A ESCRAVIDÃO DO LEITE CONDENSADO

“A escravidão sob o jugo da manipulação da informação é real, grande e perigosa. Somos influídos por notáveis manchetes e, como um cachorro correndo atrás de um graveto, tomamos partido de uma situação que, dez minutos antes, era desconhecida.”

Por Danilo Barbosa

Nos últimos dias ganhou as redes sociais uma reportagem feita por um site de notícias que, posteriormente, ganhou as manchetes dos grandes jornais. Essa referida exposição trata-se do montante utilizado, em 2020, para a compra de leite condensado, gasto pelo governo federal. De antemão, ressalto que este texto de hoje não tem intenção de defender qualquer político, tampouco o desejo de proferir acusações, apenas comentar alguns aspectos.

É um valor exorbitante se considerar um produto trivial. Alguns milhões de reais gastos com um alimento não essencial realmente assusta. Não quero aqui, como dito, defender ninguém, mas esses gastos estão disponíveis em uma página oficial do governo federal/ministério da economia – está lá, quem tiver interesse pode pesquisar. Não foi nenhuma grande descoberta.

Uma manchete e inúmeras republicações… pronto, o frenesi nas redes sociais estava montado. Todos devem ter visto algum post sobre isso, ou até mesmo compartilhado algo a respeito, seja defendendo ou acusando. Houve, em poucas horas, uma construção dos partidários do leite condensado versus intolerantes à lactose presidencial – perdão, não resisti ao trocadilho.

É nessa polarização que desejo ater-me. Passa desapercebido aos olhos de muitos, mas creio que não ao seu, a facilidade como a grande massa do mundo digital é influenciada. Sim, sei que não apenas os que estão nas redes sociais – a televisão também influencia bastante, sobretudo sob o escudo do “jornalismo sério, imparcial e de fontes checadas”. Mais da metade da população do Brasil possui acesso à internet e basta algumas horas para a maioria dessa fatia estar falando do mesmo assunto, é assustador o alcance.

Imagine se algum veículo de comunicação “sério” tenha a intenção de engabelar aqueles que que terão acesso ao material produzido. Só imagine quantas pessoas enganadas, quantos vestirão a couraça da verdade alcançada por um post na internet e então todos debaterão em cada esquina com uma autoridade adquirida através de um like sobre qualquer assunto ou comentarão em postagens gigantescas propelindo suas opiniões embasadas na mais bela assinatura de um jornalista que tem suas “fontes verificadas”. Só imagine! O impacto é gigantesco.

Meu afilhado de cinco anos de idade, me chamou para brincar com o cachorro e disse “vamos, padrinho, atirar um pedaço de pau para o cachorro pegar”. Para além da inocência imaginativa das crianças essa frase cai muito bem naquilo que quero salientar. Aliás, é a metáfora perfeita. Alguém joga um graveto e o animal vai correndo pegá-lo. Se ofendo alguém não faço de maneira particular, mas não estamos imunes de correr o risco da falta de liberdade em irmos prontamente em busca do graveto jogado pela chamada “grande mídia”. Sim, de algum modo, somos ou fomos escravos das notícias que embelezam nossas casas e tem a gentiliza de um “boa noite” ao despedir depois de lançadas. Somos facilmente levados.

Não existe em vigor um regime escravocrata, social e politicamente falando, mas por representação existem inúmeros tipos válidos de escravidão. A escravidão sob o jugo da manipulação da informação é real, grande e perigosa. Somos influídos por notáveis manchetes e, como um cachorro correndo atrás de um graveto, tomamos partido de uma situação que, dez minutos antes, era desconhecida. A escravidão é útil. Claro, a utilidade fixa-se do lado de quem escraviza. E para quem somos úteis? Para quem deseja sugestionar uma indignação seletiva e usar os depositários desta indignação como massa de manobra. Não é uma denúncia, é uma constatação da dinâmica da história que se atualiza no nosso cotidiano.

Disse Hegel[1] sobre a escravidão que o senhor é a autoconsciência do escravo, e o escravo é o instrumento que elabora os objetos, a fim de que o senhor os usufrua […]. Não adentrando nos caminhos obscuros da filosofia hegeliana, o excerto destacado demonstra claramente a engrenagem que fazemos partes. A grande mídia, sempre defendendo seus próprios interesses – financeiros, claro – atua como autoconsciência do seu público. Não erroneamente, os mais desavisados caem nessa armadilha e, diariamente milhares de postagem são produzidas para usufruto de seus senhores.

Hoje o leite condensado. Para amanhã, fiquemos atentos ao horário nobre da televisão.


[1] Georg Wilhelm Friedrich Hegel, filósofo alemão que viveu nos séculos XVIII-XIX.

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