Armênia: “Os bárbaros vêm e vão sem deixar rastros”

“O genocídio armênio foi o grande evento que inaugurou o que será conhecido como o século dos genocídios. Depois desse evento, o tom do século foi dado, e as barbáries proliferaram como rastilho de pólvora”

Por Tobias Goulão

O genocídio armênio foi o grande evento que inaugurou o que será conhecido como o século dos genocídios. Depois desse evento, o tom do século foi dado, e as barbáries proliferaram como rastilho de pólvora.

Certa vez li em um livro[1] do filósofo americano Peter Kreeft uma colocação muito intrigante, triste, porém verdadeira, sobre o século XX afirmando que ele “certamente será conhecido para sempre como o século dos genocídios”. Isso se dá, segundo Kreeft, por ser o genocídio “a invenção que, de forma mais dirá e radical, mudou o maior número de vidas (bem mais do que cem milhões), não de pior para melhor, e nem mesmo de melhor para pior; mas, de vivas para mortas”.

É só fazer um esforço e recordar como nesse período muito foi feito nesse sentido. De Auschwitz a Hiroshima, o Gulag, Ucrânia, Ruanda, Camboja, China, Sudão, na guerra da Bósnia. É realmente estranho pouco ser dito, principalmente sobre alguns países de orientação comunista, pois para eles tudo é válido em nome do paraíso terrestre que há de vir (vale até mesmo criar o inferno na Terra, como fizeram). Propositalmente deixei de fora o triste e terrível evento que praticamente abriu essa série no séc. XX: o genocídio armênio, iniciado em 1915 durando até por volta de 1923. A Armênia, terra que pertencia ao então Império Turco-Otomano, portanto o povo era súdito do sultão turco-otomano, mas isso não impediu que o pior acontecesse.

O acontecido foi, basicamente, uma limpeza étnica-religiosa no império insuflada pelo desejo de independência do povo armênio frente ao império, principalmente devido às medidas relacionadas às convocações de membros das comunidades minoritárias para servir em trabalhos penosos no exército. Situação que desembocou, posteriormente, na prisão, deportação e execução de líderes dos armênios. Armênia, sendo uma pequena nação dentro do império, possuía muitas especificidades étnicas e culturais que contrastavam com o império islâmico que os dominava, como língua, alfabeto, religião (historicamente foi o primeiro povo a adotar oficialmente o cristianismo como religião oficial), condição que sempre deixava desconforto tanto por parte do império quanto por parte dos armênios. E isso que desembocou nas várias ações contra esse povo vindo dos turcos.

A crueldade realizada nesse trágico evento parece sair daqueles microcosmos de horror pensados pelo Marquês de Sade. Primeiro os turcos conseguiram uma forma de reduzir a população masculina em idade militar mandando para o exército (local onde foram desarmados, colocados em trabalhos pesados, em algumas situações foram obrigados a cavar as covas onde seriam lançados depois de executados), deportaram membros da intelectualidade e executando outros. Depois seguiu a deportação dos que restaram nas comunidades, fazendo com que tivessem que marchar por vários quilômetros deserto a dentro, sem mantimentos e sendo vítimas das maiores atrocidades. Como já estávamos no séc. XX, a fotografia nos é útil para entender um pouco o que aconteceu. A escolta dos deportados, formando grandes linhas riscando o deserto; o enforcamento de pessoas nas vilas por onde o exército entrava; crucificação de cristãs, nuas, depois de sequências de estupros para serem expostas como menos que nada; muitas meninas e moças armênias foram vendidas como escravas; privação de alimentos provocando fome até a desnutrição. Em cada caso como esses existem fotografias para mostrar, desde as crucificações até mesmo um soldado turco-otomano se divertindo ao erguer um pedaço de pão acima de crianças armênias que imploravam pelo alimento.

Cena do filme “Ravished Armenia” mostrando a execução de mulheres armênias por crucifixão.

Ainda podemos destacar outras táticas de extermínio, como levar crianças para alto mar e jogá-las para que se afogassem; uso de agentes químicos como morfina em altas doses; uso de gases tóxicos; e até agentes biológicos, como a propagação proposital de tifo, gerando inúmeras mortes.


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O registro dos atos durante o genocídio vai desde os documentos das ações do império, da fotografia que imortalizou as imagens desse período e que suscitou outras formas de mostrar como os armênios sofreram nas mãos do Império Turco-Otomano. O cinema, que já caminhava naqueles anos, e já dava força para a propaganda de manutenção da nova sociedade eslava na pós-Revolução Russa, foi responsável por gerar um breve filme explorando as imagens que a fotografia havia registrado. A obra se chama Ravished Armenia, ou Auction of Souls (em tradução livre “Leilão de Almas”), é um filme mudo feito nos Estados Unidos e lançado em 1919. É baseado no livro autobiográfico Ravished Armenia (1918) de Arshaluys Mardiganian, sobrevivente do genocídio, que interpreta a si mesma no papel principal do filme. Vale conferir o restauro que hoje temos da obra. Dos 90 minutos da edição original, perderam-se 70, restando um vídeo mais curto de 20 minutos.

Armênios sendo levados em marcha pelo deserto para deportação, sob vigilância de soldados turcos.

Outros filmes foram feitos sobre a temática ao longo dos anos, mas o que melhor levou ao conhecimento geral das pessoas sobre o genocídio armênio foi o filme de 2016 The Promise (Br. A Promessa), dirigido por Terry George, contando no elenco com Oscar Isaac, Christian Bale, Charlotte Le Bom e Angela Sarafyan, nomes reconhecidos no cenário artístico mundial. A história de um triângulo amoroso se passa no momento que estoura a perseguição. O filme retrata de forma muito dramática aquilo que foi vivido pelos armênios, os enlaces políticos que o Império turco-otomano possuía e os esforços para sobrevivência do povo que era levado ao matadouro. O filme realmente conseguiu alcançar muita gente, chegou a fazer parte do catálogo do Netflix, e contou com divulgação de grandes personalidades como os músicos Chris Cornell e a banda System Of A Down, da qual todos os quatro integrantes são de descendência armênia e sempre levantaram a bandeira para o reconhecimento do genocídio.

Imagem do Instituto-Museu do Genocídio Armênio, na qual se vê um grupo de armênios enforcados pelas forças otomanas em junho de 1915.AFP (fonte El Pais).

Mas outro elemento interessante entre os armênios, ponto forte de sua cultura e identidade, são as letras. Os poetas armênios sempre falam de sua terra sofrida e de seu povo disperso, mas que nunca abandona seus traços. Vejamos alguns exemplos:

“Gostaria de ver alguma força deste

mundo a conseguir destruir esta raça.

Esta tribo de pessoas insignificantes,

cujas batalhas foram perdidas,

Cujos edifícios desmoronaram,

Cuja literatura não é lida,

a música não é ouvida

E as suas preces já não são atendidas.

Vá, destruam a Armênia,

Vejam se conseguem.

Depois vejam se eles não voltam

a rir, a cantar e a rezar de novo.

Porque quando dois deles se encontrarem

em qualquer lugar neste mundo,

Vejam se eles não vão

criar uma nova Armênia.”

por William Saroyan[2], 1935, americano de descendência armênia.

E ainda o seguinte:

NÃO NOS MISTUREM

Não nos misturem a vossas raças grosseiras e selvagens, —

nossa terra devastada é, contudo, antiga e santa.

Como nossa luminosa montanha viu nevascas mil passarem,

assim também não são novidade para nós conspiração e desgosto.

A Babilônia foi nossa rival, olha para ela  —

se perdeu, passou, sem deixar rastro — como uma névoa ruim.

A Assíria foi nossa inimiga — e eis ela:

um campo raso e não restou pedra sobre pedra.

Forte é nosso espírito — filho dos séculos,

muitas vezes nosso coração viu ruína e fogo.

Muitas vezes minha terra viu dor e terror,

lá todo canto é um pranto, todo livro, uma lamentação.

Fomos escravizados, mas nunca subservientes — uma águia cativa;

frente a maldade um grande coração, sempre gentil frente o mau.

Os bárbaros vêm e vão sem deixar rastros,

nossa palavra majestosa permanece para sempre.

Vahan Terian[3], poeta armênio (1885-1920)

Bom, essa amostra rápida sobre a Armênia e seus sofrimentos nesse séc. XX é um lembrete da barbárie humana, e como ele pode descer até a crueldade mais selvagem. Devemos ter esse conhecimento histórico para entendermos como foi o nosso passado, e o principal: saber que em meio as maiores tragédias o ser humano se supera. Ele vai aos abismos inimagináveis, mas retorna se elevando até os mais altos cumes por seu povo, por sua família, sua fé. Esse é o espírito a ser entendido por todos nós que estamos nesse início de séc. XXI.

O filme restaurado Ravished Armenia aos interessados:


[1] KREEFT, Peter. Como vencer a guerra cultural: um plano de batalha cristão para uma sociedade em crise. Campinas, SP: Ecclesiae, 2011.

[2] Poema que aparece no final do filme A Promessa

[3] Poema do livro Poesia Armênia Moderna e Contemporânea. Organização de Deize Crespim Pereira, São Paulo: FFLCH/USP, 2020, p.74, tradução do poema de Deize Crespim Pereira.

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