Cobras Fumantes

A banda Sabaton tem na história militar a inspiração para as suas letras e performances musicais. Todo o ambiente do show remete a esse tema, incluindo uma réplica de tanque de guerra no palco. Para montar o álbum “Heroes” (2014), no qual o intuito foi tratar de indivíduos durante os conflitos, fizeram uma pesquisa entre os feitos heroicos na Segunda Guerra, e nessa busca souberam da história de três pracinhas brasileiros, ou melhor, dos “três heróis brasileiros”.

Por Tobias Goulão

Existe uma experiência interessante que o Youtube proporciona: ler comentários em alguns vídeos, principalmente nos de músicas. Em muitos casos, ao ver o que estão dizendo em um vídeo com alguns anos já publicado, os comentários trazem saudade, nostalgia, a noção de uma era de ouro perdida, lembranças de momentos marcantes da juventude. É legal ler o que alguma música que você gosta trouxe para outras pessoas.

Segundo essa experiência, estava assistindo à apresentação da Banda de Música do Comando da 14ª Brigada de Infantaria Motorizada no Concerto especial alusivo ao Dia do Exército Brasileiro, a data do concerto não dá para saber, mas o vídeo foi publicado em 12 de maio de 2015. A banda estava executando um arranjo da música “Smoking Snakes”, original da banda de power metal Sabaton, lá da Suécia. Imagine que interessante isso: a adaptação de um power metal no Brasil, com uma ótima execução e o mais marcante – que os atentos já devem ter percebido – é que o nome da música remete à FEB (Força Expedicionária Brasileira), aos pracinhas brasileiros que lutaram na Segunda Guerra Mundial, os Cobras Fumantes. A grande pergunta que paira no ar é como os suecos do Sabaton fizeram uma música para os soldados da FEB? A resposta é até simples.

A banda Sabaton tem na história militar a inspiração para as suas letras e performances musicais. Todo o ambiente do show remete a esse tema, incluindo uma réplica de tanque de guerra no palco. Para montar o álbum “Heroes” (2014), no qual o intuito foi tratar de indivíduos durante os conflitos, fizeram uma pesquisa entre os feitos heroicos na Segunda Guerra, e nessa busca souberam da história de três pracinhas brasileiros, ou melhor, dos “três heróis brasileiros”. Essa história, que possui variantes, conta resumidamente os feitos de Arlindo Lúcio da Silva, Geraldo Baeta da Cruz e Geraldo Rodrigues de Souza, os três soldados da FEB que se separaram de sua unidade e foram surpreendidos por um destacamento alemão, em que lutaram contra um grande contingente de alemães na Itália em 14 de abril de 1945. Recusando a rendição, lutaram até a morte e foram sepultados pelos alemães, que consideraram seu feito algo incomum e digno, ao ponto de colocarem sobre seus túmulos uma cruz com a inscrição ‘Drei brasilianische Helden’ (Três Heróis Brasileiros). A situação dos pracinhas entre recuar e levar risco de confronto para os seus companheiros, a rendição e ser prisioneiros e lutar para pôr à prova seu valor, optaram pela última, combatendo “até o último cartuxo”. Os alemães, a princípio, pensaram que combatiam outro destacamento, dada a fúria e constância dos ataques dos três, mas descobriram se tratar somente deles. Após o fim da munição as cobras fumantes, de baionetas em punho, partiram para o ataque final, sendo abatidos. A forma como esses pracinhas lutaram fez com que os alemães desse a dita distinção nas suas sepulturas. Uma história que é prato cheio para um conjunto musical cuja expressão está vinculada ao grandioso, ao heroico e épico.

Apresentação banda Sabaton.

Ao voltar no ponto de partida dessa nota, os comentários nos vídeos, vemos nesse da Banda militar, eles se agrupam nos seguintes: brasileiros conhecedores da história militar, parentes de ex-combatentes, militares ativos e em reserva, honrados pela homenagem da banda; entusiastas militares saudando a bravura dos heróis da FEB; pessoas do mundo todo descobrindo que o Brasil esteve na Segunda Guerra e foi um dos grandes exemplos de bravura no conflito. Essa parte é sintomática, pois aqui no Brasil poucos (com exceção dos grupos mencionados acima) se lembram da ação da FEB, ou mesmo entendem o que é a “Cobra Fumando”, e quando sabem, em um espírito vazio de conhecimento e com muita opinião simplesmente diz que “os coitados dos pracinhas foram mandados para lá só para morrer e não fizeram diferença nenhuma”.


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A nossa amnésia, ou melhor, o desconhecimento do que foi a ação da FEB na Itália é tão grande que não é possível repetir nessa nota a metade da gratidão sentida pelos italianos com relação aos membros do Exército Brasileiro que para lá foram destacados e marcaram a vida de muitos naqueles dias de conflito. Procure por entrevistas de italianos sobre o exército brasileiro (indico a da srª Iolanda Maratta, está no Youtube com o título “Grazie Soldato Brasiliano!”), as comemorações do fim da Guerra na qual as crianças italianas cantam a Canção do Expedicionário em português como clara homenagem aos soldados que ajudaram a tomar aquele lugar dos alemães. Que noruegueses, russos, finlandeses não saibam da bravura da FEB é compreensível; aos italianos é algo impensável, para o brasileiro é o comum.

Ninguém parece querer ver o bem, o heroico no Brasil, ao ponto de lançar por terra tudo que já foi feito. O normal é simplesmente seguir um caminho no qual aparecem apenas desgraças, malandragens, corrupção, política e “música” de qualidade duvidosa, e isso é mostrado como o mérito do Brasil e do brasileiro. Em comentários de estrangeiros sobre os feitos brasileiros no conflito mundial, vemos outra perspectiva, que o país deu o sangue com honra na luta além-mar, que ajudou um povo necessitado, e confirmamos isso ao ver como os pracinhas da FEB são importantes para muitos italianos.

É partindo dessa compreensão do que é o heroísmo, de como ele aparece nas condições mais difíceis, entre pessoas pouco conhecidas e que, no fim, nem são lembradas é que a banda Sabaton quis trazer uma breve homenagem. Frente a tantos outros fatos mais conhecidos nas histórias das guerras, outros tantos heróis, o espaço para o Brasil ficou registrado nesse episódio e hoje muita gente fora do país conhece o episódio dos três heróis. A homenagem acertou em cheio no trecho que chama para o refrão da canção: “Cobras fumantes, eterna é sua vitória!” (sim, os suecos cantam esse trecho em bom português).

Não é ufanismo, apenas reconhecimento do que há de melhor em nossas histórias (ou estórias). Pois, ao invés de ficarmos no baixo, no cultivo dos apetites, cultivemos o espírito pensando no que é o sacrifício, a honra e o heroísmo.

Símbolo da FEB- Bandeira.

P.s: há uma breve investigação na história militar com o título “Contradições Históricas da FEB: Os Três Heróis Brasileiros, quem são?”, sobre a identidade dos pracinhas da história, mostrando algumas incoerências e desencontros de informações. Pelo que demostra a pesquisa e a popularização da história já conhecida e que virou música, temos um feito cujos nomes dos heróis podem estar equivocados. Esse problema encontrado não faz esquecer o papel e a honra da FEB na Segunda Guerra Mundial e a forma como ainda é recordada por onde passou. É condição para criar a curiosidade de procurar conhecer o quanto a cobra fumou na Itália.

Aos interessados nas músicas mencionadas, abaixo o link:

Smoking Snakes – Sabaton

Arranjo pela Banda de Música do Comando da 14ª Brigada de Infantaria Motorizada

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