domingo, dezembro 5, 2021
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O VÍRUS DEMOCRÁTICO

“Se dizem que o vírus foi politizado é porque assim nós fizemos. Contrariando nossos mais elevados ideais, admitimos que podemos colocá-lo no tabuleiro do jogo político.”

Por Danilo Barbosa

Futebol, cerveja e carnaval, eis a paixão dos brasileiros, diria o mais boêmio entusiasta. Início esta coluna fazendo memória de uma pesquisa lida há algum tempo onde revelava as “paixões” nacionais. Bom, disso sabemos bem e até comungamos dos mesmos sentimentos comuns. Mas, ainda, quero aqui recordar que paixão é aquilo que nos coloca em movimento, nos direciona para algo. Sim, nós buscamos isso e nos sentimos satisfeitos quando alcançamos. É natural. Porém já se questionou se é somente isso que move você e eu? É evidente que não. Há muitas outras coisas e em sua maioria de dignidade desmedida. Contudo, gostaria de lembrar de uma outra paixão nacional que, praticada por todos, raras vezes é lembrada em pesquisas desse tipo: a política. 

 Sendo mais objetivo, não apenas a política – como ciência que visa e busca o bem comum – mas a o jogo político. Diga-me, qual grande agregador capaz de colocar adversários de outrora abraçando-se e festejando juntos? Perdão, nosso carnaval e futebol não possuem essa capacidade, talvez com algumas latas de cerveja possamos fazer isso…, mas o jogo político sim, ele possui essa força. Se é que podemos designar como força. Há 4 anos adversários, de cores e “ideais” divergentes, hoje aliados na mesma tonalidade. No jogo político todos são envolvidos, uns de forma direta, outros de maneira indireta. Existem aqueles que cantam o jingle do candidato, os que dançam e ainda os que reclamam. Todos participam.

 Alguém poderá dizer que isso é democracia. Na contemporaneidade, democracia é entendida como política que possui o homem em vista, objetando as políticas que enxergam este mesmo homem apenas como mero instrumento. A democracia, como entendemos hoje, traz um novo significado sobre o homem e sua participação política: um conceito que compreende todos os homens e os tornam politicamente ativos através do sufrágio universal – o voto. Não obstante ao direito adquirido de votar e participar das escolhas da sociedade, o cidadão não goza de plena liberdade propriamente dita, uma vez que o voto, o seu direito, é um ato obrigatório. Mero detalhe.   

 Quero, pois, falar de um novo agente político: um vírus. Sim, um vírus. Estranhei o fato de descobrir que um vírus gosta tanto do jogo político quanto qualquer indivíduo que é conduzido por suas preferências de candidatos e partidos. Você e eu, meros cidadãos, podemos tirar algumas horas do nosso tempo para dedicarmos à campanha partidária defendendo nossas ideias. Mas já se atentou ao fato que nos últimos dias descobriu-se algo realmente surpreendente: um vírus “tirou alguns dias de férias”. De repente, por uma incrível coincidência, os casos de contaminação e morte não foram noticiados em larga escala no período de campanha eleitoral. Por algum tempo parecia que havíamos, enfim, nos livrado dessa praga que já tanto assolou nosso lar.

 Dados oficiais[1] mostram que nos dias que antecederam o pleito eleitoral houve um aumento exponencial do número de notificação de óbito devido ao vírus. Todavia, você se recorda de haver divulgação maciça desses números? Sim, sabemos que o vírus continuava a circular e, por um intervalo, em maior número de casos de transmissão. O que aconteceu? Talvez uma realocação das prioridades dos grandes noticiários. Antes longas reportagens, depois uma manchete brevemente comentada. Não sei você, mas eu ficaria mais receoso em comparecer a um local de votação sabendo que a chance de ser contaminado estivesse multiplicada. Mesmo sob o risco de sofrer sanções, eu poderia abdicar-me do meu direito democrático, mas o vírus não. Ele exerceu esse direito, por um tempo ficou “inoperante” e vestiu algumas cores partidárias. 

 Quando mencionei o vírus como um “agente político” escrevi com máxima carga de ironia com a qual eu poderia utilizar. O vírus da covid-19 não deixou de existir, as transmissões não cessaram, as mortes, infelizmente, continuaram. Também devo fazer justiça e salientar que as notícias sobre não deixaram de ser produzidas, apesar da baixa divulgação. O que, de fato, ocorreu? Fomos nós os culpados. Explico: possuímos o hábito de envolver tudo e todos em nossas paixões. Acaso não queríamos que nosso vizinho compartilhasse da mesma opção política que a nossa? Sim, gostaríamos e temos a inclinação de ficarmos perturbados quando somos contrariados. Colocamos o tal vírus no processo político e assim ele assumiu o seu papel nesse grande processo democrático, digno talvez de um aplauso de Montesquieu[2]

 “Fique em casa” até meu candidato promover uma carreata. “Use máscara” até precisar me comunicar com o estranho na esquina do local de votação, aquele cidadão, um voto em potência, perambulando sem saber em quem depositar a sua esperança pelos próximos quatro anos. Juramos que o desonrado é aquele que prometeu e não cumpriu: “daqui a quatro anos, se ele não fizer nada eu o tiro com o meu voto”, mas a verdadeira desonra se dá entremeada nas nossas próprias ações primeiramente. Se a fidelidade é a honra das relações, no jogo político, não raras vezes, vejo-me sem fidelidade nos meus vínculos. A primeira desonra parte de mim, sou eu quem não honra a palavra antes assumida e, por um capricho das paixões partidárias, bato no peito e canto, como naquela velha canção ideológica: “o brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor”. O “brilho do meu canto” pode valer, quem sabe, um saco de cimento… “a expressão da minha cor” pode valer o desdenho de um vírus altamente contagioso. 

 Se dizem que o vírus foi politizado é porque assim nós o colocamos e, contrariando nossos mais elevados ideais, admitimos que podemos colocá-lo no tabuleiro desse jogo político. E, se pensamos em um tabuleiro, devemos recordar da sua posição geométrica: horizontal. Nossa visão é limitada e, quase sempre, cega pelas nossas preferências. Olhamos quase tudo pelo prisma do horizonte. Tudo é plano. Nessa perspectiva o homem é visto rebaixado, estropiado. Aliás, é assim que Montesquieu – citado acima – enxergava o homem. Para ele não existia uma visão elevada – visão esta que seria facilmente compreendida a partir do simples fato do exercício da liberdade, coisa que deveria ser característica predominante em uma democracia (sic). Enfim! 

 Sim, existe um vírus democrático e fomos nós que o democratizamos, espalhando-o por contato e ideias. 


[1] https://covid.saude.gov.br/

[2] Charles-Louis de Secondat, barão de La Brède e de Montesquieu, conhecido como Montesquieu. Foi um político, filósofo e escritor francês. Conhecido pela teorização das formas de governo e suas separações.  

Danilo Barbosa
Licenciado em Filosofia (Faculdade Católica de Anápolis), licenciando em Pedagogia (Instituto Coimbra) e pós-graduando em Ensino de História e Geografia (Instituto Coimbra).

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