O absurdo de Sísifo

“Mas, mesmo frente ao absurdo da jornada de Sísifo, essa repetição sem fim de mandos e desmandos, os “deuses” não deveriam esquecer que o próximo passo é a revolta. Uma revolta em prol da liberdade do ser humano esmagado pela tirania.”

Por Tobias Goulão

Sísifo, personagem da mitologia, foi condenado a carregar uma enorme pedra morro acima por toda a eternidade. Era um castigo dado pelos deuses olímpicos por ele se considerar muito astuto e também mostrar que independente da astúcia ele era um mortal sob o domínio dos deuses. Trágico destino para aquele personagem que repete, ad infinitum, uma ordem injusta daquelas entidades habitantes do Olimpo.

A história nos leva a pensar nas situações absurdas que são realizadas na vida humana, visão essa provavelmente consagrada no famoso ensaio do franco-argelino Albert Camus, O Mito de Sísifo. O raciocínio do absurdo proposto é passível de críticas dentro da discussão filosófica, mas aqui tomaremos como partida para pensar na condição vivida pelo homem contemporâneo. Vejamos como nossa perspectiva é a de falta de consciência do que nos é apresentado simplesmente com base no mando dos olímpicos, e com isso perdemos nossa liberdade e vivemos em meio ao absurdo da eterna repetição (inconsciente).

O cotidiano normal das pessoas é feito de rotina, o que poderia evocar o absurdo e toda a repetição mecânica de atividades necessárias para a manutenção do meio que vivemos e de nossa vida pessoal. Agimos agora previdentemente para termos a possibilidade de um agir mais livre depois. Mas parece que não há muito espaço hoje para a previdência pessoal, pois o porvir parece que não está mais nas mãos da Providência, mas sim entregue nas mãos dos novos senhores do Olimpo que desejam ter poder suficiente sobre os homens como outrora foi atribuído aos antigos deuses. Levanto essa observação porque não basta a astúcia de ninguém, pois hoje a capacidade de decisão por si foi nublada e decisões simples como ir e vir, trabalhar ou não, foram retiradas de maneira absurda das pessoas e entregues à vigilância perpétua das Fúrias que estão a postos para aplicar a sentença em quem ousa se colocar contra a estrutura olímpica imposta.

Talvez a grande diferença do homem contemporâneo para Sísifo é a consciência. Saber o que está acontecendo, mas não por vias das ilusões propostas pelos encantos das sereias cuja missão é desviar a atenção, mas sim entender o que se perde na entrega da liberdade pessoal para o domínio das novas entidades. Não entendemos o mecanismo de controle que fica sobre nós, parece que estamos iludidos pelo canto hipnótico vindo do espelho d’água no qual muitos também ficam a adorar supostas virtudes pessoais obtidas em simplesmente repetir o que mandam. Levamos, dia a dia, a pedra para o alto do monte, seguindo ordens absurdas, seguindo mandos e desmandos. Hoje podemos, amanhã não mais, lodo depois poderemos novamente, e assim os olímpicos dominam nossa vida.

Camus termina seu ensaio dizendo que era preciso imaginar Sísifo feliz. Talvez seja isso que aconteceu. Depois de expropriar-nos da consciência do que acontece, ou mesmo em ter aceito o absurdo como conditio sine qua non, tudo ficou entregue e eles resolvem por nós o que é melhor para todos, mesmo que suas decisões não sejam pautadas em um bem geral. E por que saliento isso? Bom, é só lembrarmos que os deuses olímpicos não representavam o ápice das virtudes, mas sim forças naturais e sentimentos. Suas ações eram pautadas pela paixão, pelo prazer, por vingança ou luxúria. Longe da concepção de Deus trazida pelo cristianismo, na qual O Ser Divino é o Sumo Bem, esses antigos deuses eram “fúteis e cruéis, e maltratavam a humanidade”.


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Parece que em nenhum momento de nossa jornada ao topo da montanha o fizemos com consciência do absurdo. Salvo poucos que mencionam isso e tem a ousadia de exercer sua liberdade, a imensa maioria das almas estão encantadas, pelo canto que vem das águas ou pela própria imagem pseudo-virtuosa refletida, ou então aterrorizadas pelas feras que espalham o terror no mundo, tal como uma Quimera. Inclusive é o normal de acontecer, pois poucos são aqueles que conseguem fazer um entendimento consciente de seu estado de imediato, para muitos a perda da liberdade e a queda no absurdo é como um processo de cozinhar sapos em água morna: quando ele vê a água fervendo já é tarde demais.

Mais uma coisa interessante que há na escrita de Albert Camus é a trajetória de seus temas. Depois do absurdo vem a revolta (tema explorado no ensaio O Homem Revoltado). Depois de tanto ver o homem ser esmagado por várias tiranias, há uma necessidade de lutar por ele, aos princípios de permitir não que sejam mantidas as condições de abuso frente ao ser humano, mas que existe uma condição mínima de entendimento de quem ele é e que deve ser resguardado.

As experiências feitas contra o homem, as tentativas olímpicas de “salvá-los” não permanecem intactas, mas formas gradativas de se enxergar uma importante condição que esquecemos: não são mitos ou deuses ou lendas que estão agindo, a situação é mais simples, são homens como todos os que estão sob seu julgo. O que estamos vendo é simplesmente “os homens contra o homem”, para tomar o título de Gabriel Marcel emprestado. Todas essas estruturas que parecem extraordinárias, divinas e transcendentes não passam da usurpação de virtudes pelos supostos deuses olímpicos contemporâneos.

Reclamam para si todas as mais belas qualidades, mas a qualquer um com boa intenção de entender o que se passa, percebe-se que são justamente vícios que os sustentam. São, como os deuses antigos, feridos na carne pelas três libidos: o desejo de posse, a luxúria e afirmação de si. Pense por si nas figuras que a todo momento pedem oferendas dos homens. Estão todos prostrados, encantados e amedrontados.

Mas, mesmo frente ao absurdo da jornada de Sísifo, essa repetição sem fim de mandos e desmandos, os deuses não deveriam esquecer que o próximo passo é a revolta. Uma revolta em prol da liberdade do ser humano esmagado pela tirania. E Camus ressalta bem que toda a revolta é uma revolta metafísica, surge para tirar os deuses de seus montes.

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