O vazio do gozo

“A vida transformada em uma busca incessante do gozo fez com que as pessoas ficassem como adolescentes que exigem o direito de, a cada passo, ter um orgasmo.”

Por Tobias Goulão

A vida humana é um composto de várias coisas. Umas acabam por ter mais espaço que outras, dependendo da forma como nos relacionamos com essas coisas, da abertura feita a cada uma. Alguns desses elementos ligados diretamente à vida são exclusivamente materiais, utilitários para o melhor viver. São, em boa parte, ligados aos nossos prazeres, que vividos de forma equilibrada, dentro das virtudes tão exaltadas por vários mestres do pensamento mundial, são caminhos para situações de júbilo. Caso não saibamos aproveitar tais gozos, nossas virtudes são desmanteladas, destruídas e nos permitimos cair no campo do vício. Talvez um bom exemplo de como a visão materialista sobre o prazer e da degeneração causada por viver sempre em prol do gozo, como se fosse a única que deve ser procurada a exaustão, seja o sexo.

Se por algum motivo hedonista/narcisista você duvida dessa afirmação, faça o seguinte teste: assista pelo menos uma meia dúzia de séries ou filmes atuais e constate que quase a totalidade tem por necessidade de exibir sexo mais explícito que muitos filmes eróticos de alguns anos atrás. Não só no vídeo o sexo está exacerbado, mas também nas faixas sonoras (digo isso porque nego considerar alguns exemplos das paradas de sucesso algo a ser chamado de música). A grande parte do áudio produzido na cultura pop, somado a uma exibição cada vez mais erótica do corpo, culminam em danças de acasalamento animalescas que têm, visivelmente, a intenção de excitar os dançarinos, que revessam entre casais, duplas ou um conjunto orgiástico. É, de forma visível, uma suruba coletiva que leva festas inteiras embaladas por esses sons a iniciarem estimulações eróticas em conjunto de forma coletiva.

O elemento visível disso não está mais preso a alguns nichos, ou canais pagos, ou diretores específicos. É cada vez mais comum que um filme exiba, na maioria das vezes sem a menor ligação com o desenvolver da história, um momento para se “queimar um incenso para satanás”. Cada vez mais próximos, nas novelas (que não oferecem nada mais que engenharia social de largo alcance) cenas mais explícitas estampam as televisões país a fora. Nos computadores, celulares e smart tvs temos os seriados que, estes sim, exibem tudo e mais um pouco. Estamos, a todo momento, sob bombardeio de imagens explicitamente eróticas, com cada vez mais nudez, em uma linha tênue entre erotismo e pornografia que nem sempre é respeitada. Os nossos limites estão cada vez mais fracos e o choque com a exibição é o que os “artistas” buscam a cada produção audiovisual.

Mas antes que você comece a falar que se trata aqui de uma amostra selvagem de puritanismo vazio, deixo claro que não. Unicamente estamos aqui a descrever o estágio de uma revolução cultural, conduzido pela ideia de liberação sexual sem limites, na qual estão instituições das mais variadas, a nível global, composta por inúmeros nomes da intelligentsia progressista internacional, e colocadas cada vez mais próximas das pessoas comuns por influência justamente da mídia. O caminho que leva a essas constatações é conhecido, mas poucos são os que percebem o problema que está relacionado a tanta afirmação de necessidade de um gozo perpétuo frente aos combates contínuo das dificuldades da vida. Entre a liberação total das pulsações do instinto e a situação atual que beira a destruição completa do ser humano, houve um processo revolucionário que buscou implantar esses ditames em nossa sociedade. As ideias, a moral e as crenças foram estrategicamente atacadas e colocadas em dúvida e o caminho ficou aberto para a invasão. Fomos destruídos por agentes internos que em nome de um estatuto de “justiça social”, “igualdade” e “liberdade” implantaram as mais absurdas ideias sobre o homem e sua condição de vida e de espírito. Estamos jogados ao vazio, e o que restou para a justificação de muitos foi o gozo, por mais inútil que seja.


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Formulamos, graças às teorias modernas, uma mitologia que determina nossa existência apenas pelo elemento sexual. Essa constatação nos é oferecida por José Ramón Ayllón em “Mitologias modernas”, livro que entre outros mitos traz o da sexualidade como chave de interpretação da vida humana.

Marcamos o começo com a imoralidade nietzschiana, porque entre seus delírios advogou o fim dos limites. Clamando para cada um aderir aos instintos e desejos e se fazer o grande construtor da nova moral. Eliminar qualquer situação que possa te inibir, sabendo que deve moldar a moralidade segundo a sua vontade. Assim, o sexo e todas as outras coisas que podem ser feitas pelo ser humano, ficariam livres de sua responsabilidade, momento de constara o estado de ficarmos à deriva em “uma sociedade que despreza a abnegação e estimula sistematicamente os desejos imediatos, um Novo Mundo que só dá crédito às normas indolores, à moral sem obrigação nem sanção”. Depois desta constatação de Ayllón vemos chegar a uma visão materialista das coisas, e também do sexo, que fica restringido no esquema: amor torna-se sexualidade, esta por sua vez torna-se mera satisfação biológica dos desejos sensíveis. Coloque agora nessa equação mais uma teoria oitocentista possuidora de muitos adeptos, que é a psicanálise. Freud também é importante na destruição da responsabilidade sexual, porque justamente qualquer tentativa de se conter é um meio de criar repressões e estas criam recalques no indivíduo e não se desenvolverão saudavelmente. É necessário para os seres humanos não se reprimirem, e para ter uma boa vivência deve dar vazão a todos os seus instintos. Trocando em miúdos, o sexo é a razão pela qual a vida do ser humano se desenvolve; uma eterna e constante busca de satisfação sexual. O resultado foi que “uma quantidade enorme de estudos demonstrou que a promiscuidade, a dependência da pornografia, a impotência sexual e diversas aberrações são consequências do modelo antirrepressivo freudiano. Porque, ao proclamar a conquista de um mundo feliz pela libertação dos instintos de quaisquer entraves, Freud ignora a sua desordem latente”.

O processo não para com esses dois. Para dar sequência à destruição de qualquer limite e de qualquer significação que denote responsabilidade com relação às relações humanas, temos uma série de seguidores que fazem do amálgama Nietzsche/Freud/Marx, este o último ídolo a somarmos na desgraça da civilização. Alimentarão, com as teorias pós-modernas, uma infinidade de ideologias que convergem todas para a negação de qualquer responsabilidade, que vão desde a negação de si próprios em nível objetivo (leia-se as teorias voltadas ao gênero) à completa entrega ao sexo, independente da forma, e nem se preocupando com o que pode acontecer com o ato.

Em mais um autor, um crítico social ferrenho e sem a menor piedade da fragilidade juvenil e irresponsável do homem contemporâneo, temos mais características dessa sociedade que se achou liberta pelo sexo. Theodore Dalrymple, em “Nossa cultura… ou o que restou dela”, fala sobre essa condição que vivemos hoje. Estamos em uma situação que só se fala de sexo, sexo e mais sexo. Chegamos a um nível de negação moral imprescindível, longe de qualquer tentativa de valorizar e compreender os elementos que foram caros para construção da sociedade e da civilização. A culminância é nossa sociedade que sente a necessidade de sempre estar em contato sexual, mas que não quer nem mesmo passar perto das consequências do que fazem. Podemos utilizar uma de suas afirmações para entender isso. Ele diz que “certamente essa é a primeira vez na história que a procriação foi totalmente divorciada da atividade sexual humana”. Isso porque com o sexo sempre esteve ligado o fator reprodutivo, ou seja, um casal também deve desfrutar do prazer entre si, mas sabendo que como efeito podem gerar uma nova vida. Por conta da falta de responsabilidade, da pouquíssima importância com o futuro e a entrega imediatista, jovens vivem dopados de contraceptivos quando não cometem o ato covarde do aborto com o intuito apenas de “não estragar a vida com um acidente”. Mas se soubessem sempre dos problemas dessa sexualidade desenfreada e dos efeitos lógicos do sexo, poderiam muito bem entender o que acontece nessa situação.

Para chegarmos a essa situação tivemos que passar por processos que vem iniciando as crianças cada vez mais cedo no mundo da sexualidade, o que faz terem precocemente inúmeras experiências nessa área, perdendo o tempo de outras descobertas. Essas crianças chegarão depois a uma compreensão da vida como uma perpétua adolescência e um cansaço do mundo.

Aqui chegamos a um ponto importante. Essa condição de entrega ao sexo sem medidas ou moralidade levou ao um abandono hedonista/narcisista/individualista aos prazeres que não conseguem satisfazer o ser humano. A noção revolucionária do sexo como resposta para todos os problemas da vida foi completamente invalidada pela constatação objetiva de existir nas pessoas que se abandonam no prazer materialista sem freios simplesmente uma falta de sentido na vida. O sexo que veio para libertá-los foi, na verdade sua prisão. Tornou-se um vício vazio, uma prática sem capacidade de preencher seu interior. O bombardeio de sexo ilimitado o tornou sem sentido, pois aquilo que outrora criava um valor além da materialidade do ato, uma ação de conexão íntima entre um casal, foi removido e lançado no lixo da nossa cultura de massa.

A vida transformada em uma busca incessante do gozo fez com que as pessoas ficassem como adolescentes que exigem o direito de, a cada passo, ter um orgasmo. O que pouco se fala é como este comportamento resulta na destruição de um dos elementos que é importante para a vida. O que poucos sabem é que, como qualquer coisa, este prazer deve ser algo cultivado em meio à busca da virtude para aproveitá-lo. Sem a vivência da virtude nessa área, voltamos para o estágio de descontrole que grandes nomes do pensamento, ocidental e oriental, quiseram tirar o homem. Antes de pensar que estamos aqui depreciando este elemento da vida, estamos apenas afirmando que a entrega do homem à sua bestialidade e a perda de sua própria identidade como homem.

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