Fundadores de Jaraguá: quem foi Francisco Soares de Bulhões

Benção à bandeira de Francisco Soares de Bulhões. Pintura: Maria Helena Romanchelli

“Com esta expedição de Francisco Soares de Bulhões (que morava em Jaraguá) tem-se a primeira bandeira que saiu, por ordem do rei, do Estado de Goiás.

Por Maria Helena

Francisco Soares de Bulhões foi procurado pelo então Governador da Província de Goyás, Antônio Carlos Furtado de Mendonça, no Arraial do Córrego do Jaraguá, para juntamente com o experiente bandeirante companheiro do Anhanguera que ali também morava, Urbano do Couto Menezes, formassem uma bandeira e fossem a procura de mais ouro, pois as minas já estavam escasseando. Francisco Bulhões topou, mas Urbano já se achava doente, como de fato veio a falecer no ano seguinte (enterrado dentro da igreja Nossa Senhora da Penha de Jaraguá-GO) em 1772. Sem forças para aquela selvagem aventura, limitou-se a contribuir com um mapa, que ficou conhecido mundialmente pela riqueza de detalhes (como “Roteiro de Urbano do Couto”, já apresentado neste livro, onde ensinava os caminhos a seguirem, dando nomes aos acidentes geográficos que encontrassem. Até hoje muitos desses nomes são conservados).

Urbano, deixou também muitos relatos orais aos nossos antepassados, alguns deles passados de pai para filho. Tinha um engenho no município (parece ser para o lado da Estiva, a precariedade dos arquivos inviabilizou termos esta certeza).

Então foi organizada a grande comitiva, saíram seguindo a certeira indicação de Urbano, acharam muito ouro, mas Francisco percebeu que aquelas minas estavam situadas no terreno reservado da coroa (sendo rei na época D. José substituto de D. João V) chateado com a situação, mas fiel vassalo que era, voltou sem nenhum ouro. Esta empreitada foi um grande prejuízo para ele. Este prejuízo foi relatado ao Rei que não o deixou desamparado, e então o nomeou Capitão da cavalaria do Córrego do Jaraguá. Veja a publicação da Patente:

“José de Almeida Vasconcelos Soveiral e Carvalho, do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima, governador e Capitão General da Província de Goyas e Minas, de sua repartição, etc.

Faço sobre aos que desta carta patente virem que por se achar vago o posto de Capitão da Companhia do Córrego do Jaraguá, pertencente ao regimento Auxiliar de cavalaria de que sou Coronel, atendendo a probidade e inteligência de Francisco Soares de Bulhões. Hei por bem na forma do capítulo dezenove de meu Regimento, fazer mercê de nomear e prover ao dito Francisco Soares de Bulhões no posto de Capitão de Cavalaria Auxiliar do Córrego do Jaraguá por passagem de João Pinto Barbosa Pimentel, cuja companhia consta de 40 soldados e seus respectivos oficiais. Com o dito posto, não haverá soldo algum da Real Fazenda, mas gozará de todas as honras e privilégios, franquezas e liberdades, que terão de lhe pertencer. Pelo que, ordeno aos oficiais superiores do regimento como tal o honrem e estimem e deixem exercer o referido posto e aos oficiais e soldados seus subordinados lhe obedeçam e cumpram suas ordens por escripto e de palavras em tudo que for conforme o real serviço, e ele será obrigado a requerer a Sua Majestade a confirmação desta carta patente pelo seu Conselho Ultramarinho, e o Dr. Provedor lhe mandará sentar praça na referida Companhia na forma das Reais Ordens. E por firmeza de tudo mandei passar esta carta patente por mim assinada e selada com o sello de minhas armas e registrada na secretaria deste governo e vedoria. Dada nesta Vila Boa de Goyas aos 4 de janeiro do ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1774 – O Secretário Luiz Peleja de Souto Maior a fez escrever. José de Almeida de Vasconcellos de Soveral e Carvalho.”


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 Nesta mesma companhia já estava seu irmão Inácio Soares de Bulhões, desde 1763, como furriel. Esta carta patente, registrada na folha 43 do registro de patentes, traz a seguinte anotação à margem: “‘Faleceu e foi promovido no dito posto, Luiz Alves de Amorim para Jaraguá”. Isto ocorreu de março a maio de 1775, pois no mesmo livro á pagina 73 insere a nomeação do Capitão Amorim. “Hei por bem, na forma do capítulo 18 de meu regimento, fazer mercê ao dito Luiz Alves de Amorim da passagem para a companhia do Arraial do Córrego de Jaraguá por ter falecido o capitão dela Francisco Soares de Bulhões”. Em 20-05-1775, o último documento recebido por Bulhões, foi uma carta onde o Governador manda que prenda todos os paulistas que entrarem na região após 1773, decerto retrucou apontando a insatisfação popular, o Governador torna a insistir a 03-03-1775. Ora, então veio a falecer entre 03-03-1775 a 20-05-1775 e certamente enterrado com honras na Igreja Nossa Senhora da Penha de Jaraguá-GO, como era o costume.

      Francisco era casado com Maria Cerqueira de Assunção, a mãe do Marechal Joaquim Xavier Curado. Foi um grande incentivador da escolha do enteado e deve ter também usado de seu prestígio junto ao governador para facilitar o início, sempre tão difícil, de sua brilhante carreira. Seu único filho, Inácio Soares de Bulhões, foi casado com Maria Rosa de Brito, filha do sargento mor Brás Seixo de Brito e Ana Maria Joaquina e não deixou descendentes conforme seu inventário.

OBS. Na partilha de terrenos auríferos, ao rei se reservava à quinta-parte e estas escolhidas no melhor lugar onde a pinta de ouro era mais rica. Esta pinta podia ser minerada por administração, por conta da fazenda real, mas em geral vendida em praça intitulando-se superintendente das terras minerais. Desde 1725, quando foi descoberto diamantes em Minas, o governo não sabia como controlar os impostos então criou leis tão severas que cabeças rolavam se não fossem cumpridas, estabelecendo serem reservadas ao rei todas terras diamantíferas. Esta região dos Pilões da Província de Goiás esteve fechada sob forte guarda até 1751 quando o rei mandou Brant explorá-la e não achou sequer uma pedra, assim sendo suavizo a vigilância, mas continuava a ser reserva de ouro para S. Majestade e durou até 1801.

Com esta expedição de Francisco Soares de Bulhões (que morava em Jaraguá) tem-se a primeira bandeira que saiu, por ordem do rei, do Estado de Goiás.

Com estes feito, Francisco Soares de Bulhões pode sim ser chamado de um dos heróis da cidade de Jaraguá.

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