A briga por poder

“Aqui, no nosso “reino”, na nossa savana, as coisas fluem de forma semelhante. Por aqui, nessas bandas, existe sempre a obsessão por poder que é marcada pelo status e posição social. Existe sempre o desejo de liderar um grupo, de rugir mais alto e marcar o território. A construção da hierarquia é desejada – e até necessária – e os agrupamentos são sempre construídos.” 

Por Danilo Barbosa

Desde que o mundo é mundo já é regra: todos buscam poder. Alguns mais, outros menos… ora aqui, ora algures. Mas é sempre uma constante na dinâmica do meio social. Já era assim quando os traços de uma sociedade organizada eram constituídos nos discursos da Ágora em Atenas. Ali, cada um queria um espaço para expressar sua [cosmo]visão.

Espaço. É interessante pensar nesse conceito: subtrair para si um espaço, um lugar. Marcar território, tal como no mundo animal. Historicamente falando, desde o período paleolítico já é possível identificar e associar ao homem essa característica inerente: a busca pelo espaço. Com o modo de caçar, estabelecer-se e dominar, o homem sempre quis o seu espaço. E isso denota poder. 

A dinâmica do mundo animal não é distante da dos seres humanos. Vejam, por exemplo, o reino dos leões. O leão marca seu território servindo-se do trabalho em grupo, utiliza do recurso de secreções e, sobretudo, do rugido que faz. Estar em grupo é uma vantagem, há machos, fêmeas e os filhotes e há uma hierarquia nesse grupo, portanto existe sempre a figura do dominador, ou para ficar mais suave, do líder.  

Durante a noite ribomba pelos ares o rugido do leão que marca seu espaço até onde é possível escutar. Aquela espécie de grito, bonito para o amante da natureza, é o grito de um guerreiro. Esse guerreiro que lidera e conduz o grupo, deixa claro que ali ele é quem manda. O dono do pedaço. Impõe medo naqueles que não são do grupo, define, com esse barulho a hierarquia de poder dentro do grupo e encanta os filhotes que aspiram aquela posição. 

Não quero fazer deste texto um resumo de Animal Planet, mas atente-se que o mundo animal não é diferente, como dito, do nosso mundo. Da nossa dinâmica de nos organizarmos. Aqui, no nosso “reino”, na nossa savana, as coisas fluem de forma semelhante. Por aqui, nessas bandas, existe sempre a obsessão por poder que é marcada pelo status e posição social. Existe sempre o desejo de liderar um grupo, de rugir mais alto e marcar o território. A construção da hierarquia é desejada – e até necessária – e os agrupamentos são sempre construídos. 

O ser humano por natureza é um ser relacional. Viver em comunidade é uma particularidade inerente. Estar em comunidade não é uma espécie de contrato que se faz quando nasce um indivíduo – talvez alguém conceba uma ligação, mas não faço referência, e nem pretendo, aos conceitos hobbeanos -, o que pretendo dizer aqui e digo é que estar em comunidade acontece como que de forma natural, constitutivo da natureza.


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Não tenho medo de errar que os rugidos por território no mundo humano sejam mais perigosos que o do mundo animal. O ser humano sempre quis poder e sempre vai querer. Na ótica cristã, por exemplo, começou com Adão e Eva em querer ser “como Deus” e desde então a cada dois passos à frente é um para trás. Poder. Eis a ambição que, mirando o alto, sempre arrasta para baixo, hora ou outra.

Reger, comandar, guiar, ordenar… são apenas infinitivos do âmago soberbo do homem. Diga do homem decaído e eu digo que mais que isso é o homem que deseja fazer alguém cair. Estar sobre outro, seu semelhante, é apenas uma forma de caminhar ao topo. Aliás, estar sobre o outro é um meio para o fim do poder. Não é moral dizer que os fins justificam os meios e isso aqui fica mais claro, mas quem poderá dizer que utilizar esses meios não se chegará ao fim desejado? Chega! Porém, sabe-se que não é o caminho correto. 

Hoje, nessa nossa savana, o que mais percebemos? Para além da tristeza das mortes e mudança drástica de hábitos que a pandemia nos impôs, o que mais se manifesta é a briga pelo poder. Político brigando com político para manter seu cargo, já tendo em vista as próximas eleições. É de tamanha demagogia inescrupulosa que chega a dar náuseas. O objetivo do bem comum perdeu-se no meio das reuniões onde se discute a repartição dos desvios de dinheiro. O povo? Às traças! O bem que aspiram é o próprio.

Bom mesmo seria se parasse nos políticos, pois, ainda que não seja um sistema ideal, é possível trocar vez ou outra uma figurinha de um político profissional. Sai este, entra aquele. Mas não para nessa esfera. Oligarquias disputam o poder, multinacionais querem dominar o mercado, países querem sobrepor outros… em cada parte há a ambição da dominação do todo. Acontece sempre que esses interesses particulares se cruzam e então desencadeia-se conflitos. Quem está no meio disso tudo? Nós!  

Na briga pelo o poder, o povo é quem mais sofre. Não bastasse ter sugado seus recursos, ainda é alvo das “balas perdidas”. Conflitos deixam sempre feridos. E, acredite, todos saem perdendo. O único que não se fere é o observador da briga. Lembra do horário da saída da aula e tinha alguém que sempre ficava com uma grande alegria dizendo “briga! briga!”? Pois é, esse é o único que se diverte, que ganha alguma coisa. 

Agora, perceba uma coisa. Nós, essa massa de manobra nas mãos de poderosos, não estamos inertes, sofrendo passivamente. Querendo nós ou não, estamos também em conflito. Todo dia, todo instante, somos incitados contra os outros. Quando estamos no meio do tiroteio, somos incentivados a pegar em arma e também a atirar. É colocado a nós como um recurso de defesa à própria vida. Se os políticos estão brigando, somos colocados para brigar também contra eles. Se o povo briga, cada grupo é colocado contra o outro. É um conflito generalizado. Chega à beira da loucura reconhecer que no final você não sabe mais contra quem e o quê está lutando. Atira sem rumo. Onde pegar, pegou!

Quem se beneficia? Quem incita! De um conflito onde todos vão sair feridos? Aquele, ou aqueles, que ficam observando de longe aguarda o momento certo para atacar os fragilizados. 

Se hoje estamos cansados, fragilizados e até mesmo desanimados, não é à toa. Tudo tem um objetivo. Estamos sendo usados. Não é por vacina, não é por visão política A ou B, não é por máscara, não é pela economia… tudo isso é apenas o meio de um objetivo maior onde o bem-estar do povo não cabe. Quando estiver entrando em um conflito, sobretudo de opinião e ego, lembre-se: talvez alguém esteja no seu ouvido esbravejando “briga, briga”. 

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