Se prestássemos mais atenção em Machado de Assis…

“Poderíamos dizer que o Brasil está entregue nas mãos de uma nova geração de Bacamartes, Porfírios, Joãos de Pina e da regência de uma câmara tremendamente incompetente, mas aproveitadora, que visão apenas manter suas cadeiras de forma estática. Todos assistem bestializados a sátira machadiana que acontece.”

Por Tobias Goulão

Essa nota é para tratar da releitura, depois de alguns anos e sob novas circunstâncias muito específicas, do conto O alienista de Joaquim Maria Machado de Assis. A leitura de um grande trabalho sempre chama atenção para muitas coisas, como a estrutura e instauração de uma ação ideológica, o julgo iluminista e a alegoria irônica sobre a Revolução Francesa. Mas aqui gostaria de registrar mais uma daquelas percepções dignas de um verdadeiro bruxo, neste caso o do Cosme Velho, ao conseguir generalizar de forma satiricamente engraçada de certo comportamento de nossos conterrâneos e ainda é comum o suficiente para ser vista todos os dias (mesmo com mais de um século de distância da escrita do conto para nossa era).

O ponto interessante para uma leitura atual da história retirada das fictícias crônicas da vila de Itaguaí é a maneira como está retratado o estado de espírito das pessoas frente ao ataque contra sua própria condição de pessoa, um ataque contra o povo da vila. Estes não têm meios de se defender dos burocratas e acabam sendo esmagados por eles. Tudo em virtude de uma autoridade que chega do exterior e passa determinar os rumos da vida no lugar.

Vejamos que é após o retorno de Simão Bacamarte da Europa que toda a situação irá tomar um novo rumo. É a chegada de uma autoridade científica até então desconhecida, um alienista que procura entender a mente humana, curar aqueles que estão alienados de sua natureza. Sob essa condição inicial que trabalhará o Bacamarte, e após a apresentação daquilo que pretende fazer, trazer a cura aos loucos de Itaguaí, recebe dos burocratas da câmara municipal o aval para agir sem questionamentos acerca de sua postura. Esta situação faz daquela vila nada mais nada menos que um grande laboratório para testar e estudar suas teorias psicológicas. Tudo ficou sob seu julgo, pois era o responsável por deixar livre ou agasalhar as pessoas na famosa e terrível Casa Verde (o que poderia ser entendido como o hospício do alienista).

Mesmo com as reclamações pelas “internações” indevidas e sem cabimento, a autoridade local, a câmara municipal, fica sem ação frente a essa autoridade externa que chega imbuída de um saber sedutor, arcano e indecifrável ao pobres não-iniciados – e, exatamente por isso, ninguém ousa desafiar o “novo Hipócrates”, sendo possível para o alienista fazer o que quiser na pobre vila. A situação é absurda porque qualquer um a qualquer momento pode ser preso/agasalhado na Casa Verde em nome da ciência.

O alienista, questionado por uma turba enfurecida e desejosa de sua cabeça, disse que só aos seus mestres e a Deus deveria explicações. A ninguém mais. E, entende-se pela cena, justamente porque a ciência é coisa séria demais para ter que perder tempo se justificando a uma horda bárbara que mal é alfabetizada. Ele, pelo que sabe e pelo que se sente no direito de realizar, não deve explicações profundas. Só diz a quê e em nome de quê veio e está suficiente. Faz e os moradores, internados ou libertos (mesmo que provisoriamente), não devem ter que pensar sobre isso, e menos ainda querer decidir o que pode ou não ser feito, quem deve ou não ser libertado.

A insatisfação da população em uma situação como essa é aproveitada pelo oportunista mais esperto. Isso poderá gerar conflitos entre aproveitadores, que fica visível nas idas e vindas do poder passando pelas mãos de vários na vila, todos subindo por dizerem ser contrários aos mandos e desmandos da Casa Verde. O mais interessante é que todos ao alcançarem o poder fazem logo as pazes com o alienista e também passarão a validar as suas atitudes. Vejam só que engraçado: usam da insatisfação para alcançar o governo, mas logo que assume o cargo já busca a fazer reinar a paz com o Bacamarte. Tudo isso, é claro, em nome da ciência, pois quem é um governante para ir contra os ensinamentos de tão douto homem? E com atitudes assim, as pessoas continuam a ser encarceradas por nada além do “diagnóstico” trazido pelos agentes do alienista que denunciam qualquer coisa como desvio de sanidade. Diagnóstico esse que, experimental de uma área que pouco se conhece e mal caminha entre os homens muito pouco ou quase nada diz acerca dos “desvios” daqueles que estão, supostamente, alienados de suas naturezas. Mas as autoridades não se importam, e aceitam sem mais questionamentos. É a ciência que justifica, tudo está certo (mesmo que os critérios sejam de caráter esotérico e impossível de serem conhecidos pelo povo).


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Em meio ao desenvolver de tudo temos mais uma significante realização. O próprio Simão Bacamarte revê seus critérios, vira sua teoria de cabeça para baixo, e quem era doente agora é são e vice-versa. Mais uma vez as autoridades não sabem muito bem como reagir, mas o fim é o mesmo. Entram em acordo e passam até mesmo a usar dessa situação: lançam os opositores internos contrários ao “progresso científico” diretamente nas mãos do alienista que não hesita em levá-los (como cobaias) para ajudar no avanço de seus estudos. E nisso a Casa Verde só vai ganhando mais inquilinos.

Ao fim da história, ironicamente, o problema estava no próprio alienista que se dá o mesmo tratamento e chega a perecer no cárcere utilizado para aterrorizar Itaguaí. Momento inusitado cujo significado é: todo seu esforço foi só uma experiência com a cidade; experiência essa que teria levado a cidade ao seu fim. O ponto final ser tragicômico mostra como o seria o final do mundo organizado pelo alienista. Ele criou um microcosmo, de forma similar ao que Albert Camus trata em O Homem Revoltado analisando as loucuras escritas pela mente doentia do Marquês de Sade. Esse espaço é onde um senhor absoluto possui todo o saber e decide o que é ou não certo em um ser humano.

E com isso chamo atenção nessa breve nota para o comportamento de um povo inerte, manuseável e fraco frente ao que lhe é imposto sob o véu da autoridade. De um lado ficou o alienista, com seus agentes vigilantes trazendo as informações necessárias para manter a Casa Verde cheia; do outro um povo que ficava o tempo todo sem saber qual seria a próxima ação que apareceria; no meio de tudo estavam os burocratas tirando o maior proveito possível. Um estado de terror, de medo constante que vimos se repetir várias vezes após o experimento francês do final do séc. XVIII durante o séc. XX e também já é uma realidade em nossos dias do séc. XXI. O terror como meio de controle, mas dessa vez não é só da pequena vila ou país, é uma realidade muito mais ampla.

Para ficarmos só no caso do nosso país, poderíamos dizer que o Brasil está entregue nas mãos de uma nova geração de Bacamartes, Porfírios, Joãos de Pina e da regência de uma câmara tremendamente incompetente, mas aproveitadora, que visão apenas manter suas cadeiras de forma estática. Todos assistem bestializados a sátira machadiana que acontece. Vigilância, terror implantado como forma de controle, reviravoltas dentro do poder que não fazem mais que aceitar o louco vindo de fora apontar a insanidade alheia divagando entre a uniformidade ideal e a individualidade extrema. Estão em uma brincadeira na qual o objeto é a condição humana, e ficam tratando todos como insignificantes ratos em um laboratório de experiência de controle social.

Ninguém presta a devida atenção, ou se ainda leem seus livros, não conseguem entender que ele fala da nossa terra, do nosso povo, do que parece ser uma condição inconsciente que é dividida por aqueles cuja pátria é a Terra Brasilis. O comportamento das pessoas daqui e a cegueira frente aos eventos importantes e as figuras absurdas que surgem exibindo o medalhão. Ele nos avisou.

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