A Igreja de Nossa Senhora da Conceição e sua história

Por Maria Helena

Sendo já a quarta capela de Jaraguá. A primeira foi a Capela de São José, construída de pura pedra ainda pelos religiosos bandeirantes. Desde mais ou menos 1722 resistiu ali 200 anos até 1930 quando os líderes de Jaraguá resolveram usar as pedras de suas paredes e de seu muro em volta e para fazerem uma grande barragem ali junto, com o objetivo de represar as águas do córrego do Jaraguá e gerar energia elétrica. A tal barragem não represou nada, diziam os supersticiosos que havia sido castigo por terem derrubado uma igreja para fazê-la.

 Ficou apenas a base dela ali, à 300m da grande pedra com os desenhos, chamado de martírios de Cristo pelo Manoel Calhamaro, cunhado do Anhanguera Jr, e que ainda podemos ver no Sítio Arqueológico na fazenda São Januário em Jaraguá, sob o número GO Ni 113 de registro no IPHAN, atrás da serra.

A segunda capela, foi a que hoje se tornou a bela Matriz de Nossa Senhora da Penha, construída também por bandeirantes, em 1727-1748, em especial pelo mais importante de todos, Fernando Bicudo de Andrade, herói da guerra contra os franceses no Rio de Janeiro e um dos fundadores de Mariana, antiga capital de Minas Gerais. Sofreu inúmeras alterações, foi desmanchada em 1920, reconstruída em 1950, alterada em 1980 e finalmente totalmente remodelada em 2010.

A terceira foi a igreja do Rosário, especialmente construída para os negros (havia muitos negros ricos em Jaraguá), essa separação de cor durou até meados do século XIX pois aí já se via batizados, enterros e casamentos de brancos nela. Com 3 altares, dos quais o altar central era totalmente dourado de ouro, ficou pronta e benta em julho de 1776 (ano da independência dos Estados Unidos). Seguindo o tempo de construção que levava uma igreja, deve ter começado sua construção logo depois da Matriz.

E finalmente a quarta capela é a que vem encantando toda à população jaraguense, totalmente reformada, é a Igreja Nossa Senhora da Conceição. A Matriz já não suportava tantos enterros pois poucos anos atrás, nos idos 1815, havia tido uma peste no arraial Jaraguá, que segundo Johann Emanoel Pohl em seu livro ‘Viagem ao Interior do Brasil’ ( 1817-1821), disse: “……nenhuma casa escapou de ter pelo menos um morto….”.

Igreja Nossa Senhora da Conceição. Foto: acervo Maria Helena.

Os líderes sentiram necessidade de mais uma capela, pediram autorização às autoridades  constituídas e sua majestade, e receberam como resposta, por mão da Cúria de Goiás, a seguinte resposta:   “D Pedro por graça de Deus e unânime aclamação dos povos, Imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil faço saber que requerendo-me os devotos de Nossa Senhora da Conceição do Arraial de Jaraguá Bispado de Goyas, a graça de lhes conceder licença para erigirem a dita Capela, ficando salvo os direitos paroquiais e os de fábrica da Igreja Matriz, mando ao respectivo provedor de capelas e mais justiça a quem o seu conhecimento pertencer a cumpram e guardem como nela se contém, sendo passada pela chancelaria de ordens e valerá como carta posto que seu efeito haja de durar mais de um ano sem embargos de ordenação em contrário.O Imperador Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança (ou simplesmente D. Pedro I) o mandou pelos seus ministros abaixo assinado do seu conselho de deputados da mesa da Consciência e Ordem. Bernardino de Sena Chaves o fez no Rio de Janeiro aos 30-04-1828. Do livro de provisões, regimentos e decretos. Cúria de Goiás”.


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Deu-se início à construção da capela. Trabalhadores livres e escravos trabalharam nela, alguns traziam pedras para as bases, terras para as paredes pois é feita de taipa de pilão. Árvores imensas de aroeira eram derrubadas nas matas vizinhas e trazidas arrastadas por bois sem antes terem-nas lapidado, telhas sendo feitas, sem contar a cal, imagens, etc. Nenhum prego havia no seu madeiramento, era feito com encaixes perfeitos na madeira como era também a construção do hoje museu, feito pelo Coronel Francisco Policarpo, daí os antigos dizerem que foi ele quem orientou a construção do telhado da igreja Nossa Senhora da Conceição. Baseado nos registros paroquiais, ficou pronta e benta em 1846 pois nesse ano aparece o primeiro registro de óbitos de pessoa que nela foi enterrada.

“Aos 06-07-1846 se deu sepultura a Joaquim, inocente, filho legítimo de Francisco Luiz da Silva e Francisca Xavier, pardos livres, amortalhado em hábito branco encomendado e sepultado dentro da Igreja da Conceição” Padre Silvestre Alvares da Silva.

O primeiro casamento: “Aos 03/08/1846, na Capela de Nossa Senhora da Conceição, casaram de palavras presentes, João Leite de Arruda, filho legítimo de João Leite e Helena de Arruda e Ana Francisca Taborda de Negredo, filha de Hipólito Taborda de Negredo e Maria da Cruz. Os contraentes nascidos e batizados nessa freguesia onde são moradores. De que faço esse assento. Coadjutor Manoel Ribeiro de Freitas”

Essa capela, tem ao seu redor e dentro dela mais ou menos 2000 pessoas enterradas, pois acreditavam que quanto mais perto do altar-mor fossem enterradas mais perto do céu estariam e assim gastavam fortunas para enterrarem seus entes queridos nos lugares privilegiados. Quem não acreditavam era enterrado nas laterais da igreja. Só em 1900 foi construído o Cemitério Santana.

É uma igreja linda, no estilo colonial, mas fica aqui um sentimento de desaprovação da população que ao passar hoje na frente da dita igreja, nota-se a ausência das 5 palmeiras da sua frente, com meio século de idade, da mesma qualidade que as palmeiras que enfeitam com sua exuberância, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com 200 anos, plantadas ainda pelo imperador D. João VI. E, pela incúria dos responsáveis, foram derrubadas para “limpar” o visual da fachada.

Palmeiras recém plantadas na Igreja Nossa Senhora da Conceição. Foto: acervo Maria Helena.

Fotos da fachada da Igreja Nossa Senhora da Conceição após a reforma:

Igreja Nossa Senhora da Conceição. Foto Ivan Filho.
Igreja Nossa Senhora da Conceição. Foto Gabriel Almeida.

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