Vinhos e carros, duas paixões! Harmonizando com Ford V8 “sonho com um na minha garagem”

Toscana

Por Norivaldo de Azevedo

Meu parceiro Gerson Sharnick foi bem, mais uma vez, e nos falou com muita propriedade do Ford V8, um clássico maravilhoso. Mas a questão é: como podemos harmonizar este tema com vinhos? Poderíamos falar da potência do motor V8 e harmonizá-lo com vinhos encorpados e potentes… Também poderíamos falar do clássico Ford V8 e harmonizá-lo com clássicos do Mundo dos Vinhos… Seriam dois caminhos interessantes para o nosso papo de hoje. Porém, não seguiremos por nenhum destes dois temas; vamos usar um ingrediente curioso que nos foi dito no texto do Gerson, e que também se tornou um clássico, mas um clássico dos cinemas: Bonnie e Clyde, os FORA DA LEI. E o que isto tem a ver com vinhos? Acompanhem comigo.

A vitivinicultura italiana é muito rica em diversidades, onde videiras com muitas variedades de uvas se espalham por todo o país. Toda esta expansão permite que a Itália esteja, atualmente, na primeira posição do ranking mundial de produção de vinhos, na terceira posição do ranking mundial de consumo e na terceira posição entre os países exportadores. A grande diversidade de castas, expressam toda a personalidade e identidade dos vinhos italianos que os faz serem reconhecidos pelo mundo.

Uma das regiões mais valorizadas dos vinhos italianos é a Toscana, e nesta região se produz um vinho (e somente lá) de nome Chianti, de grande tradição histórica. A legislação ligada a cultivo e produção de vinhos na Toscana sempre foi muito rigorosa, onde, entre tantas exigências, uma das mais importantes é a de que seus vinhos devem usar apenas uvas locais, e no caso do Chianti no mínimo 70% de uva Sangiovese.

Mas a vitivinicultura na Itália passava por um período de crise desde o fim da segunda guerra mundial e, especificamente, na Toscana o Chianti, um ícone da região e dos vinhos italianos, estava em baixa, onde a busca por recuperar o tempo perdido durante a guerra e da crise posterior a ela, deixaram de lado a qualidade priorizando a quantidade.

Foi em razão deste cenário que, em meados dos anos de 1960, duas famílias tradicionais de produtores (os Incisa della Rocchetta e os Antinori) decidiram, quase que ao mesmo tempo, desafiar a legislação e passaram a desenvolver vinhos que não estavam restritos a ela.


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A rebeldia das duas famílias de produtores envolvia o cultivo de uvas e o desenvolvimento de vinhos que não usavam os métodos e as variedades de castas da região, principalmente a Sangiovese. Foi quando passaram a cultivar uvas francesas, como a Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, entre outras. Esta atitude fez com que os vinhos resultantes destas variedades fossem rotulados como os “FORA DA LEI” e denominados como Vino da Tavolla, que é a classificação mais modesta entre os italianos.

Um dos primeiros exemplares dos vinhos “FORA DA LEI” foi o Sassicaia, aproximadamente em 1968, que dez anos depois venceu um concurso internacional promovido pela revista inglesa Decanter com um Cabernet Sauvignon (uva francesa), e alguns anos mais tarde recebeu 100 pontos de Robert Parker (crítico de vinhos) pela safra de 1985.

Imagem das videiras que dão origem ao vinho Sassicaia

Além do Sassicaia outros rótulos de “FORA DA LEI” foram ao mercado e conquistaram o mundo e entre eles os Tignanello e Solaia. O sucesso dos “FORA DA LEI” foi inquestionável para o Mundo dos Vinhos e ao final dos anos de 1980 produzir vinhos que não seguiam a legislação e que, principalmente, usavam de uvas francesas estava implementado na Toscana.

A partir do reconhecimento, os “FORA DA LEI” ganharam uma nomenclatura mais apropriada e passaram a ser denominados de SUPERTOSCANOS, uma expressão que se tornou sinônimo de alto padrão para estes vinhos.

A legislação da Toscana se rendeu ao sucesso dos Supertoscanos e adequaram a sua classificação, e desta forma passaram a ter o direito de serem certificados com Denominação de Origem Controlada (D.O.C.) ou, em um nível acima, Denominação de Origem Controlada e Garantida (D.O.C.G.), certificações que visam garantir a qualidade e origem dos vinhos. O modesto Vino da Tavolla e, principalmente, o infame “FORA DA LEI” ficaram no passado.

Acrescentando um pouco mais ao repertório enológico do nosso leitor, a Toscana é uma região abençoada por produzir grandes vinhos, porque além do Chianti e do Supertoscano também temos o Chianti Clássico, o Brunelo di Montalcino e o Vino Nobile de Montepulciano. São vinhos respeitados por todo o mundo e com características diferenciadas, abrilhantando o “leque” de opções e de variedades vindas de uma só região, onde existe até vinho “FORA DA LEI”! Você imaginava uma coisa dessa?

Até o próximo encontro!

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