O que você aprendeu em 2020?

“O tempo ganho nem foi percebido. Acompanhar as fofocas e entrar na “intimidade virtual” de vidas alheias parece ter sido o melhor do confinamento. No fim das contas, senhoras e senhores, o problema nunca foi tempo. Eis a grande verdade.”

Por Tobias Goulão

Quando se é professor, ou demostra alguma aptidão e gosto por estudos, normalmente se escuta de muitas pessoas um desejo de fazer algo a mais em suas vidas. Seja ampliar as leituras anuais, ou aprender uma nova habilidade, que vão de fazer tricô a aprender um novo idioma ou instrumento musical. Em todas essas situações, quando as partes começam a conversar e delimitar ações para ajudar na realização das mudanças, aquilo que mais prende muita gente contra as novas atividades é o monstro da falta de tempo. A considerar que a vida contemporânea é, de fato, muito rápida (há um bando de sociólogos que discorrerão sobre a liquidez e velocidade do tempo na pós-modernidade), temos uma tendência a acreditar nessa suposição. Mas fica uma questão: será que é isso mesmo?

Pensemos como ficou o cotidiano de muita gente a partir das condições atípicas vividas em 2020 e como isso alterou completamente a forma de vida de muitos. Foi, em certas instâncias, um ano perdido, no qual muitos deixaram de avançar em suas atividades, trabalho e empreendimentos devido às imposições que os governantes colocaram – tudo para seguir o padrão ditado a toque de caixa por instituições supranacionais. Foi um ano onde as liberdades individuais mais básicas foram submetidas ao controle estatal – em alguns casos querendo entrar até mesmo nas casas das pessoas. Ir e vir foi algo que interrompido de ser feito normalmente por um bom tempo, ficando uma temporada enclausurados em casa. Processo esse que teve impacto psicológico tão forte que não mais se acredita ser possível sair na porta da casa sem a “mordaça da OMS”.

Foram dias e mais dias, a sós em casa, ou reduzidos ao convívio familiar, apenas consumindo uma infinidade de informações cujo conteúdo parecia ser tirado de algum filme de ficção científica. Recebia-se conteúdos de grande alarme, o que causou medo e terror em muitos. A cada notícia que se via sempre estava conectada uma informação sobre o fim do mundo. Parece exagero, mas é sabido que os primeiros meses de isolamento foram terríveis. Os profetas do apocalipse elevaram os cadáveres a proporções que ainda não foram alcançadas, mas segundo aquelas visões obtidas diretamente do inferno, em poucos meses muitos cemitérios estariam contanto milhões de mortos. Tal postura fez com que muita gente realmente se trancasse em casa. Não vendo ninguém, não pisando na porta a não ser para receber o lanche que pediu por algum aplicativo, e o tempo todo de olho nas novas atualizações dadas pelos profetas do caos e suas profecias sobre o fim da humanidade.

As perdas, infelizmente aconteceram, e foram claras. As mortes ocorridas trouxeram muita dor aos que perderam entes queridos. Para consolo e esperança, a forma de reposta à doença que o mundo enfrenta não é letal, e muitos conseguiram se recuperar com maiores ou menores dificuldades. Mas as perdas ocorreram e, logicamente, abalaram os que ficaram. E para além dessas perdas, houve outro tipo de adoecimento, pois muitas pessoas não tinham uma vida confinada em casa, quase que em uma espécie de prisão domiciliar. Muitos idosos, outros jovens, e até adultos desenvolveram depressão e outras doenças psíquicas e os resultados foram de leves a graves. Também causando perdas de vidas. O fator psicológico não foi pesado devidamente no confinamento e os efeitos logo apareceram.

Mas nesse meio, um grupo de pessoas resistiram, por diversas formas, ao que foi imposto. Muitos simplesmente não podiam se dar ao luxo de ficar em casa. Um dia em casa era a falta do sustento do próximo dia. Procuraram rapidamente formas de se ocuparem, sejam como os entregadores que sustentaram muitas quarentenas gourmet, sejam com outras atividades – até mesmo clandestinas – para não ficarem sem ganhar o sustento da casa.

Com essa breve exposição ficam demarcados alguns tipos de pessoas que podem servir de tipo ideal para a explorar nosso questionamento central.


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Com exceção dos que adoeceram, dos que perderam entes queridos, dos que estavam trabalhando, muita gente, mas muita mesmo, ficou em casa com alguma tranquilidade. Passaram a quarentena em home office, sem a necessidade de se deslocar até o trabalho, podendo, muitas vezes, dar ao trabalho um ritmo muito pessoal – coisa impossível no escritório. A maioria esteve em casa, mais ou menos tranquilos, aproveitando as promoções dos deliveries, regando o período de isolamento a uma quantidade descomunal de álcool e postagens abundantes em falsidade nas redes sociais.

Nessa quarentena que teve desde gente comum com cerveja comum fazendo festinhas comuns particulares (ou nem tanto…) até aqueles famosos gourmetizadores da situação que queriam levar a muitos o bordão “quarentene-se” exibindo vinhos e queijos nobres. Tudo isso muito bem acompanhado de uma infinidade de lives de artistas mainstream (principalmente do pessoal do sertanejo universitário). Ou seja, havia muito o que poderia ser feito. A conectividade que foi exigida fez com que uma quantidade muito grande de pessoas pudesse acompanhar desde as notícias do apocalipse, aos “cortes de cabelo da quarentena dos famosos” e as lives musicais.

Parece que toda a desconfiança com relação à internet, das transações financeiras por esse meio, ao uso de aplicativos de compra e venda, ao estudo, foram colocadas de lado. Foi isso que restou para ser aproveitado. E considerando o tempo que foi ganho em casa, que pode ser pelo menos duas horas diárias representadas pelo translado casa-trabalho e trabalho-casa, nos deu novos hábitos. Muitos passaram a não desgrudar do smartphone, mas simplesmente para consumir conteúdo evanescente, fofocas e notícias do fim do mundo.

Aqui está aquilo que muita gente não se tocou: a possibilidade de avançar em alguma de suas intenções pessoais de crescimento, de ampliar/iniciar as leituras, de tirar um tempo para aprender um idioma, fazer tricô, aprender a investir na bolsa, fazer um curso novo. Isso foi completamente esquecido. O tempo ganho nem foi percebido. Acompanhar as fofocas e entrar na “intimidade virtual” de vidas alheias parece ter sido o melhor do confinamento.

No fim das contas, senhoras e senhores, o problema nunca foi tempo. Eis a grande verdade. O problema é a dificuldade de organização pessoal que pegou uma oportunidade de investimento no próprio crescimento e colocou na conta do ano perdido. As oportunidades online de fazer algum curso, ou encontrar conteúdos que poderiam vir a favorecer nossa vida pessoal, profissional, intelectual e espiritual foi uma das maiores já vistas. Foi nesse período que a perspectiva de ensino do pedagogo austríaco Ivan Illich foi colocada em prática. Ela é simples (e, por sinal, deveria ser o norte de qualquer condição de ensino) e tem por foco a ideia revolucionária de que se alguém sabe algo que é do seu interesse você pode ir diretamente até ele sem a necessidade de passar por qualquer tipo de escolarização. Em resumo: havia na internet um monte de possibilidades, uma quantidade enorme de pessoas oferecendo gratuitamente conteúdo dos mais variados, para todos os gostos. Era só usar a pesquisa da rede social, ou do buscador que conhece a vida de todo mundo, e pronto. Naquele momento poderia iniciar um aprofundamento em autores literários ingleses, ou saber como se faz uma dieta alimentar baseada em princípios indianos, encontrar o ramo de especialização que procurava há anos, fazer um curso gratuito sobre alguma questão bíblica e até tentar encontrar um novo campo de trabalho para complementar a renda.

Mas eis que muita gente que reclamava do tempo, e agora estava ele estava disponível, poderia muito bem aproveitar para alguma nova atividade. Mas o que aconteceu foi que passaram os dias pregados em eventos que nada mudaram suas vidas, em nada alcançaram as perspectivas pessoais. No fim das contas, como dito acima, o problema não era tempo, era um real interesse de iniciar, foi pura preguiça, foi organização e falta de capacidade de sair do conforto de não fazer nada novo. Na melhor das hipóteses, foi falta de informação.

No ano de maior quantidade e variedade de conteúdo e produtos disponíveis gratuitamente na internet, com quase todos fazendo uso diário da rede, muita gente ainda não conseguiu iniciar seus planos. Há tempo, o que acontece é que o tempo livre é muito malgasto. A preocupação com aqueles interesses das eternas listas “daquilo que farei quando tiver tempo” ficarão secundárias sempre que um famoso vier falar alguma coisa besta em sua rede, porque parece ser mais interessante saber da vida alheia que cuidar da própria.

O importante é: observando tudo que passou, o tempo ganho, as possibilidades de estudo e aprendizado de alguma coisa que era realmente importante (e não uma simples obrigação curricular, ou do trabalho), o que foi feito para trazer ao novo ano uma nova habilidade, um aprendizado, um crescimento pessoal? E o que essa questão traz não é nenhum comparativo com outras pessoas, tanto as que também viveram e acompanhar todas as lives de sertanejo universitário, ou as que criaram uma nova fonte de renda. A questão é pessoal, estritamente pessoal. O único padrão comparativo é você mesmo. Nesse comparativo, o que foi trazido de importante para 2021? Soube utilizar o tempo que ganhou? Em termos mais filosóficos, as circunstâncias foram reabsorvidas e respondemos a altura dos desafios que apareceram, das intenções de crescimento possuídas?

Se em nada as respostas são positivas, aqui há uma marcar para o problema e pode ser aproveitado algo de tudo isso. O principal que veio de 2020 é a constatação primordial de que o grande inimigo é você mesmo. Na maioria das vezes quem sabota tudo é você, e as oportunidades perdidas – que antes tinham a “falta de tempo” como bode expiatório – provam isso. Segue a sentença de um doutor da Igreja: “só devo ter medo de mim mesmo e da minha fraqueza”. A pouca iniciativa mostrou o quanto a autossabotagem é o mal do qual não havia o devido conhecimento. E o oposto disso é a crítica absurda e a comparação descabida com outras pessoas. O que deve vir para 2021 é um olhar para as particularidades, as circunstâncias pessoais e uma procura de alcançar a nobreza pessoal com muito trabalho. É o lembrete de realizar a vocação e o desejo de crescimento. Aprender a procurar, seja com o celular que está sempre por perto ou no computador, uma peça não somente decorativa no home office.

O aperfeiçoamento é missão pessoal, ninguém faz isso por outra pessoa. As chances perdidas no ano que passou servirão de lembrete do que pode ser feito se houver atenção às coisas certas e desligamento daqueles matadores de tempo espalhados como armadilhas contra o bom trabalho.

Isso está acessível a todos aqueles que passaram por 2020 e que pensam em atualizar com algum “feito” das listas de ações pessoais a serem realizadas.

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