Vinhos e carros, duas paixões! Harmonizando com… “meu Ford Bigode”

“A excelente vinificação dos vinhos americanos lhes dá o devido reconhecimento mundial, e as uvas que mais se destacam, para os tintos, são a Cabernet Sauvignon, Zinfandel, Pinot Noir e Merlot; e, para os brancos, a Chardonnay e Sauvignon Blanc.”

Por Norivaldo de Azevedo

1929, o ano da produção do Ford “Bigode”[1] do meu parceiro Gerson Sharnick, citado em seu último artigo, foi um ano emblemático para a economia americana e mundial. Este é o ano da Grande Depressão, em consequência da alta expansão de crédito feita pelo Banco Central Americano (emissão de dinheiro e títulos), desde os primeiros anos da década de 1920.

1920, outro ano emblemático para os americanos, porque além de dar início ao processo que eclodiu em 1929, também foi o ano do início da Lei Seca (acredito que devem ter ouvido falar), pois foi o período onde se proibiu a fabricação, transporte e comércio de bebidas alcoólicas por todo os Estados Unidos da América (EUA).

Parte da classe política e o próprio governo acreditavam que o álcool era o causador de todos os males vividos no país; e que a Lei Seca daria fim aos problemas relacionados à violência entre os mais pobres. A Lei vigorou por 13 anos e foi o maior fracasso. Os efeitos provocados foram muito piores dos que os vividos pela sociedade americana da época, provocando o aumento da corrupção, da própria criminalidade e o surgimento da máfia, que tinha como principal operação o contrabando de bebidas alcoólicas; e é neste cenário caótico que surge um dos principais protagonistas deste caos: Alcapone.

Eu me lembro de ver nos filmes de Gangsters, onde o todo poderoso chefão Alcapone contrabandeava caixas e caixas de whisky; mas, para nossa surpresa, o vinho também era uma das bebidas mais contrabandeadas. E teve um importante fato facilitador: havia uma “brecha” no texto da Lei Seca que permitia o uso de vinhos em missas e eventos religiosos. Conseguem imaginar o que aconteceu? A demanda das igrejas aumentou demais… Falsos eventos religiosos eram criados constantemente, mas não com o propósito de uso em celebrações, mas sim com a finalidade de facilitar o desvio da bebida para o mercado negro. Descoberta a fraude, a perseguição policial foi intensa e o aumento da criminalidade uma consequência desta guerra.

Além do contrabando, também houve a tentativa de alguns cidadãos produzirem o próprio vinho; mas isto também era crime, e muitos foram perseguidos. Eram vinhos feitos por leigos que não tinham conhecimento técnico necessário, resultando em vinhos de baixa qualidade, o que fez com que os americanos perdessem o interesse pela bebida.

A Lei Seca foi revogada em 1933, no mesmo ano em que a economia americana começou a se recuperar graças ao pacote econômico implantado pelo Presidente Roosevelt. Porém, a vitivinicultura americana estava completamente desgastada e enfraquecida; e o seu processo de recuperação foi muito longo, em comparação a outros setores da economia.

Os EUA possuem vinhas distribuídas por todo o país, mas foi no estado da Califórnia onde os primeiros sinais de recuperação surgiram em meados de 1960. Porém, dez anos após a retomada da vitivinicultura dos EUA, em um concurso mundial de vinhos que ocorreu em Paris houve o reconhecimento do esforço dos produtores americanos, onde dois vinhos californianos obtiveram resultados muito expressivos entre diversos participantes, sendo um com a uva Cabernet Sauvignon (tinto) e outro com a uva Chardonnay (branco).

Desde esse evento, o sucesso mundial dos vinhos americanos tem sido inquestionável, destacando-se a Califórnia por seu importante papel nesta valorização, tendo como elemento fundamental para este sucesso o seu terroir; ou seja: o seu clima, o seu solo e suas técnicas de vinificação.


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A Califórnia é formada por uma grande variedade de microclimas, onde a falta de chuvas faz com que as vinícolas se utilizem da técnica de gotejamento para o controle e amadurecimento das uvas, oferecendo um fruto de melhor qualidade. O clima é outro fator importante, onde noites frias, manhãs nebulosas e dias ensolarados com aquecimento do solo, misturados a correntes marinhas vindas do Oceano Pacífico, criam uma amplitude térmica favorável para o amadurecimento de suas uvas, o que acarreta a criação de vinhos elegantes, complexos e com destacados sabores de frutas maduras.

A excelente vinificação dos vinhos americanos lhes dá o devido reconhecimento mundial e as uvas que mais se destacam, para os tintos, são a Cabernet Sauvignon, Zinfandel, Pinot Noir e Merlot; e, para os brancos, a Chardonnay e Sauvignon Blanc.

Passadas algumas décadas do concurso de Paris, os vinhos dos EUA atualmente estão no topo do ranking mundial:

  • Ranking de produção mundial (milhões de hectolitros):

1º Itália                = 48,4 mhl

2º França             = 46,4 mhl

3º Espanha         = 40,9 mhl

4º EUA                 = 23,9 mhl

  • Ranking de consumo mundial (milhões de hectolitros)

1º EUA                 = 33,0 mhl

2º França             = 26,8 mhl

3º Itália                = 22,4 mhl

Esta liderança no consumo mundial também tem reflexos no ranking de importações mundiais, onde os EUA é o terceiro, ficando atrás de Alemanha e Reino Unido. E é claro que os dados acima impressionam, porque os EUA estão superando mercados tradicionais do Velho Mundo, em um espaço de tempo relativamente curto. Isto graças a adoção de técnicas de vinificação que tiram o melhor resultado das vinhas, oferecendo vinhos de qualidade. Abrindo parênteses para a vitivinicultura brasileira, vale dizer que também estamos em um caminho muito promissor, onde estas técnicas estão sendo implantadas em algumas regiões e com a obtenção de resultados excelentes. Mas este tema fica para um próximo capítulo!

Um grande abraço a todos!


[1] https://canal7tv.com.br/2021/04/11/carros-e-vinhos-duas-paixoes-meu-ford-bigode/

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