Comentando sobre comentários

Cena do confronto final entre Beth Harmon e o russo Burgov.

“Beth precisa ser forte para não acreditar que somente seu talento e fama pode vencer tudo, mas precisa de esforço, concentração e muito estudo para chegar onde quer, ou seja, conquistar a Rússia, terra dos maiores enxadristas do mundo.”

Por Tobias Goulão

Faça um teste: procure por algum comentário (ou mesmo crítica) de alguma produção que esteja famosa no momento, filme ou série, e faça uma comparação entre aquilo que encontra, seja em vídeo ou texto. Caso não encontre por algum profissional da área, um estudante de cinema que vai destrinchar tecnicamente o filme/série, provavelmente encontrará um amontoado de comentários repetitivos, maçantes e sem muita atratividade.

Podemos dividir em duas etapas toda essa massa de comentários comuns: a) os que tratam de falar de questões técnicas; b) aqueles cujo tema será alguma discussão ideológica do reino das pessoas do bem. Inevitavelmente é isso o composto das observações sobre filmes/séries, podendo ser estendidas aos livros teensbestsellers. Repetições ad infinitum em um coro monofônico de temáticas vazias. Vejamos exemplos a partir de uma série que ficou por um tempo considerável no topo das listas de mais vistas no país, “O Gambito da Rainha”.

A série ganhou muita notoriedade e uma busca rápida nos mostra nos primeiros links as seguintes observações: “a série possui um figurino perfeito” e a isso soma-se “uma fotografia muito bonita” e, claro, “a direção foi muito competente”. São observações que partem de chavões técnicos, mas não dizem nada. O figurino é “perfeito”, explique o motivo (além de bonito pode ser dito que ele reflete muito o estado de espírito da personagem no transcorrer da série sendo a cena final uma possibilidade de ver, além disso, um referencial simbólico de apoteose/purificação). E a fotografia, esse deus ex machina que todos os “críticos em construção” usam como carta técnica na manga, o que ela traz (veja, na série a fotografia faz uso das cores mais frias, deixando o ambiente muito intimista para mostrar a personagem Beth fechada dentro de si, mesmo nas cenas dos campeonatos, ou nas viagens com a mãe e faz isso, além do uso das cores, pelo enquadramento que coloca ela no centro fazendo com que todo o resto fique dependente dela). E o que a direção fez para ser competente (bom, é todo o trabalho que vai de como lidar com o elenco, com as câmeras, com o enredo, e saber explorar todos esses campos dá uma amostra de como se dirige, ou seja, que o diretor tem um ponto de partida e um de chegada com algo definido a ser mostrado.


Leia também: O cultivo do espirito


A outra forma de comentários é ideológica, e consegue ser tão pobre quanto a primeira. Toda a história é reduzida ao machismo, às dificuldades da personagem ao enfrentar o mundo dos homens e coisas assim. Ficam nisso, em um elemento de composição histórica do enredo, que a própria série explora pouco (um ponto positivo) e dentro da história de Beth Harmon é de pouca importância. Como Beth aprende muito cedo a dominar a arte e o conhecimento sobre o xadrez, ela tem toda capacidade de entrar nesse mundo seja contra quem for. Por isso é pobre essa leitura, já que não agrega nas percepções do que a personagem vive realmente. Toda a redução ideológica de algo é empobrecedora, independente de qual seja a ideologia.

Esse tipo de apresentação de conteúdo, uma simples emissão de opinião sobre algo, aparece de forma pobre por alguns motivos, mas sintetizados em uma simples observação: falta de conteúdo do comentarista. As opiniões técnicas reduzidas a chavões mostram que falta conhecimento nesse campo e não é algo a ser relativizado, não conhecem a linguagem do cinema para além do simplório. Para uma opinião técnica tem que se ter um mínimo de conhecimento. As questões ideológicas são falta de aprofundamento na leitura de narrativas humanas. A pouca experiência sobre a vida humana, sobre como uma narrativa se constrói, sobre os elementos simbólicos com os quais estamos lidando, leva ao reducionismo ideológico. Sem saber o que apresentar além do mais óbvio e grosseiro, é isso que ganha espaço, pois a audiência de tais comentários só conseguirá ver isso no fim das contas. E vale lembrar que se uma obra artística é simplesmente panfletagem ideológica, ela perde seu impacto, mas se for uma narrativa na qual é possível experimentar a vida humana em seu drama, em sua complexidade para além dos problemas implicados pelas coletividades ideológicas, então é algo a contribuir para nosso experimento e conhecimento do ser humano, da ampliação da nossa imaginação moral e de melhor resposta a nossa própria condição.

Para observar quão importante é essa visão ampla e focada na possibilidade de realidade de uma vida humana narrada em uma obra audiovisual, deixarei alguns comentários sobre pontos importantes da série e aquilo que é singular e universal na história. Vamos partir do título, pois todo título é uma chave interpretativa daquilo que será exposto. “O gambito da rainha” é uma abertura do xadrez, como se inicia uma partida. É uma jogada na qual se sacrifica uma peça importante para se tirar vantagem no jogo. E com essa informação em mãos já podemos saber daquilo que será importante na história, o sacrifício de algo para que a rainha siga o jogo. Esta é, obviamente, nossa personagem.

Beth Harmon é órfã, passa parte da vida em um orfanato após a morte da mãe, lá aprende a jogar xadrez com o zelador do lugar. Em pouco tempo já demostra muito talento, que o sr. Shaibel trata de ir lapidando e mostrando que não é só o talento que importa, mas também o esforço e o estudo. Primeiro ponto: sem esforço, sem estudo, ou seja, sacrifício, não se chega a nenhum lugar. Mas junto da descoberta daquilo que será o motor de sua vida, há uma queda muito grande. Beth torna-se viciada em calmantes, ao ponto de ter crises de abstinência, roubar a farmácia do orfanato e ter uma queda que será repetida no transcorrer de sua vida. Serão as drogas, o vício em um prazer reconfortante que se obtém rapidamente, seu calcanhar de Aquiles.

Desde o princípio a personagem vai se colocar nessa encruzilhada, entre o xadrez e o vício, que é ampliado com a adição do álcool. É uma luta pessoal, um drama humano por excelência e por isso importante de ser mensurado. Beth precisa ser forte para não acreditar que somente seu talento e fama pode vencer tudo, mas precisa de esforço, concentração e muito estudo para chegar onde quer, ou seja, conquistar a Rússia, terra dos maiores enxadristas do mundo. Sem o controle de si, sem a luta ascética para dominar seus impulsos, ela chega a todo momento às portas do sucesso, mas é impedida por ninguém menos que ela mesma.

Sua fraqueza é justamente sua dependência dos artifícios enganosos das drogas. O que a sustenta e impede de naufragar a todo instante é seu desejo de jogar xadrez e de ir além a cada partida. É um combate entre os pontos mais básicos da condição humana, é a decisão entre o conforto imediato e a resolução de uma missão pessoal, intimamente pessoal, que ninguém pode realizar por ela: a o encontro de sua vocação, ser enxadrista. Os vários amigos tornam-se peças importantes nessa história, mas o que podemos dizer ser o clímax de tudo é a decisão da própria Beth em olhar para si, decidir seu caminho, segurar no que é importante e fazer disso sua tábua de salvação. No seu naufrágio pessoal, o tabuleiro de xadrez foi quem sinalizou que estava a se perder em um oceano de desgraças pessoais já iniciado e era hora de tomar a decisão final.

O momento de aceitar aquilo que ela mesma sonhava para si, de tomar posse desse seu sonho e de seu futuro faz com que abandone os prazeres do vício. A possibilidade de perder sua vida no xadrez fez do jogo, seu real prazer e meio de viver, algo mais importante. Sua metanoia veio da possibilidade de não mais conseguir outra chance de vencer a Rússia, ou melhor o russo Burgov. E na percepção dessa condição que vemos alguém se transformar por algo maior, deixando todo o supérfluo para traz, avançando da simples autossatisfação para uma real busca vital.

Tudo que fora projetado, aquilo que compunha seu projeto vital, o “para quê” de sua vida está no xadrez. Ela é boa nisso, sabe que é, e entende seu potencial para a vitória que almeja. Desde criança o sentido de tudo que faz é encontrado no xadrez, abandoná-lo agora por ninharias era se entregar ao mais baixo, era sabotar a si mesmo. Seu crescimento, a saída do “ventre da baleia” leva até o conflito final. Ou melhor, o conflito vital, no qual precisa provar sua capacidade a si mesma. E ao descobrir esse seu papel, entender sua circunstância, seu “quefazer”, nenhuma outra coisa importa. Deixa de lado brigas políticas e ideológicas, mira no alvo final e o final é a consagração da heroína como tal: vitoriosa sob si mesma. E lembremos, que o senhor de si é capaz de realizar qualquer desafio.

Esses pontos vitais, elementos simbólicos da própria vida humana, de seu drama e sua realização, são o singular na vida de Beth, e é isso que devemos tomar atenção e experimentar. Ao desenvolver toda essa dramática narrativa, ao conhecermos essa história/vida, entramos no campo do confronto de uma possibilidade de realidade – a história de Beth – e as realidades pessoais que estão frente a aquele desenvolvimento. A universalidade da necessidade de vencer a satisfação fácil, o desejo de estar sempre sendo amado por outros e de estar em perpétuo gozo é um drama a ser vencido por qualquer um. Por isso mencionei acima a cena fina: é nela que vemos, na face de Beth, em uma cena que a leva para um paraíso, composto de mesas de xadrez e inúmeros adversários novos, a rainha que sacrificou algo que parecia importante, mas que deu a ela a possibilidade de apoteose, muito bem simbolizada pelo acolhimento dos senhores da praça de xadrez. Beth se superou, mostrando esse detalhe importante na narrativa simbólica, mítica, que acompanha toda a vida humana que deve se projetar, entender e reabsorver as circunstâncias para poder encontrar o que importa.

Ao ver a história sobre esse ângulo, pela experimentação da vida, uma narrativa de queda e ascensão, entramos nas grandes histórias humanas. Aqui, não no coletivismo, mas na observação simbólica e na análise do “projeto vital” que a história é descrita de forma bela e cativante. Pois é história de vida humana, de uma vida similar a nossa vida pessoal. Esta, desde sempre, precisa de referenciais, de exemplos, para vencermos nossa fraqueza.

Ao invés de lançar os problemas para o coletivo, devemos olhar para nós, com o escudo de Perseu, encarar e decapitar a Medusa que pode nos petrificar no vício infame.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui