A morte toca tudo aquilo que amamos

“Diante da certeza da morte somos encorajados a viver melhor, seja por nós mesmos, seja por uma espécie de homenagem a quem se foi.”

Por Danilo Barbosa

A morte está na ordem natural das coisas.

É o ciclo natural – nascer, crescer e morrer – e, apesar do conhecimento deste fato, ninguém tem o desejo de ser inserido neste ciclo. Claro, ninguém quer morrer! Mas a morte chega. Numa bela noite, como um ladrão, ela arromba a porta e entra, envolve-nos…quase nunca estaremos preparados esperando-a. 

A morte chega.

De algum modo ela chega até nós… em uma tarde de outono vejo as folhas caírem. No fundo se tem a sensação de que a próxima folha serás tu! A morte assusta e dá medo. E ali, diante da vida você está paralisado e atemorizado pensando, vendo a morte se aproximar. 

Creio que, na presença da morte, sentir só isso (o medo de morrer) seria egoísmo. Pois sempre há um outro envolvido. Quando a morte chega perto de nós, ela chega em alguém, quem está próximo. Chega em quem amamos. 

Reconhecemos aquela folha caída como um alguém. Uma pessoa. Quem eu amo. A folha não cai só, tem a força de levar com ela um pedaço das outras folhas que ficam. Todas são do mesmo lugar.

Com a folha cai também a lágrima, a expressão de uma ausência agora sentida fortemente na certeza de que ali não haverá aquela pessoa para ocupar. Deixa um vazio, o vazio da saudade.

A saudade dói porque uma relação foi interrompida e, no caso da morte, de forma abrupta. Sem aviso. O desespero então toma conta. O rompimento de uma relação tem em nós os efeitos do desconcerto da ordem. Instaura-se uma desarmonia no mundo. Falta algo. Falta alguém no nosso mundo.

As profundezas do homem são inundadas pelas lágrimas da saudade e encontram repouso desta agitação perante a lembrança de quem ocupava antes aquele vazio.

Neste tempo no qual estamos o fenômeno da morte faz-se, infelizmente, mais presente de todos os modos. Seja ela real ou através do medo que causa a sua chegada.

Todo dia, tantas mortes… todo dia. 


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De um ano para cá você e eu perdemos algum familiar e/ou amigo. O momento atual torna-se mais desolador, potencializando todo o medo da morte, porque somos impedidos da última despedida. Não temos a oportunidade de gravar na mente e no coração a última lembrança, como uma tentativa de deixar ali um pedacinho de alguém que se foi.

Somos acometidos pela sensação estranha e terrível que é a seguinte: alguém estava aqui e agora simplesmente não está mais. De hora para a outro esse alguém deixou de existir. Não tem despedida.

A morte cumpriu seu papel de ladrão, veio inesperadamente e nos roubou quem amamos. 

Se por um lado a morte assusta e dá medo, por outro ela também pode ser causa de coragem e dar até impulso. Diante da certeza da morte somos encorajados a viver melhor, seja por nós mesmos, seja por uma espécie de homenagem a quem se foi. 

Um impulso dentro de nós é criado e, inevitavelmente, somos questionados: como estou vivendo? Já se questionou como estás vivendo? Eu sei que a resposta pode assustar até mais do que a própria morte, porque essa resposta pode revelar uma mediocridade. 

E as folhas caem…

A forma medíocre como estou vivendo estampa na minha cara que eu não estou preparado, que a minha casa não está reforçada se porventura o ladrão chegar durante a noite.

Sim, é duro de admitir isso, mas é preciso. O que estamos fazendo da nossa vida?

Que fique as boas lembranças das pessoas que, infelizmente, se foram, mas que fique também essa coragem de sermos melhores. 

A morte vai chegar e quando chegar vai tocar tudo aquilo que amamos.

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