FELIPE NETO: TRETA LITERÁRIA

“Se você acha Machado de Assis chato, o erro está em você e não no Bruxo do Cosme Velho.”

Por Carlos Neiva

O sr. Felipe Neto é e sempre foi uma pessoa envolta em polêmicas, ou melhor, como ele mesmo gosta de dizer, em “rebuliços”. Desde que surgiu na internet com seu primeiro programa “Não faz sentido”, em que criticou Neymar e a banda Restart, e literalmente mastigou e cuspiu uma página do livro Crepúsculo, o youtuber tem se tornado centro de muitas polêmicas e rebuliços.

O tempo passou e o influencer tornou-se o maior vlogger do Brasil. Sua conta no Twitter tem doze milhões de seguidores, e seu canal no YouTube conta com mais de quarenta milhões de corujinhas inscritas. Felipe reinventou-se e mudou suas opiniões para o contrário do que antes pensava, mas o domínio da comunicação na internet sempre manteve os holofotes para ele e para quem ele quisesse dar tal graça, como seu irmão Lucas Neto, que é tipo a nova Xuxa do século XXI.

Entre centenas de polêmicas, Felipe Neto está atualmente em campanha acirrada contra o presidente Bolsonaro. Ele afirmou não ter interesse de ingressar na política, mas quer derrubar o governo de direita a todo custo, tornando-se assim um ícone da nova esquerda pós-PT – ao menos é assim que foi lançado pelos jornalistas como, por exemplo, Vera Magalhães.

Mas em meio aos intervalos de ataques ao presidente da república, o sr. Felipe Feto – trocadilho criado pelo livre pensador Olavo de Carvalho – chocou a internet com esta afirmação para lá de estrambólica em seu Twitter: “Forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco”.

Diante de tal afirmação pública, houve aqueles que o parabenizaram, por concordarem ou por pura bajulação, e, da mesma forma, houve os que discordaram bravamente, seja por realmente pensarem o contrário, seja por simplesmente gostarem de ir contra a nova cara da esquerda no Brasil.

O fato é que o sr. Felipe Neto conseguiu toda a polêmica e a atenção que queria, tornando-se comentado em muitíssimos vídeos e artigos aos quais este texto se soma. De fato, ninguém no Brasil sabe utilizar tão bem a internet quanto o Felipe Neto, afinal, ele está há mais de uma década nesse jogo.

Mas ao analisar friamente a frase expressa pelo youtuber, podemos ver que ele não afirmou nada tão polêmico; pelo contrário, afirmou algo incrivelmente óbvio. Pensemos com cautela: se a educação no Brasil é um fracasso, totalmente nivelada por baixo, e milhares de jovens chegam ao ensino superior como analfabetos funcionais incapazes de ler e interpretar corretamente um único tweet, por que insistirmos em dar a esses “porcos” a “pérola” mais valiosa de nossa língua, que é a alta literatura (não seja analfabeto funcional e entenda a referência à parábola bíblica)?


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Retrocedamos um pouco no assunto para tornar a coisa mais entendível. Na vida, existem desafios e desafios, e alguns são mais fáceis do que outros. Cada tipo de desafio gera uma reação diferente naquele que foi desafiado. Explico-me: se for um desafio muito fácil, o desafiado é tomado por apatia, ele não se motiva a cumprir o desafio que lhe parece tão ridículo; entretanto, se o desafio for extremamente árduo, o desafiado se frusta por deparar-se contra o impossível e desiste da contenda. Somente o desafio à altura do desafiado é que o motiva a melhorar-se e a superá-lo.

O processo educativo é um processo desafiador, e o professor deve estar atento ao nível de desafios que pode impor aos seus alunos. Se o professor passar uma tarefa extremamente fácil, terá alunos dorminhocos e desatentos; se for o extremo oposto, terá alunos frustrados e inibidos. Agora, caso proponha um desafio à altura de seus alunos, ajudá-los-á a progredirem e a superarem tal obstáculo.

Mais do que dar o peixe, o professor deve ensinar a pescar; ele deve colocar entraves e motivar os alunos a resolverem tal contenda; só assim há crescimento.

Partindo desse pressuposto, podemos concluir que colocar o que há de mais belo e bem construído em nossa língua – os clássicos literários – nas mãos de alunos que ainda estão passando por um processo de letramento é frustrá-los. O professor, por sua vez, deve ir preparando gradualmente os alunos para que estejam aptos para tais leituras – sim, aptos para tais leituras! Não são as leituras que devem mudar para mais fáceis, é o aluno que deve mudar para alcançar o nível do autor. Se você acha Machado de Assis chato, o erro está em você, e não no Bruxo do Cosme Velho. É você quem não é bom o bastante para o Machado, não o contrário!

E isso não é nada novo, é algo extremamente óbvio. O próprio Felipe Neto, que só compartilha leituras superficiais de best-sellers em suas redes socias, sabe disso, por isso disse: “Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES!”. Está até em caixa alta – meu Pai do Céu! De fato, não podemos dar nosso melhor caviar a quem só gosta de mingau de fubá. É preciso ir trabalhando o paladar até que seja capaz de apreciar a iguaria.

E vale lembrar que aprender a apreciar caviar não significa necessariamente nunca mais comer um mingauzinho quentinho enrolado em uma coberta no sofá depois de ter tomado uma chuva. Nada disso! Significa que você sabe apreciar de tudo, desde o mais simples ao mais refinado. Por exemplo, conheço um professor que é apaixonado por William Shakespeare e Dante Aligheri, mas sabe curtir também uma boa revistinha em quadrinhos ou um livro de fantasia escrito pelo Rick Riordan. Não se trata de transformar o aluno em um esnobe, trata-se de dar-lhe as competências para que possa apreciar de tudo. Dizem que a Educação liberta, e não vejo outra forma de ela libertar se não for assim.

Mas é bom deixar claro mais uma vez: o sr. Felipe Neto está muito correto em sua afirmação, mas ele apenas afirmou o óbvio, pois o que ele disse no meio pop já tem sido discutido há décadas no meio acadêmico. Autores como Rildo Cosson, Magda Soares e Renata Junqueiro de Souza possuem várias publicações sobre o que eles denominam “letramento literário”. O Letramento Literário é uma prática de trabalhar a capacidade de leitura e escrita do aluno para além da mera alfabetização (que é pura decodificação dos signos linguísticos), criando nele o gosto pela literatura, mas fazendo isso de forma gradual, dando autores mais fáceis de ler e incentivando o aluno a ir mergulhando no maravilhoso mundo da escrita literária.

É claro que há aqueles que vão contra a teoria, presos em uma análise hegeliana de puro historicismo, onde a escola não pode ser local de “criar paixão”, mas apenas de memorizar fatos históricos. Entretanto, o letramento literário vem demonstrando muito mais resultados do que qualquer exercício de “história da literatura para vestibulares”.

Contra esses críticos de monóculos, como zombou o sr. Felipe Neto, é preciso dizer que na correta apreciação da literatura são precisos dois momentos. O primeiro é o da formação do imaginário, e só depois vem o segundo: a apreciação estética. Enquanto o primeiro pode ser formulado por meio de leituras de histórias em quadrinhos, best-sellers e literatura infanto-juvenil, o segundo só pode ser feito com obras que foram realmente pensadas de forma estética, com a intenção de alcançar o belo por meio da linguagem. O primeiro é indispensável para o segundo.

Uma criança ou um adolescente que lê livros como a saga Harry Potter conseguirá tomar gosto pela leitura, além de formar um imaginário que capaz de desenrolar em sua mente os cenários e personagens descritos. Se não conseguir desenvolver essa habilidade, será impossível que entenda um soneto de Camões ou um capítulo de Machado de Assis. Por exemplo, considerando o quinquagésimo quinto capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, intitulado, “O velho diálogo de Adão e Eva”, quem não tem capacidade imaginativa não consegue apreciar como o autor consegue descrever com apenas um título e uma série de pontos um momento de relação sexual das personagens Brás Cubas e Virgília.

Resumindo, o leitor deve ser bom o bastante para a obra, não o contrário. Como apontou Umberto Eco em seu “Posfácio ao Nome da Rosa”, as primeiras páginas de seu romance eram densas, mas propositalmente, pois só os leitores que fossem capazes de ler as primeiras cem páginas passariam pela purgação necessária e estariam aptos para ler o resto do romance. Assim deve ser com toda obra literária, o leitor tem que ser elevado ao nível dos clássicos, e não os clássicos rebaixados ao nível do leitor menos atencioso.

Nesse caso, cabe ao professor de literatura buscar formas de envolver o aluno e construir nele um leitor capaz. Obrigá-lo a ler uma obra complexa é uma estratégia no mínimo burra. O professor deve ir preparando os níveis de desafio para que o aluno vá crescendo gradualmente como leitor. Só assim o analfabetismo funcional será vencido.

Evidentemente, o cenário educativo é caótico, e muitas vezes o professor deve começar do zero, lidando com alunos de extrema imaturidade literária. Mas é preciso paciência, buscar fazer algo com aqueles alunos reais que estão ali diante de si, e não ficar esperando uma reforma governamental para fazer algo com a turma do ano que vem. Sentir a realidade é algo importante. Não adianta fantasiar sobre como seria correto que os pais lessem para a criança, ou que elas tivessem livros em casa, se a maioria dos alunos não têm pais e, se os têm, eles carecem de tempo (ou também não sabem apreciar a leitura). Nem vou falar da pobreza de acervos de livros que muitas escolas enfrentam.

Assim, temos de mais uma vez bater no peito e detestar o fato de ter que concordar com o sr. Felipe Neto, mas o youtuber marcou ponto outra vez: não só disse algo correto, como conseguiu ser assunto no Brasil. Talvez, se o letramento literário estivesse sendo feito de forma correta em todo o Brasil, muitos entenderiam o que foi dito em seu tweet. Na verdade, se assim fosse, ninguém estaria perdendo tempo no Twitter, mas estariam todos offline, lendo Dom Casmurro e se permitindo apaixonar-se por Capitu com seus belos olhos, ou ainda lendo O Guarani e jurando suas vidas à Ceci. Esse seria, sem dúvidas, o Brasil em que eu gostaria de viver.

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