O que se conhece

“O homem sendo um ser de natureza racional é capaz de perceber a realidade e refletir sobre ela, formulando perguntas e buscando respostas”.

Por Alaor Bruno

O homem sendo um ser de natureza racional é capaz de perceber a realidade e refletir sobre ela, formulando perguntas e buscando respostas, pois, ao se deparar com a realidade ele abstrai os conceitos das coisas existentes, estando à pessoa em um continuo aprendizado. Este aprendizado se dá de vários modos, uma vez que tudo que existe comunica algo pelo simples fato de existir, ou seja, tudo que é – é conhecível e por tanto é verdadeiro, Kieninger (2009) “Onde há ser, aí há verdade, por isso ‘Ser’ e ‘verdade’ são convertíveis. Onde se encontra um, encontra-se o outro”.

“A verdade é a adequação da coisa e do intelecto – veritas est adaequatio rei et intellectus, e está primeiramente no intelecto, secundariamente nas coisas, na medida em que se referem ao intelecto, como ao seu princípio. (Aquino, 2006, p. I, q. 16, artigo 1²)[1].”

A verdade por tanto é a assimilação do conhecido que se adequa ao intelecto, (Ex.: Vejo uma mesa, a imagem de mesa forma um fantasma do objeto visto no intelecto, este fantasma é o conceito abstraído a partir da visualização da mesa), por isso este poder de conhecimento existente na pessoa traz para ela uma dignidade ímpar tornado sempre necessário à busca pela sabedoria (verdade). O processo do conhecimento da realidade sendo abstraído pelo intelecto, tem como consequência a formulação dos conceitos e mostra que o conhecimento em si é imaterial, estando presente na mente do ser pensante, todo este poder de aprendizado faz do homem um ser virtuoso, Gandra (2004) cita Sócrates que diz: “Todas as virtudes se resumem no conhecimento (o cultivo da alma vale mais que toda riqueza material) e o vício na ignorância (ninguém pecaria voluntariamente, mas por ignorância do bem)”.

 Sócrates sabia da importância de se buscar a verdade, debruçado sobre o infinito mundo do conhecimento se colocou de forma humilde para buscá-lo, Gandra (2004) cita Sócrates que afirma: “Só sei que nada sei”, pois aquele que afirma saber tudo é mentiroso, sendo o conhecimento imaterial e imensurável não pode caber em uma pessoa finita. O homem pode e deve especular, mas nunca chegará a todas as respostas, ou ao conhecimento de tudo, pelo menos não nesta existência, é sempre louvável saber o que é possível de ser descoberto, ter sede de conhecimento para ser uma pessoa esclarecida e absorver o máximo que a realidade proporciona assim nos aproxima deste infinito.

O Conhecimento da verdade liberta o homem, parafraseando Platão em sua obra O Mito Da Caverna onde faz menção a respeito das experiências de Sócrates em relação à descoberta da verdade, vai contar uma parábola aonde havia várias pessoas que vivem dentro de uma caverna escura e de difícil, ou de quase impossível, acesso ao mundo externo. Dentro desta caverna, nas paredes eram projetadas pela luz do sol as sobras das coisas que passavam pela porta do local, até que um dia um homem decidiu conhecer aquelas imagens não apenas pelas projeções que havia delas mais quis atestar com a própria existência percebendo a própria realidade. Enfim, conseguiu sair da caverna, a princípio houve um choque pela claridade da luz, em seguida pôde contemplar a sensível e real realidade, percebendo que o que enxergava do lado de dentro não era de fato a verdade ou o conhecimento em si, mas as sombras do real. Este homem, portanto, está livre, por que conheceu de fato a realidade e não apenas fragmentos dela.


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Os gregos na busca pela verdade se depararam com outra questão, o erro e a falsidade. Na história do Mito da Caverna isto fica bem ilustrado, pois as sobras dentro daquele ambiente, até a descoberta do mundo fora dela, era a única verdade conhecida por seus habitantes, agora que se conhecem os seres de fato o que era então as sombras, entra-se em um conflito sobre o objeto do ato humano de conhecer.

“Se observarmos a concepção grega da verdade, notaremos que nela a realidade – o que se manifesta na sua existência para a nossa percepção – é o verdadeiro ou a verdade. Por esse motivo os filósofos gregos perguntam: como o erro, o falso e a mentira são possíveis?

A resposta dos filósofos gregos é dupla:

1. O erro, o falso e a mentira se referem à aparência superficial e ilusória das coisas e surgem quando não conseguimos alcançar a essência das realidades; são um defeito ou uma falha de nossa percepção sensorial ou intelectual;

2. O erro, o falso e a mentira surgem quando dizemos de algum ser aquilo que ele não é, quando lhe atribuímos ou propriedades que ele não possui ou quando lhe negamos qualidades ou propriedades que ele possui. Nesse caso, o erro, o falso, e a mentira se alojam na linguagem e acontecem no momento em que fazemos afirmações ou negações que não correspondem à essência de alguma coisa. Eles são um acontecimento do juízo ou do enunciado. (Chaui, 2014, p. 112)[2].”

A expressão da verdade é em forma de juízo, que segundo Kieninger (2009) “é o ato no qual a inteligência conhecendo, afirma ou nega alguma forma”. Estes juízos são efeitos da reflexão que Tomás de Aquino, na Suma Teológica p. I, q. 87, define como “a volta do conhecedor sobre uma coisa já conhecida”   

“Quando se reflete sobre a imagem sensitiva interna da qual se ganhou o conhecimento, fala-se de uma reflexão metodológica (“Redditus ad phantasmata”); quando se reflete sobre os conceitos para formar uma afirmação ou negação, fala-se de uma reflexão julgador (“Redditus ad veritatem”); quando se refere sobre si mesmo, sobre a causa do meu conhecimento, fala-se da reflexão no sentido próprio da palavra (“Redditus ad sipsum” ou reflexão fundamental). (Kieninger, 2009, p. 6)[3].”

A verdade como objeto do nosso ato conhecedor é por tanto tudo aquilo que é, seja esta realidade existente material ou até mesmo imaterial. A respeito disso, Aristóteles chamará de metafisica, que significa além da física ou do que é realidade física material como, por exemplo, o sinal de internet onde não é possível ver e nem tocar, mas existe, pois é captando por aparelhos tecnológicos. O conhecível é, portanto, fonte de grandes estudos e de diversos livros que tratam do assunto, e, é essencial para o autoconhecimento onde através da descoberta das capacidades humanas se podem ir à diante na busca por formas cada vez mais eficazes de absorver o máximo do infinito que é a sabedoria, ou o que se pode conhecer. A especulação da verdade é um compromisso de todos enquanto seres humanos, cidadãos e construtores de um mundo melhor.


[1] Aquino, Tómas, Summa Theologica. São Paulo: Loyola, 2006.

[2] Chaui, Marilena, Iniciação à Filosofia. São Paulo: Vozes, 2014.

[3] Kieninger, Titus, Teoria do Conhecimento. Anápolis: Institutum Sapientiae, 2009.

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