Um balde de caranguejos

” O que é mais fácil: fazer algo realmente bom, sem a preocupação com os resultados alheios, ou decidir que o outro é culpado pelo seu fracasso e com isso eliminá-lo? Pois é, assim como Caim, nossos ressentidos contemporâneos, embebidos de inveja, fazem novas atitudes semelhantes a isso. ” 

Por Tobias Goulão

É interessante como aquelas observações populares possuem sempre um fundo de verdade. Vejamos que no Brasil todo mundo é técnico de futebol, médico, cientista político e professor. O defeito geral é o seguinte: são técnicos que não jogam futebol nem nas peladas aos fins de semana; médicos que nunca assistiram uma aula sobre fármacos; cientistas políticos de jornal da noite; professores que não resolvem nem os problemas dos filhos. É aquela história, “de médico e louco todo mundo tem um pouco”. Só que o sobressalente é a loucura, justamente porque não imaginam as besteiras que professam.

Nesse sentido, é interessante ver a maestria dessas almas críticas em se levantar contra qualquer coisa. Tudo que é feito vira motivo de colocar o autor da obra em cheque, sem nenhuma análise digna do termo. Os que ousam realizar algo são tratados por bregas, meros inventores de histórias falsas, revisionistas históricos, orgulhosos. Tudo isso porque ousam fazer alguma coisa e se dar bem em algo que os outros (os críticos) não conseguiram (muitas vezes nem tentaram). Bem, parece que encontramos um ponto importante aqui: há uma clara presença de inveja e ressentimento.

Primeiro, pensemos o ressentimento. Vamos usar algo do Nietzsche para isso, porque ele colocou o conceito de ressentimento em voga e porque muita gente não gosta dele. O “filósofo do bigode” ressalta que os ressentidos são aqueles que monopolizam a virtude, mas estão a todo momento preparando alguma vingança e, para nossas risadas, ressalta que “essa é a espécie dos onanistas morais que se ‘satisfazem em segredo’”, com o detalhe de que em nossos dias, com a conectividade da internet, exibem com toda a satisfação o seu ressentimento. Em síntese, deixa essa representação: “Estes são todos homens do ressentimento, estes fisiologicamente desgraçados e carcomidos”.

Podemos ver que, em boa parte, as justificativas de nossos técnicos, médicos e politólogos são bem próximas a isso. Todos estão com a plena verdade em si, o pleno gosto, a panaceia que resolverá tudo. Bom, sabemos que é só palpite, só “mau agouro” e, em algumas situações, o mero desejo de não ver ninguém melhor sucedido que eles. Ver outro ficar em melhor posição é inadmissível, portanto, vamos levantar a idéia de que ele não é bom, é brega, é feio e só anda com gente má. O que fiz melhor que ele? Nada. Mas o que ele fez também não é bom porque eu acho que não é bom e sou bom o suficiente para dizer quais esforços de gente que não é boa são de fatos bons esforços, principalmente se for de gente que não gosto por qualquer motivo.

Em boa parte, parafraseando Theodore Dalrymple, aquilo que o ressentimento mostra são justificativas para as más ações realizadas. Vejamos essa síntese e vamos procurar naqueles que sempre saltam a falar de alguma coisa que um opositor venha a fazer. O que realizaram? Se o fizeram e não obtiveram sucesso, farão milhões de críticas aos que agora tentam alguma coisa. É simples e fácil. O sistema não dá brechas e todos deverão cair. Mas se isso não acontecer é por motivo de “ajuda interna na repartição”, “de pura sorte e porque está de rabo preso”. O esforço individual não conta, não existe, e parece que a cordialidade e pessoalidade de qualquer relação sempre é o fator determinante. Ninguém por si só consegue alcançar algum sucesso por real esforço em realizar algo de alto padrão, que venha agradar uma grande parcela de pessoas. Para os ressentidos, parece que todos precisarão sempre de uma seleção de padrinhos, de teste do sofá, de passar ou receber alguma propina. Em alguns casos escutamos sentenças inquestionáveis dos nossos ressentidos nos seguintes padrões: aquilo que é algo meteórico, não vai durar, é passageiro e o Fulano realizador vai quebrar logo, não tem futuro.

Podemos tomar mais uma fala contemporânea aqui: “Ressentidos são pessoas que passam a vida buscando não sentir o que a vida é: falta de sentido, indiferença, incerteza, sofrimento”, escreveu o Luiz Felipe Pondé. E aqui elevamos a coisa a uma análise mais interessante. Muitos dos críticos de plantão, desses que espalham como um Grinch o fracasso do esforço alheio, tem alguma coisa. Não são completos nada. Já fizeram seu “par de meias” e possuem status em seus respectivos nichos. Mas, qual seria o problema aqui? Alguns não aguentaram ver alguém de que não gosta fazer algo e se dar bem; ou terem tirado do papel alguma idéia que nem pensavam em executar e realizar com muita categoria; então, simplesmente, despertaram aquele sentimento impactante que casa muito bem com o ressentimento, a inveja. Para ilustrar bem como ela funciona, lembremos de Caim e Abel. Como foi terrível ver alguém com sucesso na sua frente, como foi inconsolável sua falta de capacidade e como foi fácil culpar a existência de outro pela própria falha. O que é mais fácil: fazer algo realmente bom, sem a preocupação com os resultados alheios, ou decidir que o outro é culpado pelo seu fracasso e com isso eliminá-lo? Pois é, assim como Caim, nossos ressentidos contemporâneos, embebidos de inveja, fazem novas atitudes semelhantes a isso. E na impossibilidade de eliminar fisicamente a fonte de sua inveja, nada melhor que espalhar suas supostas “baixas qualidades” e incontáveis defeitos por todos os meios possíveis.

Por conta disso que podemos retomar a metáfora dos caranguejos no balde. Essa explicação foi dada por Olavo de Carvalho, referindo-se a ela mais de uma vez, e mostrou-se como uma ótima forma de ilustrar estranho caso dos ressentidos de nosso meio brasileiro (que não é de hoje vivem a se incomodar com o esforço alheio). Veja que ele comentou ser o nosso ambiente cheio de resistência a qualquer atividade pessoal. A patifaria, mesquinharia que reina é estranha, e sempre aparece alguém para falar mal, para atrapalhar, para dizer que não vai funcionar. Sempre haverá alguém à espreita para puxar seu tapete. Em uma breve exposição realizada para uma bancada de jornal, Olavo falou:

“A cultura aqui é a do ‘onde eu não dei certo outro não pode dar’. Se eu fracassei, você tem que fracassar também. É a cultura do caranguejo no balde: um está querendo sair e os outros puxam para trás.”

Pense em qualquer coisa mais ou menos inovadora ou mesmo trabalhosa que tenha tentado desenvolver e lembre-se de como foram as reações daqueles que viram. Mesmo a posteriori sempre aparecem os benditos dizendo “até que durou muito, ele não ia conseguir”. Todo momento alguém comenta um problema, uma dificuldade. Ajudar? Não mesmo. Por qual razão? Vão apenas usufruir de suas habilidades críticas e analíticas para falar mal.

O interessante é que não estão de posse de nenhum conhecimento daquilo que está sendo montado. Desconhecem por completo o processo, mas só em virtude de quem faz já decretam ser brega, ser feio, ser bobo, ser meme, como um bom Grinch. O resultado também é impossível de saber por um motivo simples: está no futuro e por mais que se achem politólogos, não tem a capacidade de um (se tivessem agiriam de outra maneira, com uma análise séria, mas são só sabichões).

Mas o intrigante de toda a leva de faladores é: o que estão fazendo para ajudar naquilo que sabem ser o alvo da nova ação apresentada? O que realizaram para romper a barreira global de controle de uma ou outra área? Por mais que seja brega, o Grinch não faz nada a não ser atrapalhar. De fato, o que estão construindo todos que estão a falar de algo que aparece em seu radar como um projeto de alcance massivo e de conscientização? Os críticos estão fazendo o quê? São somente resistência passiva frente aos que planejaram e executaram algo.

Esse é o problema: tudo vai ser criticado se não forem os ressentidos a fazer. E como são apáticos e vivem em um mundo ideal, nada farão naquelas proporções ou mesmo com intenções similares. Tudo será criticado, e partindo dessas observações, insira nessas premissas qualquer coisa que veja por aí. Seja um grupo de estudos sem o viés academicista, uma nova página de notícias, um novo negócio ou um Especial de Natal que surja paralelamente nos recantos desse nosso Brasil.

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