Conectividade, desempenho e vigilância

” A conectividade e exposição contínuas gerou um campo de vigilância, de fiscalização, de imposição, de cobranças, cada vez mais ardiloso. Quanto mais “famoso” ou “influente” mais justificativas devem ser dadas.”

Por Tobias Goulão

Em parte, nosso mundo já superou muito do que a ficção imaginava. Tudo bem que não temos as viagens interplanetárias, ou carros voadores e hoverboards como foi pensado em “De volta para o futuro 2”. Mas, a tecnologia de comunicação e de conectividade é espantosa. A troca de mensagens, a velocidade de conexão e as possibilidades do que se fazer com o meio tecnológico são espantosas. Os nossos videogames, smarth tvs, computadores, celulares e smartwatchs nos oferecem possibilidades de ação que computadores antes não faziam, de forma precária, sem ter que preencher andares inteiros de prédios. Até caixinhas que atendem comandos e vão acionando coisas na casa estão se popularizando, assim como os robozinhos de limpeza que aspiram metodicamente os lares. São gadgets de fazer frente ao Inspetor Bugiganga.

Em contrapartida, tanta conectividade cobra seu preço. Os celulares escutam tudo que falamos, as corporações donas das redes sociais sabem mais de nós do que nossos amigos mais próximos. A quantidade de informação pessoal contida em um celular faz a perda desse aparelho ser mais catastrófica que a perda da carteira com todos os documentos. E, todos já sabem, que um click pode gerar uma enxurrada de propagandas que inundará os intervalos entre suas músicas, além de tornar as laterais dos sites que frequenta um horrendo mural propagandístico tão feio quanto aquele amontoado de outdoors visíveis nos trechos urbanos mais cobiçados pelas empresas de propaganda.

Estamos, a todo momento, conectados em alguma tela. Oferecendo informações e mais informações sobre nós a todo instante. Algumas vezes é algo desejado, porque na vida contemporânea nada acontece de verdade se não receber uma postagem na rede social. Em outras situações as informações vão de forma inconsciente, por conversar e ter a conversa captada pelo celular que lançará na base do buscador seu interesse momentâneo pelo assunto. Que irá se juntar àquela pesquisa que fez somente para matar a dúvida sobre um conteúdo evanescente. É um excelente serviço de captação de informações.

Há, é claro, o fator trabalho, a cada dia mais conectado, mas não é só ele. Não é por questões de estudo, pois nem todo mundo aproveita as benesses da conectividade para estudar de fato. Em grande parte, a informação que oferecemos ao mundo – pois uma boa parte da conectividade vai para o mundo via redes sociais – sai daqueles momentos de simples vício: quando abrimos um “explorar” ou vamos nas “indicações”, nas “postagens mais recentes” e ficamos a rolar a barra indefinidamente. Pura distração, pura vontade de saber o que há de novo, como está a celebridade X ou o resultado do conflito entre Y e Z. E, no melhor estilo “stalker pós-moderno”, algum tempo é passado só a observar o que Fulano e Beltrana estão a fazer simplesmente para poder ter assunto na roda de amigos cujo gosto compartilhado é falar mal de alguém.

Esse “simples” vício contemporâneo é uma forma de mostrar como todos estão em uma redoma de vidro, fazendo uma exibição do cotidiano, até dos atos mais íntimos. Tudo é espetáculo, tudo tem plateia e tudo, mesmo que poucos tenham se atentado para o fato, é vigiado. Seja vigiado pelos colegas de trabalho esperando uma situação para indispor alguém com o chefe, ou na forma de vigilância mais específica dos nossos dias: a “vigilância do bem” que examina suas telas em busca daqueles indiferentes ou contrários às pautas da “bondade instituída” e, por isso, devem ser denunciados, apagados, cancelados.

Convenhamos, estamos nas mãos, ou melhor, sob os olhos de uma rede de sentinelas que faz inveja a tudo que a KGB ou a Securitate organizaram. Nessa implantação moderna das teletelas, o julgamento é implacável, fazendo os cenários da ficção ficarem prestes a ser obsoletos. A infinidade de propagandas que estão fazendo coletas de dados é um fator inquestionável (mesmo sendo propaganda politicamente correta disfarçada). A espionagem que ocorre, em nome dos “temas do bem”, está cada vez mais rápida. Temos também a vigilância do trabalho, pois a conectividade vai explorar a “proatividade” e todo o tempo possível do “colaborador” com a firma. Nada de deixar o celular de lado, ou no silencioso, porque os segundos perdidos no qual não se escuta o chamado do trabalho podem ser vistos como sinônimos de desinteresse e falta de um “desempenho” ao nível da função/empresa.


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Vejamos que a cada reviravolta da tecnologia ficamos mais presos. Primeiro os computadores tornaram-se domésticos, os celulares portáteis. Popularizaram e praticamente todos possuem um. Os computadores se tornaram portáteis, os celulares se tornaram computadores e agora estamos com eles nos pulsos. Essa inovação sempre irá lembrar os “rádios de pulso” do conto “O Assassino” de Ray Bradbury. Hoje o gadget, outrora futurista, está ultrapassado tecnologicamente por confiar a conectividade às bandas de rádio FM, mas atualíssimo por tratar da cacofonia gerada pela conexão global, pelo estresse do desempenho ao extremo e da automação de tudo na nossa vida. Claro, isso é realizado sob vigilância ferrenha de órgãos de coesão estatal e privados, aqueles mais interessados no controle das informações das vidas alheias (talvez até mais interessados que nossos viciados nas atrações da vida dos outros).

Pensemos que cada notificação não precisa mais do esforço de buscar o celular no bolso, mas só de uma olhadinha rápida no relógio. Com isso, a vigilância fica constante, rápida, ao ponto de ser praticamente impossível fazer uma publicação sem ser imediatamente vista por centenas de pessoas. O resultado é simples: todo mundo vigia todo mundo e estão caçando uma situação para realizar sua “justiça social em nome do bem”. A todo instante, quem pisa fora da linha, recebe centenas ou milhares de comentários negativos, o que é fácil de suportar, mas a ação da patrulha de vigilantes não para por aí e cobra, literalmente, a cabeça digital de quem ousa sair do padrão imposto pela “galera do bem”. A conectividade e exposição contínuas gerou um campo de vigilância, de fiscalização, de imposição, de cobranças, cada vez mais ardiloso. Quanto mais “famoso” ou “influente” mais justificativas devem ser dadas. O pior é que a “gente do bem” nunca é tão do bem assim, e mais cedo ou mais tarde sofrerão da própria censura, da própria patrulha de seu grupo de vigilantes e deverão peregrinar perante os olhares onipresentes e pedir humildemente desculpas por serem humanos, demasiado humanos.

Essa ação de “manutenção da ordem politicamente correta” é simplesmente invejável aos governos autoritários que desejam controlar a todos nos antigos moldes. Em um mundo onde todos clamam por aceitação, por fazer parte da “galera descolada”, vigiar o desempenho e o engajamento nas causas certas é a melhor ação. O interessante é que, antes o monopólio do juízo passava por uma cúpula estatal quase inalcançável. Hoje, os inalcançáveis são os donos das grandes empresas, as Big Techs, e seus dirigentes são pessoas alinhadas com as “causas do bem” e irão caçar qualquer voz dissonantes. O mais engraçado é a vigilância ser feita pelos próprios usuários, que têm o trabalho de denunciar e dizer que não podem fazer aquilo. E pergunte se os denunciados fazem algo absurdo como expor crianças à corrupção de sua infância com sexualização precoce. Não, são exatamente os tipos que não concordam com as abobrinhas desse e de outros gêneros.

Eis a vida que temos na frente das teletelas com nossos rádios de pulso. Conectividade, desempenho e vigilância. Tudo isso em proporções nunca vistas.

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