A Beleza do Mal

Não é que exista, mas é que estamos acostumados a pôr “beleza” naquilo que é mal somente para justificar as nossas vontades descontroladas.

Por Danilo Barbosa

Pensei em iniciar pedindo desculpas pela estranheza do título, mas não farei. De fato, não deixa de ser estranho, mas também não deixa de estar envolto com a verdade e da verdade não pedimos desculpas, ao menos não deveríamos!

Sim, você tem o direito de questionar o meu uso de palavras, mas mais que isso, questione-se: realmente existe beleza no mal?

Da beleza que falo não é propriamente a beleza estética, aquela apetecível à visão que sossega o sentido quando nesta beleza repousa o olhar. Não é só, mas também. Recordo aqui a teoria platônica da beleza na qual se diz que a prerrogativa de ser a substância mais evidente e mais amável cabe somente à beleza. A beleza tem a prerrogativa de ser amável. Atente-se a isso.

É sobre amar a beleza, aquilo que é belo. Pois bem, você é capaz de amar algo que é ruim? É fácil, por exemplo, amar uma pessoa má? A resposta para essas duas perguntas é um expressivo não. O motivo de não ser fácil tal consecução deste ato é que, indiscutivelmente, a beleza está intrinsecamente ligada à noção de bem. São coisas que não se separam.

Você ama aquilo que é bom, ama aquela boa pessoa!


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Então não existe a beleza no mal… espere. Objetivamente não existe. Contudo, meu intuito é articular isso sobre uma perspectiva subjetiva, não propriamente a minha e nem a sua, mas a respeito de uma recorrência comum.

O que acontece não raras vezes é vincular a beleza àquele mal que se apresenta a mim e que eu desejo. O desejo em uma coisa, ou até mesmo numa pessoa, cria o espectro da beleza, gera um olhar apaixonado. Claro, aos alheios à situação é evidente a objetividade do mal, mas para quem vê de dentro, imerso naquela situação, é a coisa ou a pessoa melhor entre todas. É que esse desejo envolve não somente a subjetividade daquele que deseja, mas também uma outra coisa, um outro. É, pois, a partir do outro que tudo se desenvolve.

Um grande escritor francês descreveu essa dinâmica chamando-a de “falsa associação de ideias”. Eu, apaixonado, associo a ideia da beleza àquilo que eu quero. E o que eu quero nem sempre será o bem, justamente por incorrer na possibilidade de que eu esteja sendo enganado pelo meu querer.

Se sou capaz de fazer uma associação que não condiz com a realidade isso significa que estou sendo guiado pela minha imaginação e da imaginação se sabe que é “a louca da casa”. A imaginação torna-se sede de uma desordem que acaba sempre invertendo a posição de tudo e de todos.

O mal, e agora cito objetivamente, que está em todo esse processo é habituar o sujeito a acreditar somente nas aparências, ser guiado por ilusões e confiar em mentiras sublimes. E todos nós, todos mesmos, estamos sujeitos a isso. Porque essa falsa associação de ideia do belo ao mal está impregnada nas relações, nas propostas, na arte etc.

Ainda, se somos capazes de associar o belo ao mal, também somos capazes de desvincular o belo daquilo que é bom. Um exemplo alcançável: acaso você ouviu por aí um homem aos prantos pedindo desculpas justamente por ser homem? Absurdo, não?! Sim, absurdo pedir desculpas por uma verdade incontestável. É como se aquela verdade fosse má. A verdade nunca é má e, portanto, não há motivos para um espetaculoso pedido de desculpas.

De alguma maneira ou outra fazemos um pouco disso, quando somos guiados pela imaginação sem qualquer direção, colocando nosso querer em qualquer lugar.

Não é que exista, mas é que estamos acostumados a pôr “beleza” naquilo que é mal somente para justificar as nossas vontades descontroladas. 

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