Um filme que merece ser lembrado: O Demolidor

“O filme tem mais coisas engraçadas como prever Arnold Schwarzenegger na política, o controle bélico excessivo, o rebaixamento da cultura ao nível da simples propaganda, coisas assim. Nesse ambiente superficial e completamente fechado para uma vivência humana de fato, nada poderia sair de bom. E não é à toa que a solução para isso vem do subsolo.”

Por Tobias Goulão

Se você viveu a infância ou o início da adolescência na década de 1990 ou até meados da década de 2000, provavelmente deve se lembrar que na programação diária dos canais abertos da televisão brasileira sempre possuía um espaço diário para alguns filmes. Praticamente todos os dias da semana havia um horário como eles sendo exibidos e até mesmo nos domingos à tarde, caso não atrapalhasse o futebol. O catálogo era variado, mas alguns gêneros sempre marcavam presença. Desde comédias familiares até algumas com tons mais ácidos, aventuras infantis e infanto-juvenis, romances e, aquele gênero que marcou a geração: os filmes de ação.

Nesses filmes de ação alguns nomes se consagraram e, até hoje, são referências ao se falar em tiroteios, pancadaria e explosões em filmes. Quem é aquele que acompanhou algumas tardes e noites de filmes na TV aberta que não ficou empolgado com as produções explosivas protagonizadas por Arnold Schwarzenegger, Jean-Claude Van Damme, Bruce Willis, Kurt Russell, Steven Seagal, Chuck Norris e Sylvester Stallone. Este último é um dos mais famosos. Encarnou o “mitológico” John J. Rambo (tema de muitas festas de aniversário infantis nos anos 1990), mas já havia dado vida ao grande Rocky Balboa e ainda em nossos dias aparece nas telas, seja retomando velhos personagens ou criando novos, mas sempre com a mesma premissa: muita ação com tiros e explosões.

Bom, dos personagens menos famosos de Stallone é um tal de John Spartan, policial do filme de caráter distópico chamado “O Demolidor” (Demolition Man, direção de Marco Brambilla, 1993). Spartan perseguia um bandido famoso, vândalo e assassino chamado Simon Phoenix (interpretado por outro dos brutamontes dos filmes de ação, Wesley Snipes) e nessa ocasião os reféns de Phoenix foram mortos e a culpa recaiu sob Spartan, que já possuía um histórico de intransigências levando a destruição de grandes construções devido a suas ações. O ano era 1996 e ambos foram condenados a ficar em “Crio-Prisão”, em outras palavras, foram congelados para serem descongelados no futuro (processo esse que realizava uma reeducação dos detentos que por meio de induções naquele estado de suspensão recebiam informações para outras atividades menos violentas, como fazer crochê e costura). A história toda acontece quando Phoenix “escapa” da prisão e ninguém consegue lidar com ele no futuro, pois a força policial é pífia, os homens e mulheres são frágeis e sem capacidade de nenhum tipo de luta corporal e não suportam o mínimo de contrariedade aos ditos do governo. O ano desse acontecimento é 2032, o mundo é completamente diferente e em pouquíssimo tempo a capacidade de enfrentamento de uma ameaça virou o mundo de cabeça pra baixo. A solução para o enfrentamento do mostro que estava à solta era somente com outro monstro, nesse momento eles tiram Spartan da prisão.


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O cenário já mencionei como uma distopia, isso é, um “não-lugar”, um tipo de mundo futurista onde as coisas saíram errado e algum tipo de problema grave se vê. Spartan encontra um bando de pessoas extremamente condescendentes com o que lhes são impostos. Infantilizadas, controladas, mas mesmo assim com aquelas caras de meninos ricos mimados que não sabem o que é brincar na rua e se acham o máximo por ter acesso há um monte de brinquedos novos.

Tudo é construído com muita ironia e um bom tom de sarcasmo. É notória a fraqueza física de todos naquele muito, que se mescla a um embotamento da consciência pessoal e da capacidade de expansão da capacidade de entendimento da vida. Naquele momento da história eles acreditam que a simples superioridade tecnológica era garantia de superioridade em qualquer outro quesito. Há uma zombaria dessa fragilização excessiva, ligadas às inúmeras modas politicamente corretas que já começavam a surgir nos anos 1990 e o filme já vai colocando como o responsável por aquele ambiente tecnologicamente e esteticamente muito eficientes, mas que as pessoas não possuem uma vida real. Ali elas estão exercendo papeis impostos sem nenhuma contingência que possa fazer com que viver seja um “que fazer”. O cenário é desolador por isso, porque mostra um monte de situações bizarras que as pessoas aceitavam sem nenhum questionamento, sendo esse autoritarismo, vigilância e privação os pontos marcantes de todas as literaturas e produções cinematográficas com caráter distópico.

Para dar algumas imagens do cenário do filme, seguem as principais características da vida sem graça da cidade de San Angeles (uma fusão das cidades de Santa Mônica, San Diego e Los Angeles):

Há controle e vigilância geral de todos. Há câmeras e microfones capitando tudo que todos fazem e falam e, é claro, multam qualquer coisa que se fale fora do padrão. Palavrões são proibidos e você é multado imediatamente ao pronunciar algum. É comum escutar durante o filme a seguinte frase: “John Spartan, você foi multado em cinco créditos por violação do estatuto verbal”.

Nesse cenário há o afastamento das relações humanas. É tudo muito distanciado. Tocar nas pessoas? Proibido. Cumprimentos só com distância social segura. Abraços? Impensáveis. São costumes dos antigos bárbaros. Beijos e sexo? Coisas abomináveis! A grande quantidade de doenças que surgiram depois da AIDS criou um ambiente de terror tão grande e fez com que as “relações sexuais” fossem todas “virtuais”.

Claro que questões econômicas não ficariam de fora. O governo garante o monopólio das empresas que possuem permissão para funcionar. O grande exemplo é a rede de restaurantes Taco Bell, ao ponto de dizerem no filme “todos os restaurantes são Taco Bell”. É no restaurante que outra situação icônica ganha corpo: as proibições alimentícias. Mas, claro, tudo porque não é saudável e, portanto, o governo fez ser ilegal e proibido. Exemplos de proibições daquele ano de 2032: sal é proibido, carne é proibida, bebidas são proibidas. O estado conseguiu chegar onde queria e dominou até mesmo o paladar das pessoas.

O filme tem mais algumas coisas engraçadas, como prever Arnold Schwarzenegger na política, o controle bélico excessivo, o rebaixamento da cultura ao nível da simples propaganda, coisas assim. Nesse ambiente superficial e completamente fechado para uma vivência humana de fato, nada poderia sair de bom. E não é à toa que a solução para isso vem do subsolo.

Nem todos se adaptaram ao mundo louco de San Angeles e passaram a viver clandestinamente. Literalmente foram para o subsolo da cidade, que comporta tanto partes soterradas das antigas cidades como a rede de esgotos e até metrôs. Lá que Spartan mata a vontade de comer carne saboreando um “ratoburguer” em uma cena muito engraçada. Naquele ambiente, visto pelos colegas que o acompanharam até lá como algo insalubre, foi o local onde viu pessoas com preocupações reais, com vida real e com felicidade verdadeira.

Eles eram um grupo de rebeldes, párias colocados à parte da sociedade pelo estilo de vida bárbaro que possuíam. Para viver conforme queriam não pensaram duas vezes em se exilar e em viver clandestinamente. Spartan vê aquilo com algo positivo, pois da época que veio aquilo que eles queriam viver era extremamente comum. Só passou a ser loucura com a nova ordem que foi estabelecida em nome da saúde e qualidade de vida limpinha e sem riscos imposta pelo governo. No tempo anterior ao congelamento de John Spartan aquilo era somente o exercício da liberdade (palavra que dá calafrios aos governantes e não é entendida corretamente pelos colegas policiais daquele 2032).

O momento que marca o motivo da conduta dos fora-da-lei como simples busca por liberdade é o discurso feito pelo líder dos rebeldes, Edgar Friendly (interpretado por Denis Leary). Na nossa inesquecível dublagem e adaptação para TV brasileira, a fala enfática nos diz:

“Sabe, de acordo com o plano do Cocteau, eu sou o inimigo. Gosto de pensar. Eu gosto de ler. Eu quero liberdade de expressão e liberdade de escolha.

Eu sou o tipo de cara que gosta de sentar em um restaurante gorduroso e pensar: Nossa, eu como um T-Bone steak ou um churrasco de costeletas com uma porção de fritas? Quero ter colesterol alto! Quero comer bacon e manteiga e quilos de queijo. Quero fumar um charuto cubano tão grande como o Cincinatti na ala de não fumantes. Quero correr nu pelas ruas com gelatina verde pelo corpo lendo revista de mulher nua, por quê? Porque de repente posso ter vontade, cara.

Eu vi o futuro e sabe como que é? É uma velha virgem de 47 anos sentada de pijama, tomando milk shake de banana, e cantando: ‘Eu quero meu cachorro quente’.”

Esse trecho é fenomenal. Porque mesmo sendo uma crítica ao sistema, uma ode à liberdade, uma reflexão sobre as possibilidades de viver, é hilário. Você assiste essa cena no filme e ao mesmo tempo que ele desperta uma empolgação por ser livre você está rindo. Ou seja, a ação do filme, a ironia e sarcasmo da distopia não ficam sem uma boa comédia. Quem fala do futuro de forma trágica são os profetas, os comediantes brincam, fazem sarcasmo e eventualmente acertam. Por isso ficam rindo, porque sabem que mesmo conseguindo ver as coisas não serão levados a sério. E nós rimos como eles.

Poderíamos ficar por mais algumas páginas tratando dos temas desse filme e refletindo sobre a gravidade dos problemas apresentados nesse cenário, mas ainda temos uns 11 anos até chegarmos lá e nesse período que nos separa daquele terrível mundo ainda podemos aproveitar para assistir esse filme mais uma vez e rir muito. Só não sei se vamos rir dele ou de nós mesmos.

Mas existe ainda um grande enigma nessa história. Não é político ou social. É uma questão de altíssima importância higiênica: alguém já descobriu como se usam as três conchas?

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