quarta-feira, dezembro 8, 2021
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O cultivo do espírito

Por Tobias Goulão

Quando deparamos com a obra do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos (1887-1959) podemos perceber um diálogo com o próprio Brasil e também com o restante do mundo da música. Não podemos dizer que ele é um fenômeno isolado, ele é o produto de um trabalho pessoal de assimilação de séculos de música, de inúmeros compositores, e ao se inserir no diálogo realiza uma obra original, mas sem esquecer daqueles que inicialmente traçaram o caminho. Uma de suas mais belas composições são as Bachianas, em especial a nº 5. Belíssima! Vejo como uma obra de gênio, algo que o Brasil lega ao mundo e não pode ser esquecido. Essa composição não existiria sem o nosso maestro ter bebido da fonte da obra Johann Sebastian Bach (alemão, 1685-1750). Sem esse cultivo, também realizado por outros compositores nacionais – ao exemplo do violonista carioca Baden Powell (1937-2000) -, seriam como nossos exemplos contemporâneos que, no máximo, entram em paradas de sucesso e depois de algumas semanas precisam criar algum tipo de polêmica (política, social, sexual, ou fazer palhaçada na internet) para serem lembrados novamente. Enquanto isso, nossos compositores universais continuarão a ser estudados mundo a fora.      

Essa distinção entre os universais e os temporários nos leva a pensar o que é esse cultivo realizado para poder dialogar com o mundo. Obra de grande mérito, necessita de tempo e esforço, revela a importância imprescindível de cultivar o espírito, ou seja, entrar no campo da alta cultura. Esta é justamente isso, um conteúdo universalmente compreensível, em contato com os homens de todas as eras e lugares, responsável pelo crescimento do conhecimento/experimento do ser humano sobre si mesmo e sobre o próximo. Em suma, é a excelência humana, a sua razão histórica, contra a ocultação do passado, da herança recebida e que sustenta nossa condição atual.

Dizer que há uma alta cultura pode parecer um crime, mas podemos nos lembrar de ser ela existente, sim, além de ser muito importante. Esse domínio do passado e sua apreensão no cultivo do espírito no diálogo com aquelas pessoas reconhecidas como grandes em todas as eras não pode ser negado. Mesmo sob o domínio do conceito sócio-antropológico de cultura, cuja definição coloca toda a ação humana como sendo cultura humana (e se for entendido apenas nesse campo, serve como ferramenta de conhecimento, mas não de guia para a vida humana), é preciso trazer à tona o diálogo universal, a busca pelo experimento e entendimento da condição humana e da comunicação dos homens de hoje com aqueles do passado os vindouros.

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Aos céticos, incapazes de perceber por si mesmos essa realidade, vejamos como outros autores, de maior gabarito, expuseram o problema.

O médico psiquiatra britânico Anthony Daniels, com as obras escritas sob o pseudônimo de Theodore Dalrymple, em uma série de viagens pelo mundo pode observar como algumas coisas são visivelmente universais. Utilizaremos aqui de sua reflexão sobre Shakespeare e como consegue traduzir o cultivo do espírito em universalidade do entendimento humano contida no livro Nossa Cultura… ou o que restou dela. Ao escrever um ensaio sobre o bardo inglês, o faz mostrando como as ambições modernas são tolas e a resposta para tamanha prepotência já estava em Macbeth. Com o anúncio do prozac como a panaceia para eliminar a angústia da vida humana, ele retorna ao pedido na peça shakespeariana na qual vemos algo similar. A questão que se coloca é que nas obras de Shakespeare (e, por consequência, dos outros gigantes da literatura) há grandes análises da condição humana, muito mais apuradas que as atuais. Assim “toda vez que nós modernos consultamos os seus trabalhos, apreendemos um insight mais profundo no coração do nosso próprio mistério”, escreveu Dalrymple. Veja bem, o importante é o diálogo com esses autores e com aquilo que já expuseram.

É em Macbeth onde encontramos mais que uma peça, ela é um estudo sobre a ambição e o mal causado por ela. Podemos perceber como essas características fazem parte da natureza humana caída e isso é apontado por Shakespeare em uma narrativa na qual a vida humana expressa todo esse problema com o drama específico da dramaturgia. É a condição que nosso ensaísta lembra o peso dessa história e de seu autor, pois escreve que “Shakespeare vai direto ao coração do mal humano, considerado sub specie aeternitatis. Shakespeare se interessa pelas essências da natureza humana, não pelos acidentes da história”. O texto e a execução da peça shakespeariana foram circunstanciais, mas por serem primeiramente realização de uma pessoa humana tratando da realidade radical da vida humana, podemos fazer uso desse “estudo” e a partir dele nos aprofundarmos naquilo que é seu ensinamento principal. Ao fim, nessa universalidade shakespeariana, podemos entender o relato de Dalrymple: “se Macbeth fosse somente uma tentativa de legitimar o governo do rei James I, dificilmente teria sido traduzida para o zulu, em cuja língua certa vez vi a peça ser encenada, e não teria feito todo o sentido para a plateia zulu. Macbeth é a prova viva da universalidade da grande literatura”.

Ao tratar da maldade, tirania e como isso leva à morte de várias pessoas e a responsabilidade de Macbeth nessas realizações; ao mostrar a influência de Lady Macbeth sob seu marido através da humilhação, movida por uma profunda ambição encontramos sentimentos e condições humanas analisados na peça de modo a mostrar como podemos pensar na prevenção do mal – para além do lugar comum dos arranjos sociais: isso exige sempre autocontrole pessoal e uma limitação consciente dos desejos. Ora, deste ponto podemos transitar pela leitura de Santo Tomás de Aquino ao comentar as virtudes, e por consequência chegamos em Aristóteles. Ainda podemos nos encontrar com a ascese tão louvada pelos Padres da Igreja, ou mesmo começar a tratar do tema pela contenção estoica. A nossa caminhada para as raízes da contenção do mal chegaria até Ulisses e o aviso que recebe para conter-se frente ao rebanho da deidade, sendo isso condição do retorno até sua casa, o narrado segundo Homero. Os grandes sempre estão em diálogo.

Esses autores não são simples homens de seu tempo, vejam que um traz em si o outro e isso nos leva a compreender bem esse diálogo entre as gerações, o cultivo do espírito e o sábio uso da herança que recebemos.

Observação que levou Olavo de Carvalho a traçar as seguintes linhas: “Aristóteles ou Dante, em contrapartida, não são de seus respectivos tempos: são do nosso, como foram e serão de outros tantos. Sua mensagem não seleciona os destinatários pelo preconceito cronocêntrico que faz do hoje o umbigo e o topo das épocas. Ela brota como que de um instinto da supratemporalidade, sem o qual não pode existir nenhum senso da unidade da espécie humana, portanto nenhum humanismo autêntico, nenhuma fraternidade que não seja a da massa vociferante em torno da guilhotina”. A mensagem trazida por eles pode ser entendidas por nós pela nossa condição radical, de sermos também humanos, em um mundo que nos é dado e que precisamos lidar com ele em seus vários níveis históricos já percorridos. Como Olavo vai escrevendo, compreendemos o que eles transmitem porque em nós há em potência os valores universais tratados, entendemos esse sentido, pois vale para todos os homens, assim como foi mostrado acerca da obra shakespeariana. Tais produtos são produções do estrato superior da cultura, da sensibilidade artística ou reflexiva de pessoas que se inseriram no diálogo com o universal, buscando salientar o que é característico do humano. E podemos voltar ao Olavo de Carvalho para uma ótima explicação do lugar dessas obras. Vejamos: “Os produtos do estrato superior da cultura, por sua vez, nem se explicam inteiramente por suas raízes locais nem são de maneira alguma intransponíveis, mas, ao contrário, são a própria voz que intercomunica as culturas locais no grande diálogo da cultura humana, por cima das diferenças de tempo e lugar”. Mais um exemplo para isso a nível local é a literatura de Machado de Assis, pois ele está inserido na tradição literária universal, respondendo a ela, mesmo com os traços locais dos quais foi gestada. Essa condição nos leva a pensar o que sempre resta de algum povo ao seu fim. Restou do Brasil Imperial e alcançou o mundo minúcias circunstanciais ou justamente o pensamento de Machado de Assis, justamente por possuir esse sentido permanentemente renovável?

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Faz-nos pensar, por conta dessas distinções, uma hierarquia entre as atividades humanas. Pois temos uma infinidade de materiais escritos, gravados e sobreviventes na tradição oral, mas o que entre eles é maior, melhor elaborado, dito de maneira nua e crua: como podemos valorar a atividade humana entre as várias existentes? A resposta ao trato com a hierarquia das perfeições, daquilo que foi melhor realizado e pode ser considerado obra a cultivar o espírito e entrar no diálogo entre as gerações, foi mostrada por Aldous Huxey, na obra A situação humana, de maneira interessantíssima. Em uma conferência relatou a seguinte passagem: “Acredito intensamente que há uma hierarquia de perfeições. Podemos ter uma perfeição artística em escala bem pequena, mas é uma perfeição de ordem inferior à perfeição em grande escala, que envolve a harmonização de muitos aspectos da experiência. A canção “Full fathom five thy father lies” é uma perfeição. Não há dúvida quanto a isso. É uma pequena peça de poesia incrivelmente bela. Mas direi que essa perfeição é de ordem inferior à perfeição de Macbeth ou Hamlet, que combinam uma imensa massa de material, formando um todo artisticamente satisfatório”.

Aqui chegamos ao ponto de partida, e, com o círculo fechado, lembro aos eventuais leitores, que essa obra universal do gênero humano é o chão de nossa estadia atual na vida. Sem essas obras a existência humana seria mais triste, embalada pelo que chamam hoje de música e pela falta de criatividade literária abundante nas prateleiras (nem mencionarei as dificuldades de encontrar boa reflexão filosófica, histórica, etc.). Devemos lembrar de ouvir as gerações passadas, de tomarmos suas palavras para alimentar nosso espírito, não sermos prepotentes ao ponto de ignorar tudo que veio antes achando sermos, nós modernos, o suprassumo intelectual da espécie. Sem absorver o passado, somos pobres anões incapazes de ver qualquer coisa importante. Inventamos a roda diariamente apenas pela fama, por estar nos mais vendidos, o que passará como a poeira dos campos de Troia, esquecida, enquanto Aquiles sempre estará em nossa memória.

Tobias Goulão
Prof. Ms. Tobias Goulão, professor graduado em História (UEG) e Filosofia (Faculdade Católica de Anápolis), e mestre em História (UFG).

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