Resumo do início de Jaraguá

Por Maria Helena

Em 1682, sai de São Paulo, que ainda era uma vila, uma bandeira, sob a direção do intrépido bandeirante, Bartolomeu Bueno da Silva, (a trajetória e peripécias desta bandeira podem ser conhecida com detalhes no livro “A Saga dos Reis” de Maria Helena de Amorim Romacheli). Com a queda do preço do açúcar no mercado internacional, era urgente que se procurasse outra matéria-prima substitutiva e no caso essa matéria-prima seria o ouro.

Essa bandeira saiu com destino ao interior do país, subindo sempre para o norte, até no planalto divisor de águas, onde seguindo-o para o poente, chegaram às proximidades do Rio Araguaia e ali encontraram os amistosos índios Goyá, onde as índias exibiam folhetas de ouro como enfeite. Bartolomeu, tentou conquistar a confiança dos índios com presentes. Sem sucesso apelou para o ardil, colocando aguardente na cuia (os índios pensando que era água), colocou fogo, ameaçando fazer isso com as águas dos rios se não contassem onde era a mina.

Com medo de que tudo ficasse seco, chamaram o bandeirante de ANHANGUERA que certamente seria um termo pejorativo. Foi revelado o local e grande quantia do metal foi extraída e levada para São Paulo.

Interessante observar que nesta difícil viajem, estava também, o filho de 12 anos do Anhanguera, com o mesmo nome do pai, Bartolomeu Bueno da Silva, que apesar de sua pouca idade, presenciou tudo.

Com intenção de voltar mais vezes e buscar mais riquezas o velho Bartolomeu, alquebrado pela dureza e intempéries da viajem, logo que chegou em casa, não resistiu e morreu sem ter retornado, mas deixando a família muito bem financeiramente.

Muitos exploradores tentaram chegar até aos índios goyá sem conseguirem, pois muitas trilhas havia pelo interior afora, feita por jesuítas, exploradores e os próprios índios. Isso confundia os incautos viajantes.

Quarenta anos depois, o governador de São Paulo, Rodrigo César de Menezes, recorre àquela criança que havia acompanhado o pai, hoje com 52 anos, seria a pessoa ideal para comandar uma bandeira, pois certamente se houvesse algum detalhe secreto ou um mapa, o velho Bartolomeu teria revelado pelo menos ao filho. Com essa esperança o rei mandou dar 152 armas, escravos, cavalos e promessas, colaborando com a viajem.

Então, em 1722, sai um comboio de mais de duzentas pessoas sob o comando do Bartolomeu Bueno da Silva Jr. (detalhe dessa viajem consta no livro “História de Jaraguá” em relato feito por dois dos participantes, dos quais um deles, Urbano do Couto e Menezes, ficou morando em Jaraguá).

Como seu pai, ele também seguiu para o norte e depois para o oeste, marcando pontos geográficos que reconhecia pelo caminho. Diz o relato que havia desviado um pouco para nordeste e subido muito chegando no Rio Maranhão, teriam que voltar, entraram no Rio e foram voltando pois era caminho mais fácil do que por terra. Tomaram cuidado de entrarem na direção sul, sempre que o rio virava para leste, pegavam o rio para oeste, assim entraram no Rio das Almas e quando já aqui perto, que o rio das Almas vira para leste, saltaram e reconheceram a serra que tinha a tapera de Calhamaro e por três anos “ficaram perdidos”.

Perdido nada, evidências fortes existem de que ele tenha se arranchado junto ao Rio Pari e ali construído morada e roças, surgindo o pequeno povoado à volta da capela de São José, era o inicio de Jaraguá (capela de São José deve ser em homenagem a Dom José, príncipe herdeiro e querido de apenas sete anos).


Leia também: A Igreja de Nossa Senhora da Conceição e sua história


Evidências de que o local tenha sido arranchamento do Anhanguera Jr:

1) Está no lado sul da Serra de Jaraguá, na beirada norte do Mato Grosso Goiano (o qual evitavam por ser extremamente espesso e picadas nele só com machado, segundo John Emanuel Pohl), mas junto com os desenhos dos Martírios de Cristo (que foi citado no relato de Urbano do Couto, companheiro do Anhanguera, juntamente com a citação da “tapera de Manoel Calhamaro” que é um muro de 30×15 m onde bem antes Calhamaro aprisionava índios para levar para São Paulo como escravos para os canaviais, tudo isso está citado nesse relato e fazem parte do Sítio Arqueológico de Jaraguá) está uma seta indicando a direção dos índios Goyá e aponta para o interior  do mato, teriam que fazer uma estrada ali por mais difícil que fosse  e assim fizeram, dias e dias, meses e meses, anos se passaram, enquanto alguns garimpavam outros plantavam roças, caçavam para a subsistência e outros abriam aquela difícil estrada, com poucos recursos de ferramentas, derrubando árvores e adentrando.

2) A região está no planalto divisor de águas.

3) E ali junto, numa grande rocha (5×4 m), cheia de desenhos rupestres, que chama a atenção de quem passa, está gravada figuras imitando os Martírios de Cristo como Manoel Calhamaro, cunhado do Anhanguera, os chamou e a palavra PAI. Seria de um filho marcando a passagem do pai? Nos relatos de Urbano do Couto, companheiro de viajem do Anhanguera Jr. está: “…….Nesse mesmo dia disse o Anhanguera a seu irmão Simão Bueno que era onde seu cunhado Calhamaro tinha achado numa grande pedra , os martírios de Cristo………”

4) Já muito perto dos índios goyá e portando do ouro, bastava andar mais poucas léguas para o oeste e alcançar o objetivo.

5 ) Local extremamente propício para se plantar lavoura, muito fértil e fresco o ano todo (os bandeirantes plantavam lavoura enquanto viajavam, para sua subsistência).

6) este trajeto ficou para sempre sendo caminho entre São Paulo e Santana (Cidade de Goiás), chamado Caminho Real.

Rodrigo César de Menezes, já se preparava para mandar patrulha de socorro, quando surge o bandeirante, com mostras de ouro e a boa notícia de sucesso, dia 24 de outubro de 1725 (Carta do governador para o rei está na página 30 do livro, História de Jaraguá). Voltou o Anhanguera Jr. e povoou a província que passou a chamar Província de Goyas. Em 26 de maio de 1726 já estava coroado de êxito, seguido de muitas famílias e uma grande multidão chegou nas minas, uns dizem no Ferreiro outros dizem no arraial da Barra e depois Santana que depois chamou Vila Boa e hoje, cidade de Goiás onde se instalou o velho sertanista com sua família, vindo a morrer em 1740.

O caminho para se chegar ali, foi e continuou sendo, passando pelo pé da Serra de Jaraguá, ali onde se iniciou o embrião deste lugar tão rico na história, ao lado do Rio Pari, no mesmo paralelo da Cidade de Goiás e de Brasília onde as evidências mostram ter sido, a mudança de direção de norte para oeste da caravana, no planalto divisor de águas.

Junto nesta bandeira, muitos vieram, no afã de explorarem e fixarem residência em Jaraguá. Na página 48 do livro História de Jaraguá, consta 80 moradores do Córrego do Jaraguá encontrados em registros paroquiais e documentos afins. Alguns deles: Manoel de Barros Braga, Antônio de Almeida Paes, Urbano de Couto Menezes, Fernando Bicudo de Andrade, José Gomes Curado, etc.

Observação: um erro comum colocar Manoel Rodrigues Tomar como um deles, esse personagem brigou com comandante de Santana, o Bartolomeu, pois já não concordava com seus métodos, saiu e fundou Meia Ponte (hoje Pirenópolis). Expulso de Meia Ponte por ter desobedecido ao Rei, foi para o norte onde com seus seguidores fundou Trahiras, Crixás, etc, nada tendo a ver com a nossa Jaraguá.

Jaraguá. Porquê o nome Córrego do Jaraguá? Observe que é do e não de, porque é abreviação de córrego do Pico do Jaraguá, fazendo referência ao Pico Jaraguá de São Paulo. Este córrego é a soma do córrego Marinho com o córrego Canivete, que descem da serra e se torna um afluente do Rio Pari, outrora muito rico e caudaloso (não é o córrego vermelho que confunde as vezes) lembre-se que Jaraguá nasceu do lado sul da serra. Só entre 1727- 1748 ocorreu a mudança para onde está hoje pois já sua igreja N. S. da Penha recebeu licença para funcionamento em 1748 (Ver documento na página 44 do livro História de Jaraguá) e um templo grande como era, com cinco altares, deve ter levado de 18 a 20 anos para ser feito. Após a mudança, o arraial passou sutilmente a ser chamado apenas Jaraguá.

Mas por que a referência ao Pico Jaraguá em S. Paulo?

Vejamos as evidências:

1) O mais importante dos fundadores tinha herança lá.

2) Poucos anos antes de virem para cá, haviam descoberto ouro de gupiara no Pico Jaraguá e esse mesmo tipo foi encontrado aqui.

3) Os bandeirantes vinham pelo caminho que hoje é mais ou menos a BR070 que liga Brasília a Jaraguá (onde se vende abacaxis na BR 153 para ser mais clara) observando a Serra deste local ela deixa de ser um lido painel horizontal para ser tornar dois Picos, com semelhança extrema ao pico de São Paulo.

Porquê será que mudaram o arraial para o outro lado da Serra?

É fácil imaginar:

1) As Margens do Rio Pari, é muito fértil, mas no período chuvoso, torna-se lamacento e habitat de todo tipo de mosquitos, portanto insalubre.

2) O mato grosso goiano era uma mata tão fechada com toda sorte de animais selvagens e não dispunham de facilidade de desmatamento como hoje; do lado norte da serra a vegetação é de cerrado, plana, extensa, ideal para o crescimento do povoado. Ficaria cinco léguas mais distante como disse anos depois o General José Raimundo da Cunha Matos mas deve ter valido a pena. E foi neste período de transferência que nasce o nosso herói maior, General Joaquim Xavier Curado – criador do Exército Nacional.

A sequência dessa linda História virá numa próxima oportunidade.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui