quinta-feira, dezembro 9, 2021
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Os editores do mundo

” Esses filhinhos de papai que colocaram na cabeça serem a geração mais iluminada que já pisou no planeta simplesmente acham que tudo isso presente no mundo é algo natural e não resultado de séculos de lutas. Apagam o passado como se cada um fosse um novo Adão lançado em um paraíso criado somente para atender aos seus desejos.” 

Por Tobias Goulão

O caminho indicado pelos atos desse primeiro mês de 2021 são estranhos e preocupantes. Vemos que nem mesmo o homem considerado o mais poderoso do mundo escapou das ações das pessoas “do bem” e sofre clara censura. Longe da terra do Tio Sam, a cada dia mais histórias de desaparecimentos de importantes chineses aparecem. E cá entre nós, na Terra Brasilis, a horda da “gente do bem” quer ditar normas, dizer quem pode ou não ter acesso à rede de computadores, editar o país e ser a voz que diz o que é ou não verdade. Imitam aqui as posições que juravam ser dos que ascenderam aos cargos do executivo, mas nem pensaram nisso. É um mundo onde os liberais e os que dizem ser defensores da democracia clamam cada dia por mais estado e pela censura de quem eles não gostam, e que o extremo oposto, que fica até hoje sob a bandeira da “causa operária”, sempre solta uma nota mostrando o aburguesamento autoritário e contrário à liberdade que as figuras dos editores estão realizando.

Os fatos mais recentes chamam atenção para pensarmos em, pelo menos, três circunstâncias das quais desdobram todas as outras e estão batendo em nossa porta. Parece que estamos fazendo uma viagem fantástica, que perpassa por conceitos de estudos das humanidades, aos traços do autoritarismo que habitou ficções extremamente realistas e culmina na autocoroação de uma infinidade de Napoleões em suas celas de hospício. Iniciemos nosso caminho reflexivo.

Uma das posturas encontradas no discurso mais atual das “pessoas do bem” é, literalmente, apagar alguém do passado. Remover por meios técnicos menções ao referido que não poderá ser visto ou lembrado. Deve ser enterrado para se perder nas brumas do passado. Nada novo, até porque a raiz desse tipo de punição a alguma figura remonta, pelo menos, ao que os romanos chamavam de damnatio memoriae. A pessoa condenada era apagada da história, seus registros desapareceriam, seus atos ignorados e esquecidos, seu nome proibido de ser mencionado. A intenção é autoevidente, pois existem pessoas que não devem ser lembradas. O motivo é por não gostarem dela em determinado escalão da edição do país/mundo. Daí apagar o passado e fazer tudo novamente, como se não houvesse um caminho até aqui, mas como se tudo tivesse brotado naturalmente do nada.

Quando pensamos nisso hoje, vendo as indicações de que cenas do passado serão removidas, faz notar o medo que existe na “gente do bem” com relação ao passado. É uma tensão muito grande ter que lidar com o que foi feito e não pode ser alterado. Uma descoberta sobre alguém ou algo que contradiz tudo que se acredita pode lançar todo um discurso de “bondade”, de “preocupação com as informações que chegam até as pessoas”, por terra. Imagine como seria triste se alguém bolasse uma história sobre protestos subliminares pintados em um templo religioso, mas fosse desmascarada por outras pessoas que conhecem o passado ao ponto de desmentir a tal mensagem de protesto subliminar? Pelo que vemos, atualmente, vamos lidar cada vez mais com essa mnemofobia, ou seja, o medo do passado, termo usado pelo estudioso do comunismo na Europa Oriental, o romeno Vladimir Tismăneanu. Esse medo pode ser invocado e fazer com que qualquer pauta de discussão mude, obrigando os nossos “meninos espertinhos” a ter que mentirem abertamente. E como isso pode pegar mal, então apaguem o passado! Seja o trecho de um filme com alguém inconveniente, uma fotografia política com quem se tornou inimigo, ou mesmo fatos sobre algum pintor renascentista.

Essa noção de eliminar o passado e colocar em seu lugar algo mais ao gosto dos dias seria como a criação de um “Ministério da Verdade”. Pensemos em um órgão supranacional, manipulado por “pessoas do bem” com todas as intenções e ações já mencionadas, que controlariam tudo que está no passado. Editariam eventos, mudariam o sentido dos conceitos, criariam novas perspectivas baseadas no que precisam: uma dupla noção de pensamento para tudo. Um pensamento para as “pessoas do bem”, outro para quem não entrou no clube. O Ministério da Verdade tem clara noção de que o “controle do passado é o controle do futuro”, sendo assim, não é qualquer um que pode ter acesso ao que realmente aconteceu. Não pode ser dada a oportunidade de ir até uma fonte e propor outros apontamentos a não ser aqueles que passem pela hermenêutica-desconstrucionistas-estruturalista-materialista-pós-moderna e digam exatamente aquilo desejado pelos membros do Ministério. Afinal, tudo é performance, e isso é qualquer coisa [que a “gente do bem” goste]. No fim, não será permitido usar um livro que não seja do Ministério, nem escutar alguém de fora do Ministério. Isso seria estupidez, já que tudo pode mudar amanhã. Algo similar aos benefícios nutricionais do ovo ou do leite, ou mesmo as informações oferecidas por organismos que visam pela saúde no mundo.


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Mas, em um mundo com muitas possibilidades de expressão, o controle do passado ainda é difícil. Para tanto, é importante que a “gente do bem” se sacrifique com tempo e esforço para poder dizer o que é ou não verdadeiro e merecedor de confiança. Eles se colocam como editores das nações, cada um em seu canto, mas estão todos em um, como uma Legião, e passam a mostrar e ditar o que é verdade ou não. Como fazem isso? Primeiro tentam pela pressão silenciar os não-alinhados. Caso o primeiro passo não funcione, o gigante adormecido se levanta e começa a exigir das empresas de comunicação que não permitam a ação de quem não é “do bem”. Nesse passo algumas publicações desaparecem, há suspensão do uso da rede, mas ainda assim é uma ação corretiva: se você parar de contrariar as “pessoas do bem” poderá ficar com sua rede. Aos que se negam, ainda encontramos o nível máximo: censura. Simples assim. Se falam algo contra a turma que vem com todo esforço dizer o que você pode ou não falar, pode ou não ouvir, vai ser impedido de falar definitivamente. Mas lembre-se, não é uma censura do mal, onde se tiram as liberdades de alguém. Pensar assim e esquecer do que falamos acima sobre a dupla noção de pensamento. Se são “pessoas do bem” fazendo um ato de censurar, de calar o oponente, e todos os liberais, democráticos, burgueses e oportunistas estão aplaudindo, se isso ganha engajamento nas redes e mostra o quanto esse ato é chamativo e vai contra o “autoritarismo dogmático”, então estamos diante de uma “censura do bem”. E assim tudo fica certo. Podemos seguir tranquilos porque estão velando por nós.

Obviamente tudo isso é uma grande palhaçada. Nada mais que um bando de filhinhos de papai, gente mimada que só se sustenta devido a força do grupo, da massa, fazendo birra e batendo o pé porque, simplesmente, não gostam de alguma coisa. Toda a discussão é única e simplesmente isso. Não gostam do que foi falado no passado? Não será repetido, e se possível será apagado ou mudado. Não gostam mais de um certo personagem? Vamos eliminar ele da história. Ao fim, vendo que todo passado é extremamente negativo, que lidar com a surpresa de ter uma verdade revelada e com isso ver todo o castelo de cartas cair, ficarão então preocupados. O que deve ser feito é levar tudo para um crematório, esperar alcançar a temperatura de 451 ºF e depois lançar as cinzas para longe.

O que importa para toda a “turma do bem”, gente iluminada e gourmetizada, é manter seu conjunto de diversões idealizadas, uma enorme possibilidade de qualquer tipo de satisfação sexual, fazer uso de incontáveis variedades de drogas para controlar o grande tédio que tudo isso dá. E, ao fim, poder bancar os justiceiros sociais de internet para tentar significar a vida de alguma forma, mesmo que seja com mentiras. E para isso não importa se for necessário ignorar todo o passado.

Apagar o passado é um problema grave. Estamos aqui hoje porque trazemos sustentando nossos pés um conjunto de conhecimentos e acontecimentos feitos por pessoas de outras épocas. A procura por conhecer o passado da melhor forma possível, nos permite não deixar que qualquer coisa seja dita de forma a tapar o buraco existencial e temporal do qual precisamos. O passado é importante por mostrar o porquê estamos aqui e como nos programarmos para ir adiante. Esses filhinhos de papai que colocaram na cabeça serem a geração mais iluminada que já pisou no planeta simplesmente acham que tudo isso presente no mundo é algo natural e não resultado de séculos de lutas. Apagam o passado como se cada um fosse um novo Adão lançado em um paraíso criado somente para atender aos seus desejos.

Perder a experiência, querer editar o passado ao bel prazer, é um erro trágico e nos levará a maiores atrocidades que as já vividas. O aviso de Ortega y Gasset foi importante: “o homem nunca é um primeiro homem: começa a existir, desde logo, sobre certa quantia de passado amontoado” […] “romper com a continuidade com o passado, querer começar de novo, é aspirar a cair e plagiar o orangotango”.

Com essa visão, a autoridade que fica e dá sustentação para toda a ação das “pessoas do bem” são louvadas. O que toda essa gente não percebe é que, em meio a essa rebelião das massas, quem lucra é justamente o autoritarismo que usam para calar os dissidentes. E no fim dessa história, todos serão, mais cedo ou mais tarde, vítimas do esquecimento, do ministério da verdade e da censura. Se não conseguem ver isso agora, pode ser que não verão enquanto não forem eles os editados pelas forças maiores.

Tobias Goulão
Prof. Ms. Tobias Goulão, professor graduado em História (UEG) e Filosofia (Faculdade Católica de Anápolis), e mestre em História (UFG).

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