A comunidade dos mortos

“O diálogo com as grandes pessoas que já viveram nessa Terra, se não é cultivado ao nível mais amplo, deve ser estimulado no nível pessoal. […] e com isso incorporar a cada uma de minhas ações originais -intelectuais, estéticas, técnicas ou políticas- tudo quanto em minha compreensão do passado tenha se mostrado valioso ou válido”.

Por Tobias Goulão

Muitos são os que hoje tremem frente aos assuntos ligados à morte. Vivem como se não fossem morrem, querem ludibriar o tempo e excluir a velhice de perto de si. Os velhos não só se vestem e falam como adolescentes, mas também pensam como ele. Estamos em um mundo que o diálogo sobre aquilo que passou está cada vez mais distante. Os mortos são lançados ao esquecimento e se vive a moda e suas metamorfoses diárias como se fosse o último suspiro para poder afirmar, a todo o instante, que não haverá morte. Triste ilusão.

Estamos cada vez mais distantes dessa nossa realidade, esquecendo de construir algo forte para o futuro, deixando de ser previdentes e, o pior, não fazemos a menor questão de pensar no efeito que pode ter qualquer ideia proposta hoje. Se algo é defendido hoje apenas por oportunidade de aparecer na mídia por miseráveis cinco minutos de fama, então ninguém se importa com o efeito disso para amanhã. Haverá outra causa.

Ao perceber que não há mais a menor reverência ao destino comum de todos, é claro que não se vê a menor referência aos que já morreram. Os mortos ou são deixados de lado após alguma cerimônia, ou então são transformados e sua figura passa a ser um mero reflexo de alguma ideia atual. A pessoa que viveu é excluída da comunidade, os mortos são lançados no limbo, e um arremedo do que eles foram surge para ser usado. Dialogar com eles, escutá-los, nunca. O homem moderno não precisa do passado, muito menos de pessoas arcaicas que nada poderiam oferecer para o avançado mundo contemporâneo.

O que temos é uma completa exclusão da comunidade dos mortos de nosso meio. Isso foi explorado por Olavo de Carvalho na segunda parte do seu livro “O Futuro do Pensamento Brasileiro: estudos sobre o nosso lugar no mundo”. No primeiro texto dessa segunda parte da obra, Olavo resume o tema que foi desenvolvido em sua conferência proferida em junho de 1997 na cidade de Paris. Ao tratar dos excluídos, resolveu então

“falar em nome do único grupo excluído que não exclui ninguém e no qual, com um pouco de paciência, cada um de nós há de ser incluído um dia. Refiro-me à comunidade dos mortos, dos homens das eras passadas, cujas vidas gostamos de vasculhar com todo o instrumental moderno da ciência e da bisbilhotice, mas aos quais jamais concedemos o direito de nos olhar e de dizer o que pensam de nós. Qual o filósofo moderno que, ao dar sua opinião sobre Platão, consente em perguntar a opinião de Platão a respeito dele? Qual o historiador que, ao mostrar-nos as fantásticas ilusões da ideologia medieval, consente em perguntar o que um inquisidor ou censor do Santo Ofício teria dito dos nossos modernos campos de extermínio e das nossas tecnologias de controle da opinião?” (p.68-69)

Nenhuma pesquisa história contemporânea trata os mortos como devem, não lhes dão voz, apartaram sua voz do nosso meio e usam seu corpo e suas obras apenas como material para justificativas de ideias contemporâneas. Sua personalidade, sua fala e a concepção de sua noção de Bem e Mal, Certo e Errado e o senso de valor das coisas foram excluídas. O que lembra como as artes usam do passado, porque ela é necessariamente matéria-prima para emoldurar ideias modernas, ou melhor dizendo e usando a fala de um diretor de cinema contemporâneo “a história é um celeiro a ser pilhado”.

É nesse meio que encontramos os mortos. Foram excluídos ao ponto de serem transformados em objetos que farão referência apenas ao espírito dos tempos. Todos os mortos são vistos e julgados, mas nunca podem nos julgar. Assim, como Olavo nos mostra mais adiante em seu livro, esses que foram pessoas – com posições e opiniões – tornam-se apenas objetos a serem dissecados pelos nossos contemporâneos. São peças de um passado extinto, item de museu, que não pode dizer mais nada a nós.


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Ocorre com isso uma perda de valores, de visão de universalidade, do bom e do valoroso, daquilo que está além das mazelas das paixões contemporâneas, mas se inscreve nas elevadas discussões humanas. Isso quer dizer que os mortos, como membros de um passado que já não pode ser interessante hoje, são representantes apenas de questões que não podem entrar em nosso diálogo a não ser pela ótica do anacronismo e da objetificação, sem nunca entender a perspectiva que aquelas pessoas carregavam ao entender o mundo e as explicações, principalmente, sobre as ações humanas. Negamos a exposição das opiniões dos mortos, ou seja, de olhar a sua obram, história e vida e retirar dali uma compreensão que seja sobre a ordenação metafísica à ética geral sobre a pessoa humana. O que acontece hoje é só uma exibição da autoimagem do estudioso que fica refletida no nome do autor estudado refletindo um dos elementos do Zeitgeist. Quem dera tivéssemos a atitude de um Miguel de Unamuno que, ao lembrar-se dos mortos nas referências que fazia em suas obras, estava dando a eles a possibilidade de fazerem sua presença “viva” no olhar do leitor.

A perda dos mortos de nosso meio reflete o abandono de buscar o que é universal, ou seja, aquilo que pode perdurar e estar presente independente da época. O diálogo com o passado, com os grandes nomes dessas épocas longínquas, nos obriga a entender o valor das suas ideias em si, a saber, compará-las com as modas de nossos dias e, na maioria dos casos, ter que admitir que uma pessoa milenar e completamente distante de nossos avanços é mais sábia, possui uma capacidade que não há hoje para lidar com os conflitos humanos e transcendentais.

Quando mantemos sempre um diálogo com o passado, quando as vozes de pessoas valorosas e extremamente capazes estão sempre ecoando em nosso meio, a assimilação dos valores e ideias universais é constante. Ficamos em um trabalho atual de balancear nossos atos e nossas ideias pelo que já foi expresso naquele campo, pelo que já foi exposto e é possível entender as perspectivas e seus resultados. Colocando tudo não na régua das paixões imediatas, mas na prova do tempo – e com uma noção de estar em busca de valores transcendentes ao tempo e espaço, em valores universais[1], vemos um importante caminho – e com isso nos inserimos em um diálogo que vai além do momento. E isso é importante, porque irá abarcar toda a constituição humana: seu passado dialogando com o presente e criando projeções para o futuro. A exclusão da atenção para qualquer um desses pontos é um problema para a nossa formação plena. Além do mais, é um abandono do provincianismo, ou seja, criando uma visão que nos coloca em referência ao macro mesmo que lidando com questões pessoais ou locais. Nesse diálogo aberto a toda humanidade (presente fisicamente ou não) todos estarão em possibilidade de mostrar o resultado de suas vidas.

Assim, pela quantidade de experiência acumuladas, teremos bons juízes e uma hierarquia de valores, um conjunto de opiniões de pessoas que nos auxiliarão na busca cotidiana de entender as questões que estão instaladas na vida humana, auxiliarão no crescimento de nossa compreensão do que foi construído até agora, nas nossas questões atuais e nas projeções para o que há de vir. Aqui está o ponto: é importante escutar Sócrates, Marco Aurélio, Santo Anselmo e Mário Ferreira dos Santos. Eles são mentes muito mais capazes que a esmagadora maioria dos intelectuais que estão na moda, ditando normas do dia a partir de paixões sem nenhuma reflexão sobre o quão perigosos poderão ser seus resultados. Pois aqueles que seguem as paixões do dia amanhã estarão seguindo outras, e normalmente elas seguirão seu próprio umbigo. A maioria dos nossos intelectuais contemporâneos são como as estrelas cadentes que não podem ser como as constelações, que seguras no céu nos dão a direção para muitos caminhos seguros.

Se essa situação de diálogo com os mortos e com os altos valores humanos não é favorecida em nosso meio, que prefere consultar a opinião de Cortella à de Santo Agostinho, resta o esforço hercúleo e solitário de cara um procurar as opiniões dos sábios de outrora para trazê-los ao nosso meio. Devemos nos lembrar do que Nicolás Gómez Dávila ensina: “Hoje o indivíduo deve reconstruir gradualmente dentro de si o universo civilizado que está desaparecendo ao seu redor”. E, a partir disso, olhar tudo o que fazemos buscando o julgamento de quem tem realmente algo a oferecer, não a qualquer um. Como o conjunto social em que vivemos coloca os mortos distantes, impede que suas vozes alcancem uma boa quantidade de pessoas, tenhamos nós mesmos a capacidade de olhar para a nossa vida e permitir que sejamos interrogados por aqueles que são maiores que nós.

O diálogo com as grandes pessoas que já viveram nessa Terra, se não é cultivado ao nível mais amplo, deve ser estimulado no nível pessoal. Colocar a nossa pessoa em sintonia com os melhores que já estiveram aqui na Terra é um ótimo exercício para eliminar o orgulho, para fortalecer nossa percepção do que é realmente bom e mau, do que é perene e do que é meramente contingente.

Dentro de cada condição pessoal, separe um número de pessoas que poderão te ajudar nas aspirações que almeja na projeção que faz de si e, a partir dessa seleção, comece a estabelecer esse diálogo. Tente juntar pessoas que vão colaborar para o seu crescimento, para entender e valorar seus atos. Essas pessoas serão os sábios com os quais você travará um diálogo constante sobre sua vida. Elas serão o parâmetro de opinião e juízo sobre suas atitudes. Veja o quanto isso é importante: você vai ter, por exemplo, Aristóteles te julgando sobre sua falta de temperança ou pela imprecisão de seu julgamento sobre a atitude dos demais. É bom conhecer bem os membros dessa “assembleia”, porque conhecendo a forma como eles pensavam você conseguirá ter a capacidade de pensar “como eu seria visto por tal pessoa após esse ato?”.

Esse exercício nos aproxima das ideias e dos valores que aspiramos nos faz conhecer melhor nossos juízes e nos insere a todo o momento em um diálogo constante com valores que foram deixados por muitos, que foram soterrados pela avalanche de modas que nunca cessa.

Com essa conexão ao passado tendo o futuro em perspectiva, estaremos também na formação daquilo que Pedro Laín Entralgo chamou de “vontade de plenitude histórica”, o que ele define da seguinte forma: “Chamo, portanto, «vontade de plenitude histórica» o propósito de incorporar a cada uma de minhas ações originais -intelectuais, estéticas, técnicas ou políticas- tudo quanto em minha compreensão do passado tenha se mostrado valioso ou válido”.

Imediatamente já somos obrigados a fazer uma seleção qualitativa. Pense em quem você colocaria para te julgar e aconselhar, em quem teria bons critérios para isso. Leandro Karnal ou Julián Marías? Dan Brown ou Dostoiévski? Marilena Chauí ou Edith Stein? Pois é, uma seleção inicial para aqueles que querem entrar em diálogo com a humanidade mostra rapidamente que os atuais “guias” contemporâneos pouco ou nada possuem para oferecer se colocados frente a outros que, o tempo todo em suas vidas, foram testemunhos da busca pelas coisas do alto. Em nossos dias o que mais encontramos são cegos guiando outros cegos.

[1] Aos céticos sobre a possibilidade de tal empreitada e que não querem realizar tal exercício, deixo a sugestão do livro “A abolição do homem” de C. S. Lewis e mais ainda, para ver o peso de tamanha responsabilidade, peço encarecidamente a leitura de “Invasão Vertical dos Bárbaros” do nosso grandioso Mário Ferreira dos Santos. Após isso, e seguindo essa dinâmica de deixar que a voz deles possa ecoar em nosso meio, poderá ter uma experiência de real visão dessa prerrogativa de “escutar os mortos”. Aos mais atentos às questões filosóficas, leiam, também do Mário Ferreira dos Santos, “Origem dos grandes erros filosóficos”.

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