigar todo o povo, ou todas as crianças, a lê-los?  O que pensaríamos se, além disto, o governo proibisse todos os jornais que não se encaixassem aos “padrões” do que uma comissão do governo acha que as crianças devem ler?  Essa proposta seria geralmente considerada um horror nos Estados Unidos e, no entanto, este é exatamente o tipo de regime que o governo criou no âmbito da instrução escolar.


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Jornais públicos obrigatórios seriam considerados uma invasão à liberdade básica da imprensa; no entanto, a liberdade escolar não é ao menos tão importante quanto a liberdade de imprensa?  Não são dois meios vitais para a educação e informação pública, para a consulta livre e a busca pela verdade?  É claro que a supressão da livre instrução deve ser encarada com horror ainda maior do que a supressão da liberdade de imprensa, já que aqui estão envolvidas as mentes não formadas das crianças.

Ainda apresentando autores que ajudam a pensar sobre esse problema, não podemos esquecer do austríaco Ivan Illich e seu importante livro “Sociedade Sem Escolas” (Vozes, 1988), no qual mostra o que a escolarização causa:

Muitos estudantes, especialmente os mais pobres, percebem intuitivamente o que a escola faz por eles. Ela os escolariza para confundir processo com substância. Alcançado isto, uma nova lógica entra em jogo: quanto mais longa a escolaridade, melhores os resultados; ou, então, a graduação leva ao sucesso. O aluno é, desse modo, «escolarizado» a confundir ensino com aprendizagem, obtenção de graus com educação, diploma com competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo.

Bom, com essa apresentação levantada, posso colocar uma questão interessante para nosso tema. Considerando todo esse aparato que prende o estudante, o que acaba sendo mais importante: o conhecimento que alguém adquire, independente da forma ou frequentar um espaço escolar regularmente? Vamos considerar ainda que, quando alguém procura aprender sem perder tempo com uma sala de aula, onde o tempo é homogêneo, não está engessado pelos pormenores da escolarização e quem se submete a esta acaba sendo sugado pela tal “socialização”, colocando os conteúdos cognitivos em segundo plano. Essa situação acaba por criar uma máquina de aprovações de pessoas sem ter aprendido nada, basicamente analfabetas (e vejam, qualquer pessoa que conhece a realidade escolar, o que acontece em um conselho de classe de escola pública sabe que é praticamente impossível reprovar alguém, porque, para o estado, o número de aprovação e conclusão são mais importantes que qualquer outra coisa; e com isso o aprendizado, como pode ser imaginado, fica em último plano).

E aqui retomo o questionamento: vale mais saber ou ter passado pela escolarização? Aqui quero trazer o caso da moça Elisa Oliveira Flemer, 17 anos, que deixou a escolarização no início do ensino médio e passou a estudar em casa (modalidade homeschooling). Depois de aprovada em faculdades privadas tentou uma vaga no curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica da USP, por meio do Sisu (Sistema de Seleção Unificada), mas também não conseguiu fazer a matrícula. Motivo: o estado, na figura de seus juízes, determinou que ela não pode fazer a matrícula.

Elisa Oliveira Flemer. ARQUIVO PESSOAL, DISPONÍVEL NO SITE R7

Vejamos se isso é uma grande incoerência: A instituição coloca a prova para servir de seleção e obter uma noção da capacidade dos concorrentes em cursar o ensino superior. A candidata consegue o 5º lugar geral na prova, que é uma das mais concorridas no país, e mesmo assim o estado se julga no direito de dizer que, por não ser escolarizada (pois o conhecimento foi mostrado em prova do estado) não pode estudar. Isso é, simplesmente, um absurdo. Uma completa estupidez na qual assistimos o estado, via justiça, impedir a moça de estudar. A capacidade dela é maior que a de muitos escolarizados, o seu saber foi comprovado, o que vale pensar o seguinte: que o ensino livre, pessoal, sem amarras e burocracia gera um resultado igual ou superior ao escolarizado.

O saber não é do estado, é uma conquista pessoal que depende do que é buscado. Fazendo isso de forma livre, o processo não tem por foco o simples “passar de ano”, mas sim a aquisição de um conhecimento que será parte da vida da pessoa. O caso conquistado pela jovem Elisa, que injustamente está sendo vítima da tirania da usurpação de funções que o estado exerce na vida de todos[1].

Elisa Oliveira Flemer. ARQUIVO PESSOAL DISPOJNÍVEL SITE DO JORNAL CRUZEIRO

Enquanto a escola mata o tempo de muitos e não pode oferecer o que os estudantes almejam, porque são impedidos até mesmo de procurar, a educação livre consegue oferecer. No caso relatado, temos inclusive, uma prova que a seleção do estado não consegue barrar alguém que, de fato, se dedique ao processo de aprender para entrar nas estruturas do ensino superior. Resultado esse, que lança no estado a prova que eles não precisam, e não deveriam monopolizar a educação. Quem quer sempre poderá superá-lo.

Resta agora torcermos para alguém em sã consciência, que habita as salas de justiça do país, possam retirar os tentáculos da vida de estudante da moça. E, enquanto isso, a resposta do povo veio rapidamente, em nome de inúmeras propostas de emprego de várias empresas diferentes. O motivo é óbvio: viram a capacidade da moça. E na vida real, sem a interferência do estado em tudo, o que vale é a capacidade e o esforço, e o papel pintado alegando competência é só adereço.


[1] Enquanto a situação fica sem decisão nos tribunais brasileiros, o CEO da empresa StartSe ofereceu para Elisa Flemer uma bolsa de estudos na StartSe University, no Vale do Silício (San Francisco – EUA). No fim das contas ela conseguiu mostrar o quanto pode realizar e alguém viu, e a levou para fora do Brasil. Como disse uma pessoa nas redes sociais: “O Brasil é uma máquina de perder bons cérebros”.

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