O ensinamento do presépio

Por Tobias Goulão

Na minha infância e início de juventude em terras da cidade de Pirenópolis, o tempo natalino sempre se relacionava a um evento familiar que procurava abarcar a todos da minha família materna. A partir do dia 23 de dezembro, mais ou menos, iniciava uma empreitada produtiva que culminava em uma bela comemoração na noite do dia 25. Nesses dias tínhamos que ir impreterivelmente para a casa da avó Laurita, local que concentrava uma larga produção dos empadões e demais receitas para a noite tão aguardada.  O mais esperado nesses dias era o momento de ajudar o avô Benedito – vô Dito – a montar o seu majestoso presépio.

Claro que no princípio, quando éramos crianças antes da primeira década de vida, a “ajuda” não era grande coisa. O presépio do vô Dito, ficava guardado o ano todo em caixotes na casinha de bagunças no fundo do quintal. Era retirado uns dias antes para que as peças, de uns trinta ou quarenta centímetros, fossem limpas. Depois ele iniciava a montagem da estrutura que abrigaria o memorial da Encarnação do Verbo. Utilizava uns três cavaletes, mais ou menos da altura de uma mesa de jantar, para firmar uma grade de madeira. Esta era coberta com papelão e um forro de plástico. O passo seguinte era espalhar uma fina areia vinda da pedreira da cidade (ao lembrar delas veio à mente o quanto as mulheres da casa reclamavam da sujeira que causava). Pronto! Agora a parte onde os netos poderiam ajudar: entregar e até colocar os animais naquela reprodução da entrada da Eternidade no tempo. Entregávamos cada um dos componentes da cena com muito cuidado, ou perguntávamos onde poderiam ser depositados, porque o vô Dito deixava claro que não era de qualquer forma, todos os animais estavam indo ver o Menino Jesus que seria disposto na manjedoura no dia 25. Tudo então era organizado segundo as ordens calmas do avô. Ele colocava as imagens da Santíssima Virgem, de São José, dos pastores já mais próximos e os Reis Magos na ponta mais distante. Nesse momento explicava que eles só chegariam até Jesus no dia 6 de janeiro. Havia umas casinhas de papelão que também completavam o cenário daquela Belém pirenopolina, junto com algumas pedras e um espelho quebrado que fazia as vezes de um lago onde alguns patos eram colocados.

Ao fim da montagem dessa cena, era preciso buscar alguns longos mastros de bambu em um bairro próximo. A função desse material era de cobrir todo o presépio, formando uma gruta, mas também o próprio céu. Parece estranho, mas o evento em si permite isso, já que é a literal entrada na Terra pelo Céu. Era nessa estrutura em bambu verde que umas dúzias de anjinhos feitos com umas bonequinhas de uns cinco centímetros e roupas de papel crepom ficariam suspensos junto com os pisca-piscas. Depois disso pronto, tudo era cercado com uns pequenos caixotes onde foram plantados arroz, e no seu germinar tínhamos mais um elemento que fechava a composição de nossa obra. Um presépio que chegava a tomar facilmente um quinto do espaço da sala da casa.

E com o tempo os netos do vô Dito foram crescendo e ganhando mais responsabilidades na armação do presépio, já que o avô não tinha mais toda a força de antes e precisava de umas ajudas que os meninos de outrora agora poderiam oferecer. Esse conjunto de atividades sempre marcou os dias próximos ao nascimento de Cristo na minha infância, e ainda hoje, mesmo com os netos de seu Dito e dona Laurita espalhados pelo mundo, já com famílias e uma vida que impede a participação plena em todos nesse evento, aqueles que ainda residem em Meia Ponte seguem com a ajuda. Mesmo com o falecimento do vô Dito, a vó Laurita ainda coloca os caixotes do presépio para fora e faz com que possamos ver, ainda hoje, aquelas imagens que moldaram todo um imaginário sobre a chegada do Redentor.

Uma perspectiva interessante nessa experiência de montagem do presépio do vô Dito é que sempre o tive como referência. Nem mesmo o mais famoso presépio da cidade conseguia fazer sua luz diminuir. Ou os presépios das igrejas, muito bem ornados, ou aqueles das raras instituições que fazem também essa lembrança do aniversariante do mês. O presépio da casa da vó Laurita que eu ajudava o vô Dito montar é o padrão para qualquer outro, isso por causa de toda dedicação vista, ano após ano, naquela mesma construção. Aquele trabalho todo que era realizado com a percepção de celebrar o Menino Deus, que culminava na oração do Terço no dia 25, data que também celebrávamos o aniversário da tia Josélia (in memoriam). Partindo do simples e familiar episódio de montar um presépio, com uma longa catequese que repetiu anualmente e fazia-nos lembrar daquele ensinamento de que tudo aquilo tinha seu centro na Pessoa de Jesus. Recebemos nesse ato simples um ensinamento de ouro.

Entre os Padres da Igreja podemos perseguir a observação contida no ensinamento do presépio, em especial com Santo Irineu de Lion (130-202) que expôs a maravilha da Encarnação do Verbo Eterno de Deus. Este evento que comemoramos anualmente remete ao significado de tudo mais que aconteceu e que acontecerá. É o resultado da pedagogia Divina, que reconduz o homem ao seu Criador. É justamente o Verbo se fazer carne, assumindo tudo que é da natureza humana, com a exceção do pecado, aquilo que vem ressignificar tudo que estava perdido. Daquela mesma forma representada no presépio, tudo se volta para o Senhor que vem ao mundo, tudo tem nele novo significado, nas palavras de Irineu, tudo é recapitulado na figura de Jesus Cristo, Verbo Encarnado. Ele, que vem ao mundo depositado em uma manjedoura, veio para encabeçar, ser o ponto máximo e inquestionável de toda sua obra. Ele dará um novo começo para a raça humana a partir de tudo que já foi feito, recapitulando tudo em si mesmo. Ele, como narrou esplendorosamente São João, “No princípio era o Verbo/ e o Verbo estava com Deus/ e o verbo era Deus./ No princípio, ele estava com Deus./ Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito”, o Verbo vem até o mundo, até o tempo deixando a eternidade, e nesse mundo, sua obra, refaz tudo segundo sua própria autoridade.

Foi pela encarnação que tudo ganhou um significado sobrenatural. O trabalho humano, condição para homem manter a vida, foi exercido pelo próprio Verbo. As lágrimas de dor pelo amigo morto, também foram vertidas na face do Verbo. A sede que sentimos também Ele sentiu. Tomando para si nossos problemas, fez deles algo de onde se significa toda a existência em uma obra contínua de construção da nossa vida pautada sob o madeiro: primeiro na manjedoura, depois nas traves da Cruz. A nova aliança firmada pelo Novo Adão entrega a graça que sobrepõe à culpa do primeiro Adão. O Deus feito carne que vem ao mundo é, por isso, aquele que significou todo o transcorrer da história, mostrando uma concatenação, tomando o uso do termo de outro Padre da Igreja São Gregório de Nissa (330-395), na qual é Cristo o elemento motor de tudo e que leva até à plenitude, sendo Ele quem irá restaurar a natureza humana. Há agora a propagação da graça cuja fonte é o Homem Novo, Jesus Cristo.

A percepção gerada de toda essa catequese patrística que encontramos aqui é sintetizada pelo Pe. Françoá Costa no seguinte trecho: “Qual é a finalidade da encarnação? Segundo Irineu é a recuperação da raça humana perdida em Adão. Para o bispo de Lião, a redenção é a causa da encarnação e a encarnação é a condição da redenção”. Tudo que importa para o gênero humano é proveniente do Cristo e se volta para ele. Assim como todos aqueles animaizinhos tinham que ser colocados apontando para o Menino Jesus, aprendemos que é toda a vida, toda a história humana, a história pessoal, que deve se voltar para o Filho de Deus feito homem.

Esse é o aprendizado retirado da observação da montagem de um presépio, temos que nos voltar para o Menino que vem dar sentido a tudo. Temos que utilizar esse tempo para preparar nossa casa para isso, voltando todos os atos para ele, esperando a chegada do Redentor cujos céus celebram em retumbante alegria! E, antes que esqueçamos, observar o maior dos eventos não é para todos, pois aqueles que foram até lá primeiro eram simples pastores cuja vida cotidiana estavam tocando. Nenhuma nobreza, nenhum luxo, nenhum palácio. Tudo de portas fechadas e foi aquela pequena gruta que revelou ao mundo o Salvador. Os Reis Magos, os sábios que o procuravam, demoraram um pouco para chegar. Talvez por isso essa catequese que me foi prestada na montagem do presépio por vários anos, preparando o caminho para uma compreensão mais rica da Tradição da Igreja e das obras de seus Santos Padres muito tempo depois. Antes de conhecer os sábios Padres da Igreja, foi o avô sapateiro de Pirenópolis, quem ensinou, com o notório saber da vida, que o centro de todo Natal (e, por consequência, da vida) deve ser o Menino Jesus.

Foi na doce pedagogia de uma família em suas reuniões natalinas, que por anos a fio, um avô firmou em seu neto, desde muito cedo, como deve ser o presépio, e este símbolo do Natal que sempre ajudamos a arrumar foi o material didático dessa grande catequese natalina que tivemos. A caminhada de anos, gradativa, sempre ali na sua casa, faz vermos como naquela arrumação do presépio – e eis um detalhe importante – nós todos estávamos sendo colocados também como uma de suas peças, sendo guiados para a manjedoura a esperar a chegada do Deus Menino.

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