EDUCAÇÃO PÓS-COVID

“E acredito ter sido essa a grande lição da pandemia: as tecnologias não deve ser o fim do debate acadêmico, mas o meio.”

Por Carlos Neiva

As questões dos desafios para o ensino, da reforma escolar e do combate à evasão escolar são pautas debatidas no meio acadêmico há anos e anos. Entretanto, não só esse debate parece não ter surtido um efeito satisfatório (tornando-se mera indústria de publicações em periódicos e em desfiles de currículos), como agora se encontra em um novo cenário, totalmente menos favorável, que é o das aulas remotas e da pandemia mundial da Covid-19.

A EAD vinha se tornando cada vez mais crescente no Brasil. Ela tinha lá suas vantagens e desvantagens e, como disse a coordenadora do núcleo EAD de uma renomada instituição de São Paulo, ela não “roubava” alunos das aulas presenciais, pois focava em alunos que não tinham condições de ter essas aulas face a face com o professor: alunos que moravam muito longe da instituição, alunos que dispunham de uma agenda diferente, ou ainda que estavam constrangidos com o cenário de uma sala de aula lotada de colegas.

Independentemente dos pontos positivos e negativos da EAD, que merecem um outro texto, o fato é que existem alunos EAD e alunos presenciais. Com esse cenário pandêmico, entretanto, agora todos esses alunos estão sob a tutela da educação remota, é aqui que o problema se agrava.

Não é de hoje que a geração dos professores se vê tecnologicamente atrasada em relação aos seus alunos. Eu tive um professor com doutorado na França que lia Karl Marx em alemão, mas não sabia configurar o zoom do datashow. Essa diferença de domínio tecnológico gerada pelo constante avanço científico coloca os professores nas condições de quem têm acesso ao conhecimento, mas dificuldades com as ferramentas, e, por isso, a necessidade de todas aquelas aulas, simpósios e artigos sobre as novas tecnologias da educação. Já os alunos, estes são nativos digitais; sabem manusear a tecnologia atual e estão se atualizando junto a ela. Mesmo assim, eles não têm o conhecimento que o professor, com ampla formação, tem, mas conseguem acessá-lo com seus modernos smartphones; ainda que de forma meio torpe, mas útil.

Esse problema coloca professores contra alunos e vice-versa, e também faz com que os alunos tenham pouca abertura para a escola e os estudos. Muitos criticam a escola em suas redes sociais, dizendo que não aprenderão nada realmente útil para suas vidas. Notem bem, o quesito é a utilidade – demanda da era tecnológica, e não da humanidade como um todo.

Esse cenário educativo, combinado à pandemia, gera um bando de professores tímidos e sem jeito com os computadores, uma coordenação confusa e burocrática exigindo centenas de relatórios, e estudantes desinteressados que apenas “batem ponto” com suas câmeras desligadas e seu áudio “mutado”. Não vamos nem mencionar o índice de colas e plágios nas avaliações.

 O foco do problema aqui é que os meios burocráticos transformam a educação e, em especial, o ensino superior, em uma indústria de diplomas, enquanto os alunos com o conhecimento reduzido a um “Ok, Google…” à distância não sabem como gerir tanta informação.


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Qual é o papel dos educadores? Seria ensinar os alunos a usarem seus tablets? Conferir um diploma para quem paga as mensalidades? Criar uma nova pecinha para o mercado de trabalho? Ou seria formar integralmente uma pessoa, com todas suas aptidões e capacidades? Talvez os educadores tenham uma ou outra visão da educação, e, por essa razão, há tanto debate nas academias. No entanto, eu tenho para mim que o foco é como nessa última questão: uma educação real acontece apenas quando se forma o indivíduo como um todo, integralmente, em todas as suas dimensões humanas.

Essa educação, sobretudo nos primeiros anos da formação, faz-se extremamente difícil no ambiente remoto, mas a dificuldade que configura o atual cenário revela uma falha na educação antes da pandemia: nós nos perdemos pensando em como usar as “TIC’s”, mas esquecemos que o mais importante é ensinar os alunos a como lidar com elas. Hoje, o aluno está só, e o professor está além da tela, socialmente distanciado, enviando atividades e mais atividades para garantir que o aluno fique estudando. Mas nossos alunos não têm autonomia de estudos.

Os jovens acreditam que o local de estudo é na escola, então se dedicam apenas às aulas (com bastantes distrações, inclusive). Após chegarem em casa, deixam os exercícios para o último momento, e a maioria apenas copia de algum colega apenas para ganhar o tão desejado “visto”. Não há um hábito de estudo, não há uma disciplina de estudos. Os alunos, de uma forma geral, não sabem reservar algumas horas do dia para estarem sentados à mesa estudando (a maioria nem tem um local adequado para isso), lendo o livro didático, repassando o que foi ensinado, dando uma olhada no tema da próxima aula, fazendo exercícios complementares, certificando-se de que aprenderam. Nossos alunos não foram ensinados a estudar por conta própria, e agora, com a possibilidade de desligar a câmera, os que não foram ensinados a usar a liberdade abusam dela.

É claro que muitas atitudes dos alunos são problemas de falta de maturidade. De fato, não se pode esperar que jovens cheios de energia e conflitos internos próprios da idade possam entender o real valor da vida intelectual; mas os professores devem pensar em formas de criar essa autonomia de estudos em suas turmas. E acredito ter sido esta a grande lição da pandemia: as tecnologias não devem ser o fim do debate acadêmico, mas o meio, pois os alunos são o real objetivo do processo educativo, e esses alunos não formaram uma autonomia de estudos, são eternamente dependentes da vigilância punitiva (em poucos casos, incentivadora, mas no fim dá no mesmo) do professor e nunca são responsáveis pela própria formação e educação.

Há, enfim, muitos desafios para os professores – essa classe tão sem prestígio e incentivo –, mas esses profissionais só conseguirão algo de fato efetivo quando trabalharem, não como inimigos dos alunos, em uma relação opressor-oprimido, mas criando nos alunos a mentalidade de que eles devem ter uma autonomia de estudos, e que estudar não é só ver aulas ou resumos da matéria no YouTube, mas reforçar constantemente o que foi ensinado e se preparar para o que virá; tudo isso por meio de muita leitura. Esse resultado só será possível se o aluno se dedicar a estudar sozinho, no contraturno. Cada aula dada deve ser estudada em casa, mas alguém deve ensiná-lo a fazer isso.

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